M., de 34 anos, começou a beber cerveja aos 16 anos e aos 18 já era um dependente de álcool
"Tenho que manter longe. Estou vivo, mas muitos amigos não venceram' (César Rodrigues/AAN)
Num ato desesperado contra a dependência do álcool, o mineiro que se identifica apenas como M., hoje com 34 anos, pediu que uma antiga namorada o trancasse em seu apartamento e fosse embora. A ideia era que não tivesse contato com bebidas por algum tempo. Horas depois, porém, o restaurador de livros e músico, que já tentou o suicídio três vezes, virava uma lata de thinner garganta abaixo. Por muito pouco, o resultado não foi a morte.
O primeiro contato com a cerveja foi aos 16 anos. O caminho da dependência despertou um monstro que já o obrigou a beber acetona, álcool de cozinha, desodorante e até perfumes para amenizar o desespero, a fissura.
“No começo, bebia socialmente com os amigos nos finais de semana. A cerveja me deixava mais extrovertido. O álcool dava uma sensação de poder que eu gostava. Era mais fácil tocar em público, arrumar namorada. Parecia que todos os meus problemas desapareciam”, lembra M., que se apresentava em bares e já tinha dificuldades em casa, com o alcoolismo dos pais.
O que era prazer virou escravidão aos 18 anos, quando ele bebia e não se lembrava do que havia feito na noite anterior. A reboque do álcool vieram a maconha, a cocaína e o crack. Aos 19 anos, passou pela primeira internação, quando ficou nove meses sob cuidados médicos. Na luta travada contra o vício, conseguiu ficar dois anos afastado dele. Mas alguns goles trouxeram os fantasmas de volta e os momentos de paz acabaram.
Sob domínio do crack, M. chegava a fumar até 20 pedras por dia. “Perdi uma empresa de decoração de interiores, um carro, namorada e 30 quilos. Fazia curso de psicologia em uma faculdade de Uberaba.
Tudo foi embora. A droga e o álcool o colocam em uma tal situação de baixa autoestima que detonam tudo de bom que você tem”, lamenta. A saúde também ficou comprometida. Os rins e o fígado apresentaram problemas.
Autor de cerca de 200 músicas, M., que ainda toca violão, gaita e flauta, ganhou festivais com seu trabalho, mas a dependência o puxava para baixo. Chegou a morar na rua para se distanciar da família, não queria ser motivo de preocupação e tristeza.
“É muito bom beber e usar drogas, mas o preço disso é a vida. Já fiquei internado em clínica, passei dias em um sanatório. Perdi oportunidades, mas ainda tenho tempo. Estou longe da bebida há dois meses e meio; mantenho a filosofia do só por hoje”, afirma.
Taça de vinho
Na jornada contra o vício, M. descobriu que qualquer recaída é um precipício. Num de seus tratamentos, ficou sete anos longe da dependência. Mas bastou uma taça de vinho tomada despretensiosamente para despertar todos os pesadelos.
“Por mais que você possa estar mal, o álcool sempre pode deixar pior. Ele é uma chave que abre toda uma situação ruim. Tenho que me manter longe dele. Estou vivo, mas muitos amigos não venceram esse problema e estão mortos”, afirma o músico.
M. hoje passa por acompanhamento na Fazenda do Senhor, local ligado à Instituição Padre Haroldo Rahm, entidade que já ajudou mais de 70 mil pessoas em seus 35 anos de história em Campinas.
“A instituição tem funcionado muito para mim. Ela oferece as ferramentas que eu preciso para continuar limpo”, agradece o músico, que pretende continuar sóbrio e escrevendo suas letras, confiante na vitória ao enfrentar um dia de cada vez. No momento da entrevista, ele já estava há quase três meses sem beber.
Sem política adequada, um drama para a saúde pública
A falta de uma política de conscientização mais eficaz em relação ao consumo do álcool nas diversas camadas e faixas etárias da população causará, em um futuro próximo, mais um drama para a saúde pública brasileira. “Daqui a dez ou 15 anos teremos filas enormes para transplantes de fígado, por exemplo. Tudo pelo uso descontrolado do álcool. Esse é um problema grave e que só aumenta com o passar do tempo”, alerta o delegado responsável pela Divisão de Prevenção e Educação do Departamento de Investigação Sobre Narcóticos (Denarc) de São Paulo, Reinaldo Corrêa.
Ele lembra que o abuso do álcool é quase irracional. Quando não há dinheiro para garantir uma nova dose de pinga, muitos recorrem a algo bem mais barato, mas igualmente prejudicial: o vinho químico, uma mistura de álcool de cozinha, com corante e adoçante.
Outros chegam a misturar álcool combustível com refrigerante. Um alívio para a fissura e uma bomba para o organismo.
“Infelizmente, essa é uma realidade entre muitos dependentes do álcool, principalmente entre a população de baixa renda. Quando o indivíduo não tem condições de comprar a bebida para saciar a sua dependência, acaba recorrendo ao que é mais barato”, afirma o delegado.
“Temos casos de jovens que misturam Coca-Cola com etanol. Eles pegam garrafas pet e colocam pelo menos dois terços do combustível misturado com o refrigerante”, conta Corrêa.
“Essas pessoas são doentes e a dependência chega a tal ponto que não há limites”, lamenta.
Miséria
O psiquiatra e coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dartiu Xavier da Silveira, ressalta que o abuso do álcool não tem classe social ou faixa etária, mas entre a população mais pobre, a situação é mais calamitosa. “Em lugares como a cracolândia da Capital existem pessoas vendendo e bebendo o chamado vinho químico”, afirma. Em Campinas, regiões como a do Mercado Municipal e do Terminal Central são áreas onde o problema também ocorre.
QUE SERÁ QUE FAZ DA GENTE SER GENTE?
(Autoria: M. 34 anos, músico e compositor)
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