TRADIÇÃO

Apaixonados por locomotivas exibem réplicas na Estação Cultura de Campinas

8º Encontro de Ferromodelismo da RMC celebrou 150 anos da Mogiana

Gilson Rei
22/05/2022 às 10:18.
Atualizado em 22/05/2022 às 10:37
Testemunha da história da ferrovia na região de Campinas e Jaguariúna, José Carlos Oliveira expôs miniaturas de locomotivas e vagões (Kamá Ribeiro)

Testemunha da história da ferrovia na região de Campinas e Jaguariúna, José Carlos Oliveira expôs miniaturas de locomotivas e vagões (Kamá Ribeiro)

Em comemoração dos 150 anos da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, a Estação Cultura de Campinas foi palco neste sábado (21) para o 8° Encontro de Ferromodelismo da Região Metropolitana de Campinas. Milhares de novos e antigos apaixonados por locomotivas, vagões e trilhos vieram de diversas partes do Estado de São Paulo durante o dia para apreciar o modal sobre trilhos e ver de perto trens elétricos em miniatura, réplicas de composições reais e maquetes de estações. A atividade é uma antiga tradição praticada em diversas partes do mundo e remonta à época da utilização massiva dos transportes ferroviários.

O evento foi aberto ao público, gratuitamente, reunindo pessoas que trabalharam e dedicaram suas vidas à ferrovia e também as novas gerações que atualmente adoram os trens, mesmo sem terem a convivência com esse sistema de transporte em sua rotina diária. O encontro voltou a ocorrer, após ser suspenso por dois anos por conta da pandemia de covid-19. Além das maquetes com locomotivas funcionando, foi criada uma estrutura de playground para crianças, lojas de materiais ligados ao ferromodelismo e praça de alimentação.

O Encontro de Ferromodelismo começou com uma postagem na rede social Facebook em 2013, feita por um apaixonado por trens, incentivando a criação de um encontro desse tipo. A primeira edição atraiu 2,5 mil pessoas na Estação Cultura. Desde 2015, o evento passou a fazer parte do calendário da cidade e conta com o apoio tanto da Coordenadoria da Estação como da Secretaria de Cultura e Turismo. Na última edição, em 2019, houve aproximadamente 13 mil visitantes.

Gerações

José Carlos Oliveira, um dos expositores de miniaturas locomotivas e vagões, esteve no local com suas obras de arte e serviu também como testemunha da história da ferrovia na região de Campinas e Jaguariúna. "Faço manualmente essas peças desde 1968 em escala um por 40, com chapas de aço, deixando as réplicas no tamanho de aproximadamente 60 centímetros de comprimento. Até ferramentas eu desenvolvi porque não existem peças no mercado. É um hobby, uma alegria passar o tempo com isso e manter viva a história, deixando um legado", afirmou. Oliveira contou que foi funcionário da oficina de Campinas entre as décadas de 60 e 90, se aposentando depois de 33 anos de trabalho na estação. "Comecei como eletricista na Mogiana e encerrei as atividades como inspetor de qualidade já na Fepasa, que tinha assumido a companhia", comentou.

Acompanhado pelo filho Pedro, de 6 anos, e pelo pai que trabalhou com ferrovias no passado, o advogado Pedro Paulo destinou a parte da manhã de ontem para ir ao evento. "A família toda gosta muito de trens e ferrovias. Além de ser um meio de transporte importante, é fundamental preservar a história da ferrovia do País. As autoridades deveriam dar mais importância a esse modal, que é um meio de transporte barato, rápido e uma alternativa bastante viável para compor as grandes cidades, tanto para levar passageiros como para a entrega de cargas e mercadorias", disse. "O modal é relegado a segundo plano e poderia contribuir muito com o transporte urbano, ao compor com outros modais", afirmou. "Um evento desses é importante para que novas gerações conheçam mais e ajudem a levar essas propostas de transporte urbano à frente", destacou.

Paulo Maurício Furtado Rosa, engenheiro ferroviário, esteve também presente para cultivar o modal e trocar experiências com pessoas de diversas regiões do Estado e até do País. "Estudei engenharia pensando em trabalhar com ferrovias e trabalho com projetos de vagões há 44 anos. Sou também ferromodelista e preservacionista. Respiro trens e trilhos e luto para que esse modal volte a ser valorizado como deveria", afirmou. "O Brasil já foi poderoso em trilhos, mas infelizmente, a partir do final dos anos 50, a ferrovia entrou em uma onda de decadência e abandono, em detrimento do uso de outros modais, que é uma proposta totalmente errada", lamentou.

Segundo Rosa, é preciso mudar a estratégia atual aplicada no transporte. "O Brasil tem uma frota de 131 mil vagões e os Estados Unidos têm 1,6 milhão. Ao mesmo tempo, o Brasil conta com 29 mil quilômetros de linhas, nem todas utilizáveis. Já os Estados Unidos têm 300 mil quilômetros. Os americanos colonizaram o País com a ferrovia e o Brasil começou a fazer isso, mas abandonou. É uma diferença gigantesca sem motivo algum. O poder público precisa investir mais no modal para o desenvolvimento, unindo-o aos demais modais", sugeriu.

150 anos da Mogiana

Na parte da manhã, houve uma solenidade em comemoração dos 150 anos de fundação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, com a presença de autoridades e do prefeito de Campinas, Dário Saadi. A Mogiana foi criada em 1872 com sede em Campinas e está diretamente ligada à história da expansão da cultura do café em direção ao interior da então Província de São Paulo. Inicialmente, foi constituída de um simples prolongamento da ferrovia então existente, até Mogi Mirim, e de um ramal para Amparo, com um seguimento até as margens do Rio Grande. A Mogiana permaneceu em atividade de maio de 1875 até outubro de 1971, quando foi extinta e incorporada à Fepasa - Ferrovia Paulista S/A.

O evento foi uma realização da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, da Prado Trens, com apoio da Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos (CPTM), Rumo Logística e da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). 

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