Em 5 anos, alta acumulada é de mais de 67% e valor nas bombas teve pico de R$ 2,30 este mês
Intolerável: nenhuma desculpa é capaz de acalmar o consumidor (Dominique Torquato/AAN)
Em um período de cinco anos, o preço médio do litro de etanol nomês de abril, quandocomeça a safra da cana-de-açúcar, subiu 67,68%nos postos de Campinas.
O valor passou de R$ 1,182 em 2008 para R$ 1,982 na semana passada. Só nas duas últimas semanas, o custo do produto teve um pico e chegou a R$ 2,299 o litro.
Falta de uma política clara para o setor, recomposição de margens de lucro, atrelamento do custo do etanol ao da gasolina, concorrência entre a produção de etanol e açúcar e concentração de mercado movem a gangorra de preços que tanto irrita os motoristas.
No mercado, os posicionamentos são conflitantes. Os revendedores reclamaram das distribuidoras, distribuidoras (concentradas em poucas grandes empresas) fazem ouvidos moucos às queixas dos revendedores e usineiros reclamam sem parar de perdas, sem emitir nenhuma opinião sobre valores.
O resultado é que nos últimos cinco anos, além da explosão nos preços, houve também uma reversão do consumo: se em 2008 mais de 60% dos veículos que paravam nos postos abasteciam com etanol, hoje esse percentual mal chega aos 30%.
Na maioria dos postos de Campinas, hoje, não compensa colocar etanol no tanque, já que o preço médio do litro da gasolina na última semana no município, conforme a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), era de R$ 2,709, para uma média de R$ 1,982 do etanol.
Como só vale a pena abastecer álcool se o valor do litro for de até 70% do da gasolina, o primeiro deixou de ser uma opção - a relação em Campinas na última semana era de 73,16%.
No mercado, as altas de preços são vistas como uma forma de elos da cadeia - como as usinas - recomporem preços depois de um período de achatamento em decorrência da decisão do governo de não elevar o custo da gasolina.
Para os consumidores, porém, o motivo é outro: os donos de postos é que estariam se aproveitando do momento para forçar os preços para cima e lucrarem mais. O vice-presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas e Região (Recap), Emílio Roberto Martins, rebateu essas acusações.
Segundo ele, os postos apenas repassam os reajustes aplicados pelas distribuidoras. E afirmou que se os atacadistas são rápidos para subir preços, não têm a menor pressa em reduzí-los.
“Desde a semana passada o valor do etanol caiu nas usinas em pelo menos R$ 0,13, mas nenhuma distribuidora repassou integralmente essa redução e muitas nem sequer diminuíram os preços”.
O vice-presidente do Recap reclamou ainda que são as revendas que ficam com o ônus desse vaivém de preços porque são elas que precisam explicar os valores cobrados nas bombas aos consumidores.
Regras
O professor do Instituto de Economia da Unicamp, José Bonifácio de Souza Amaral Filho, afirmou que a cana, assim como outras culturas, é afetada por variações climáticas.
“Além disso, o setor sucroalcooleiro vê a produção de etanol como uma alternativa ao açúcar. Se os preços do açúcar estiverem melhores no mercado internacional, as usinas vão produzir mais açúcar do que etanol”.
Outros fatores que impactam os preços, segundo ele, são a proporção entre os valores da gasolina e do etanol e a necessidade de investimentos nas propriedades rurais e nas usinas. “Falta mais clareza do governo sobre garantias mínimas de preços - e também uma contrapartida do setor produtivo de um volume que atenda a necessidade do mercado”, disse.
O professor de economia do MBA em Gestão Financeira na IBE-FGV (Fundação Getúlio Vargas), Múcio Zacharias, afirmou que a desoneração sobre o álcool promovida pelo governo federal não será necessariamente repassada na mesma proporção ao consumidor. “O objetivo do governo é que os empresários invistam em modernização e produção”, disse. De todo modo, Zacharias avalia que os preços devem cari em breve com a entrada da nova safra no mercado.
A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) informou que“não comenta, não avalia, não projeta enão estima preços - nem os pagos na usina e nem os que serão praticados na bomba para o consumidor”.Já oSindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) não se manifestouaté o fechamento desta.