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Brigada civil age de maneira autônoma no combate ao fogo

Entidade que atua na prevenção e combate a incêndios oferece formação a voluntários

Thiago Rovêdo / thiago.rovedo@rac.com.br
24/06/2022 às 21:16.
Atualizado em 25/06/2022 às 10:06

Integrantes da Brigada Popular Cachorro-do-Mato em ação de combate a incêndio em área de mata: focos de queimadas cresceram 40,9% este ano em relação ao mesmo período de 2021 (Divulgação)

Em 2020, após um grande incêndio no Cerrado e na Amazônia brasileira e a consequente preocupação com as matas locais, um grupo de Campinas e região criou a Brigada Popular Cachorro-do-Mato, uma entidade sem fins lucrativos e autônoma, que age na prevenção e combate a focos de incêndios em matas, além de oferecer, de modo gratuito, a formação de brigadista a voluntários interessados. Hoje, já são 24 pessoas aptas a atuar em situações desse tipo e uma nova turma será aberta em setembro deste ano.

Os focos de queimadas cresceram 40,9% este ano em relação ao mesmo período de 2021. Os dados são do sistema BDQueimada, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e se referem ao período compreendido entre 1º de janeiro e 7 de junho de cada ano. Em 2022, o mês de maio foi o mais crítico e concentrou 41% de todos os focos de incêndio de 2021. Segundo a Defesa Civil, que iniciou a Operação Estiagem no mês passado, os próximos meses devem ser de alerta, com o aumento de incidências devido à estiagem.

Bombeira civil e trabalhadora da área no Aeroporto de Congonhas, na capital paulista, Dulcinéa Lopes da Silva, instrutora e responsável técnica da entidade, contou que ela e um grupo da Associação Protetora da Diversidade das Espécies (Proesp-Campinas) estavam se organizando para ajudar no resgate de animais dos incêndios de 2020 quando ocorreu o mesmo em Campinas, na região da Área de Preservação Ambiental (APA) de Sousas, que durou cerca de uma semana.

"Ninguém conseguia apagar. Os proprietários de áreas próximas precisavam ajudar, porque o Corpo de Bombeiros não dava conta. Então, os moradores se organizaram e até alugaram maquinário também. Nesse meio tempo, pensamos que, em vez de ir para o Mato Grosso, deveríamos cuidar para não perder o que temos aqui. Foi quando surgiu a ideia de montar a brigada", recordou.

O grupo passou a pesquisar e entender o que era preciso para montar um treinamento. Dulce, como é conhecida a bombeira civil, procurou os colegas bombeiros e antigos professores para conseguir dicas, teorias e afins para estruturar o curso. "O treinamento não é fácil. Tem gente que acaba desistindo no meio do caminho. Hoje são 24 formados e seis esperando mais um módulo para se formar. Em setembro deste ano vamos dar início à segunda turma", explicou.

O primeiro treinamento começou em setembro de 2020, com foco em prevenção e combate a incêndios, composto de 40 horas de atividades entre teoria e prática. "Nosso foco inicial foi em formação, porque entendemos que a natureza precisa ser respeitada e o combate ao fogo, como atividade de altíssimo risco, necessita de conhecimento e preparo", afirmou.

Dulce esclareceu que neste primeiro curso foram formadas duas turmas: uma para a Brigada Cachorro-do-Mato e outra para a Brigada Pica-Pau, que é responsável especificamente pela Floresta Estadual de Serra D'Água, localizada na região do Parque Jambeiro, em Campinas. "Eles trabalham também no âmbito do planejamento. Nossa atuação deveria ser muito mais na prevenção e se tivéssemos recursos para isso, com certeza haveria bem menos incêndios", explicou. 

Problemas relacionados a esse tipo de queima são alvos da Operação Estiagem, que começou em 1º de maio e segue até 30 de setembro. Em todo o ano passado, a operação identificou 427 focos de incêndio junto ao Inpe, sendo a maioria, 166, ocorridos no mês de julho. Segundo a Defesa Civil, é neste período, a partir deste mês e se estendendo até setembro, que o município convive historicamente com a estiagem e ocorrências de incêndios nas matas.

"A gente precisava ter uma máquina para fazer um determinado trabalho aqui na Serra D'Água, mas não temos 'pernas' para isso e também não conseguimos junto ao poder público essa liberação. Então fica difícil conseguir atuar de forma intensa na prevenção. Mas, certamente, seria uma ótima aquisição para evitar muitos dos incêndios que ocorrem atualmente não só em Campinas, mas em qualquer lugar", contou.

Além do combate a incêndios menores, o grupo também participou de ações maiores, como em julho de 2021, na Mata Ribeirão Cachoeira, localizada na APA de Sousas. O mais recente ocorreu no final de maio deste ano, na mata da nascente do Córrego do Mato Dentro, contribuinte do Ribeirão Anhumas, na região do Alphaville. "As pessoas próximas aos locais dos incêndios nos informam via telefone, porque já nos conhecem por meio de nossas redes sociais. No entanto, também temos o grupo de inteligência que acompanha os dados dos satélites do INPE para checar se há focos de incêndio florestal em Campinas e região", explicou.

Dulce também mencionou que o poder público não dá conta, sozinho, de aplacar o fogo. "Assim, tivemos nesse período todo mais de 15 incursões de combate ao fogo, bem como ações de prevenção. Na APA, passamos mais de nove horas combatendo o fogo. A área somente não foi completamente devastada por conta da ação efetiva da nossa matilha. A cachorrada suou o macacão, entrou na mata para combater o fogo e, nos dias seguintes, fez o rescaldo, conferindo se ainda existiam pontos de reincidência de fogo e buscando animais mortos", recordou.

O professor de Filosofia, Guilherme Ferreira de Oliveira, de 42 anos, conheceu o grupo por meio da internet. Pelo próprio Facebook da entidade se inscreveu, ainda em 2020, e começou a se envolver em uma causa na qual nunca havia militado. "A diversidade também permeia essa atividade e isso me chama muito a atenção. Temos todo o tipo de pessoas participando do grupo. E eu gosto de ressaltar que a prevenção é muito importante. Se a gente conseguir parar o fogo no início, evita um desastre maior. Por isso, é interessante entender que se conseguirmos colocar isso na cabeça das pessoas, com certeza vamos ter menos problemas, principalmente em época de estiagem, como agora", afirmou. 

Segundo Dulce, quanto mais o conhecimento se tornar acessível, mais fácil será realizar a proteção do meio ambiente de Campinas e região. Há inclusive a ideia de levar o projeto às escolas, mas o projeto vem sendo adiado por conta da pandemia de covid-19. "Pretendemos, mais para frente, juntamente com nossos biólogos, formar um grupo de educadores para levar o projeto às escolas. Queremos trazer as crianças para conhecer a mata e mostrar o que é sustentabilidade", explicou. 

Caso alguém queira se formar como brigadista pelo grupo, basta procurar a Brigada Cachorro-do-Mato nas redes sociais, como Facebook e Instagram, e entrar em contato. Para fazer o curso, a única exigência é a idade mínima de 18 anos. "Todos podem colaborar para que a nossa brigada popular avance. Os incêndios florestais aumentam a poluição do ar e causam a morte de animais silvestres, perda de qualidade do solo, extinção de nascentes e acidentes graves na rede elétrica. Combater os incêndios florestais ajuda a diminuir todos os problemas acima e, certamente, a natureza agradece", finalizou a brigadista.

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