ENTREVISTA

‘Acho possível o Brasil se desprender do machismo e do racismo’, diz Thaís Cremasco

Advogada fundadora do coletivo Mulheres pela Justiça aborda a sua luta em prol das mulheres vítimas de violência e contra o racismo

Daniel Rocha e Ronnie Romanini
14/04/2024 às 09:59.
Atualizado em 14/04/2024 às 09:59
‘Se a gente não gritar, não correr, não chorar, para o homem não é estupro’, lamenta Thaís Cremasco (Rodrigo Zanotto)

‘Se a gente não gritar, não correr, não chorar, para o homem não é estupro’, lamenta Thaís Cremasco (Rodrigo Zanotto)

Natural de Campinas, a advogada Thaís Cremasco conta com uma carreira consolidada. Conhecida principalmente pelo seu combate à violência contra a mulher e sua luta contra o racismo, ela fundou em 2015, ao lado de outras profissionais da área, o coletivo Mulheres pela Justiça, que realiza atendimento e acolhimento às mulheres em situação de violência. Por meio do trabalho do grupo, cerca de 600 mil absorventes foram arrecadados para serem distribuídos na periferia como uma forma de amenizar a pobreza menstrual. 

O coletivo realiza palestras e rodas de conversa com as mulheres mais pobres, não fornecendo apenas auxílio material, mas também amparo jurídico. Como Thaís descreve, as conversas "tiram o véu do rosto delas". As mulheres passam a entender as diversas formas de violência, e não apenas contra elas. Tanto os direitos das mulheres como o das crianças e adolescentes são explicados durante os trabalhos com quem tem menos acesso às leis. Porém, a advogada lembra que as agressões e opressões não ficam restritas apenas às classes mais baixas, com vítimas em todos os estratos sociais. "Infelizmente, a violência contra a mulher é democrática", lamenta Thaís Cremasco em um momento da conversa. 

Na entrevista a seguir, realizada a convite do presidente-executivo do Correio Popular, Ítalo Hamilton Barioni, a advogada e mãe de dois jovens, Antônio e Tayla, enfatiza a batalha contra o racismo, uma questão que atingiu sua família recentemente em um caso de repercussão nacional, resultando em um processo milionário. Ela ressalta a necessidade urgente de estabelecer uma rede de apoio para mulheres que buscam sair de relacionamentos abusivos. Além disso, comenta sobre os rumorosos casos recentes de violência contra mulheres, envolvendo os ex-jogadores de futebol Daniel Alves e Robinho. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.

A senhora já morou em diversos lugares ao redor do mundo, mas é natural de Campinas, correto?

Sim. A minha família é de Valinhos, mas eu sou de Campinas. Morei no Marrocos e, inclusive, a minha filha nasceu lá. Também morei em Dubai. Eu viajei o mundo por conta do trabalho do meu ex-marido, mas Campinas é o meu lugar. É onde sempre gostei de viver e trabalhar.

Doutora, conte-nos um pouco sobre a sua formação acadêmica.

Antes do Ensino Superior, eu estudei na Escola Comunitária de Campinas. Depois, me formei em Direito na Facamp (Faculdades de Campinas). Eu acho que é o tipo de profissão que a gente só aprende fazendo. Aquilo que aprendemos na faculdade não é o que nós, de fato, fazemos na vida prática. Em relação ao tipo de processo que eu faço, eu gosto de ser disruptiva. Eu vou dar um exemplo clássico: quando um homem matava uma mulher, ele podia alegar a legítima defesa da honra, o que perdurou até 2022, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) disse que isso não poderia mais ser feito. E por que isso mudou? Os advogados vão constituindo teses pra convencer o Poder Judiciário de que aquele entendimento não está correto. Eu gosto muito de fazer uma coisa diferente, sempre dentro da lei, pensando nos princípios fundamentais, na nossa Constituição. O Poder Judiciário ainda é machista, composto por homens brancos, patriarcal. Então, trazer o feminismo, o direito da mulher é um desafio. Você tem que arriscar com teses novas, porque se as coisas continuarem a acontecer como agora, nós continuaremos sendo o terceiro país que mais mata mulheres no mundo.

A senhora passou por esses países onde a experiência social da mulher é diferenciada. Como foi vivenciar isso?

Olha, foi muito difícil. Eu sou uma feminista nata. Por mais que se diga que o Alcorão fala em igualdade, no dia a dia a mulher só pode comer depois do homem, andar somente atrás dele, ela tem de estar coberta. Isso me fez pensar muito sobre o papel da mulher na sociedade. Conhecer outras culturas nos faz expandir a mente. Outro dia eu dei uma palestra numa escola e dizia que aqui no Brasil ainda existe uma resistência muito grande no sentido de o homem entender que está estuprando uma mulher. Se a gente não gritar, não correr, não chorar, para o homem não é estupro. Aqui no Brasil os homens continuam se arriscando a ter relações forçadas com mulheres alcoolizadas, a constituir uma dinâmica de violência e manipulação para que aquela mulher tenha uma relação com ele. É por isso que eu gosto muito de olhar para as outras culturas, porque eu sempre penso que pode ser diferente. Enquanto aqui as pessoas continuam pensando que “essa história de estupro no casamento não existe”, a gente vê que em outras civilizações o corpo da mulher é bem mais respeitado. Há uns dias, eu vi uma pesquisa que dizia que em nenhum lugar do mundo existe igualdade de salários entre homens e mulheres e a Organização das Nações Unidas (ONU) já disse que nós precisaríamos de trezentos anos para igualar o salário global entre os dois gêneros. Eu gosto muito de olhar para as sociedades em que há mais igualdade para me espelhar e dizer “é possível ter uma sociedade diferente”. Eu quero pensar que é possível que o Brasil se desprenda do racismo e do machismo, por exemplo. Eu acho possível. Por isso eu gosto muito de trabalhar pensando em teses diferentes, e é por isso que eu digo que a minha maior universidade foi o meu trabalho, foram as minhas teses, a minha atuação com o coletivo Mulheres pela Justiça. Inclusive, o Correio Popular foi o primeiro veículo de comunicação a fazer uma matéria conosco. Foi algo muito importante para a cidade, porque as mulheres começaram a perceber que elas poderiam ter uma advogada de graça.

E essa conscientização de que as mulheres podem ter uma advogada de graça é algo que parece ser extremamente importante, não é?

Sim, claro. O que o patriarcado quer? Que nós mulheres acreditemos que não há saída. “Ah, pode me processar que não vai dar em nada”. Mas quando a imprensa começa a mostrar que as pessoas estão sendo punidas, as mulheres começam a entender que há uma saída. Esse coletivo foi iniciado com uma desembargadora, comigo, como advogada, e com e outras mulheres do Poder Judiciário. Nós ajudamos mulheres vítimas de violência doméstica e uma famosa marca de produtos de higiene menstrual viu o nosso trabalho e doou 600 mil absorventes. Nós começamos a fazer uma campanha sobre a questão da pobreza menstrual e agora existe toda uma legislação e uma série de ações específicas nesse segmento.

Falando no coletivo Mulheres pela Justiça, como ele se encontra, na atualidade, em termos de estrutura e trabalho?

Existe uma parceria com a Prefeitura de Campinas. Toda sexta-feira uma integrante do nosso coletivo faz um plantão no Centro de Referência e Apoio à Mulher (Ceamo), onde as mulheres podem passar por psicóloga, advogada e têm todo um suporte para fazer o Boletim de Ocorrência. A gente tem um serviço muito bom em Campinas na área de combate à violência contra a mulher. Nas redes sociais, o coletivo tem canais para que as mulheres possam denunciar, falar sobre o que está acontecendo e ter uma advogada para acompanhar a situação. Nós sabemos que as mulheres são mais empáticas e que o tratamento é diferente quando o advogado é um homem, porque existe uma tentativa de revitimizar a mulher e o processo todo acaba sendo outra dor para aquela vítima de violência. E, no Brasil, a cada oito minutos acontece um estupro. Um estudo governamental, feito recentemente, mostrou que, na verdade, isso pode acontecer a cada dois minutos, e isso sem contar mulheres que não realizam a denúncia.

E esse tipo de violência acontece em todos os estratos sociais, correto?

Com certeza. Infelizmente, a violência contra a mulher é democrática. No caso das mulheres mais ricas ainda existe um quadro onde elas não trabalham e ficam à mercê de seus maridos. Por conta disso, em muitos casos, elas não querem se separar, então se sujeitam a uma série de coisas bizarras, tanto na esfera sexual quanto na patrimonial. É muito assustador quando a gente atende mulheres de alto poder aquisitivo e entende o tipo de violência que elas sofrem, como o cárcere privado. A coisa mais importante para que uma mulher saia de um relacionamento abusivo é a rede de apoio familiar, dos serviços de saúde, de psicólogos, advogados e afins, mas é difícil acabar com um relacionamento desse tipo. Muitas vezes a mulher não reconhece que está em um relacionamento abusivo, então ela nem denuncia. A gente precisa, na verdade, trabalhar na prevenção, ou seja, não rir da piada machista que o seu amigo fez, não se aproveitar de uma mulher embriagada. A prevenção vem dos pequenos atos que a nossa sociedade insiste em perpetuar.

A advogada é referência no combate à violência contra a mulher e dedica a sua profissão para atender pessoas de todos os estratos sociais (Arquivo Pessoal)

A advogada é referência no combate à violência contra a mulher e dedica a sua profissão para atender pessoas de todos os estratos sociais (Arquivo Pessoal)

Como está a rede de apoio por parte do poder público aqui em Campinas?

Campinas, e isso pode ser uma visão romantizada minha, é uma boa cidade no combate à violência contra a mulher, no sentido de que as delegacias funcionam. Há a Guarda Amiga da Mulher, que pode ser acionada através do telefone 135. Existe uma vara (da Justiça Comum) específica para tratar desse tipo de caso. Infelizmente, o juiz é um homem e isso faz diferença. O Poder Judiciário poderia ter tido mais cuidado e colocado uma mulher, mas pelo menos a vara existe. Eu acredito que a gente tem uma rede de apoio muito forte, mas acho que as mulheres esbarram muito ainda no reconhecimento das violências sofridas. Nós estamos acostumadas a ser violentadas desde sempre, fomos educadas assim. Por isso, na nossa sociedade, nós temos muita dificuldade de nos impor. Quando isso não acontece, sofremos uma série de violências: psicológica, moral, física, financeira. Eu acho que o primeiro passo é a mulher conhecer os seus direitos e reconhecer que algumas atitudes não podem mais ser aceitas e, aí sim, buscar a rede de apoio. Muitas vezes é a família que desencoraja a denúncia por parte da vítima, por uma questão financeira ou cultural. Algumas, ao chegarem ao serviço de acolhimento, dizem: "doutora, eu não tenho ninguém, a minha família dá razão a ele (o marido ou companheiro)”. É todo um contexto de submissão que, infelizmente, acredito que está longe de ser modificado.

Doutora, como a senhora encara esses casos emblemáticos envolvendo jogadores de futebol?

Bom, no caso do Daniel Alves foi muito difícil de aceitar que o corpo de uma mulher vale R$ 100 milhões. Foi uma tristeza muito grande entender que um país desenvolvido como a Espanha foi capaz de precificar um estupro. No caso do Robinho, foi o fato de ele tentar usar a questão do racismo (para se dizer injustiçado). É óbvio que o racismo existe e, no nosso país, ele é estrutural, mas ele tentou se vitimizar, o que é um clássico utilizado pelos homens em situações desse tipo. E uma coisa que ambos, Daniel Alves e Robinho têm em comum, é o fato de que os dois negam as ações cometidas. Notem que o marido da Maria da Penha (farmacêutica e ativista do direito das mulheres que dá nome à lei de combate à violência doméstica) nega até hoje as violências que cometeu contra ela, tal como o marido da Ana Hickman (apresentadora, empresária e ex-modelo). E eu tenho uma dúvida. Eu não sei se a pessoa realmente reconhece essa violência, porque os homens desrespeitam tanto o espaço das mulheres, que é difícil que cometedores de violência reconheçam ter praticado tal ato. E eu comecei a refletir sobre o “não é não”. É preciso realmente dizer não? Se eu não falei sim, você não tem o direito de invadir o meu corpo. É muito simples. Quantas mulheres já fizeram o contrário? Estupraram um homem quando ele estava bêbado? O lugar-comum dessas pessoas é a negativa.

E a senhora acredita que o Robinho vai cumprir pelo menos um terço da pena aqui no Brasil?

Eu acredito. Eu quero acreditar. Eu preciso acreditar, porque o meu trabalho acontece no Poder Judiciário. Eu preciso acreditar que as coisas no Brasil funcionam, porque é justamente o que eu quero. Nós temos que ser a mudança que a gente quer ver no mundo. Se eu quero viver em um país que vai punir os homens que violentam as mulheres, eu preciso acreditar que isso é possível. Se eu não acreditar, não vou ter forças para conseguir trabalhar. O maior exemplo para as pessoas de baixa formação é ver pessoas bem-sucedidas que cometem crimes serem punidas.

Como esses dois casos podem ser pedagógicos e nos ajudar a refletir melhor sobre essa problemática?

A prisão não é o que resolve. Eu acredito muito na educação, mas tem que ter intencionalidade. Se um homem cometeu uma falta grave, ele vai ter de passar por um grupo de apoio para falar sobre masculinidade tóxica, para ser explicado a ele o que é o machismo. Os homens foram educados para não cometerem erros, serem os provedores. O homem precisa ser forte, não pode chorar. Isso é muito pesado. E muito dessa violência vem dessa masculinidade tóxica. Eu acredito muito nos grupos de apoio. Aqui em Campinas, a Delegacia da Mulher montou um grupo chamado “Homem Sim, Consciente Também”, para aqueles que cometeram algum tipo de violência contra a mulher, no entanto, os homens simplesmente não vão, porque não querem nem saber. Talvez haja o constrangimento de se abrir sobre o assunto, mas a lei deveria colocar isso como uma obrigação

Voltando ao coletivo Mulheres pela Justiça, o que a senhora poderia falar sobre o trabalho realizado por vocês nas periferias?

Antes de distribuir todas as doações que o Coletivo recebe, nós combinamos com a líder comunitária de um determinado local e as mulheres, obrigatoriamente, assistem uma palestra antes de receberem a cesta básica, o absorvente etc. Nós nos reunimos numa roda de conversa, e eu acredito que isso tira um véu do rosto delas. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) fez um protocolo para o combate à violência contra as mulheres e usou o termo “lentes de gênero”. E é isso mesmo, pois quando vamos para a periferia nós oferecemos essa "lente" às mulheres para que elas enxerguem o mundo de uma maneira diferente. É muito gratificante. Algumas mães, por exemplo, ficam chocadas quando a gente diz que sexo com uma menor de quatorze anos é estupro de vulnerável, porque há casos em que a filha de dez anos namora um homem de vinte. Além disso, existe a questão da pedofilia, que se agravou bastante na pandemia, mas, não tão ironicamente, as denúncias diminuíram muito nesse período, porque as crianças não estavam indo pra escola. É lá que os sinais de abuso aparecem e as denúncias são feitas.

Qual é a importância da educação sexual nas salas de aula? Muitos casos de abuso são descobertos a partir do momento em que a criança vai aprendendo mais sobre o tema?

A educação sexual na escola é elementar. Muitas escolas me convidam para dar palestra e eu percebo que as crianças trazem consigo no olhar algo como “que bom que você falou sobre isso”. Eu não vou chutar um número de casos e abusos que acontecem em residências, mas são muitos. Ao final de qualquer palestra, ao menos cinco meninas vêm conversar comigo, chorando. A educação sexual é um pilar importantíssimo para que uma criança reconheça a violência. É o que vai libertá-las, porque, muitas vezes, no seio familiar, ninguém vai acreditar na narrativa dela por qualquer motivo que seja, então a escola acaba sendo o lugar onde a criança tem o apoio necessário para sentir confiança e poder denunciar. Eu não tenho dados em mãos, mas posso garantir que a cada cinco mulheres atendidas no plantão que nós damos na Prefeitura, três são referentes a abuso sexual de crianças.

Thaís viu o filho sofrer ataques racistas feitos por estudantes da mesma escola em um grupo de WhatsApp, caso que gerou a expulsão dos alunos agressores (Rodrigo Zanotto)

Thaís viu o filho sofrer ataques racistas feitos por estudantes da mesma escola em um grupo de WhatsApp, caso que gerou a expulsão dos alunos agressores (Rodrigo Zanotto)

O que a senhora tem a dizer sobre a intolerância que assola o nosso país no momento? O seu filho foi vítima de racismo recentemente, como ficou essa situação?

Bom, pela primeira vez na história do país uma criança foi expulsa de uma escola pelo crime de racismo. Toda criança preta já sofreu racismo na escola, invariavelmente, mas tudo isso ganhou uma repercussão muito grande, porque, além de tudo, foram feitas exaltações ao nazismo. Hoje existe um processo de R$ 50 milhões que, caso vencido, terão de ser revertidos para a Educafro (organização que tem a missão de promover a inclusão da população negra e pobre nas universidades públicas e particulares com bolsa de estudos) e eu tenho certeza que vamos ganhar esse processo. Quem está sendo processada é a escola. Para mim, é claro que só chegamos tão longe porque apesar de os meus filhos serem pretos, eu sou uma mulher branca, que tem dinheiro, e houve a questão do neonazismo. Foi por esse conjunto de coisas. As primeiras pessoas que me procuraram eram judias e elas me deram muita força. Posteriormente, como eu fui aparecendo em muitos veículos de comunicação, o colégio começou a se preocupar com o neonazismo em uma escola alemã, e não necessariamente com o racismo ocorrido. Eu acho que o Brasil ainda engatinha na questão do combate ao racismo, porque há uma incapacidade de nos enxergarmos como reprodutores da violência racial. Todo mundo. É muito feio a gente falar que é racista, mas não tem como. Nós introjetamos essa ideia de forma inconsciente. Existe a crença do Brasil miscigenado, onde não há racismo, mas na escola do meu filho só tem ele de criança preta. A elite do país é branca e a classe mais pobre é preta. O Brasil precisa se reconhecer como um país racista para nós também reconhecermos a importância de combater o racismo de forma intencional. A diversidade é a maior riqueza que a gente pode ter. É nela que crescemos. E falta muito, infelizmente, para chegarmos a uma democracia racional em nosso país.

E em que estágio está essa ação contra a escola?

A gente fez uma audiência de tentativa de conciliação. Eles não reconhecem que são racistas ou classistas, mas por qual motivo a criança que é bolsista entra por uma porta diferente, tem professores diferentes e usa um uniforme diferente? A resposta deles pra essa pergunta é “porque sim”. Não reconhecem nada. Como eu já disse antes, nós estamos pedindo nesta ação R$ 50 milhões para indenizar a Educafro para, justamente, inserir jovens negros e periféricos no ensino mais elitizado. 

Doutora, sobre a sua profissão. Há muito machismo no ambiente do Direito?

Muito. A gente não tem um dia de paz. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem trabalhado por essa questão da igualdade, mas sempre tem algo. Eu já fui chamada de histérica em pleno processo relativo ao meu filho pelo advogado da outra parte. Nenhuma mulher escapa do descrédito e não há posição social que suplante isso. Quanto mais você estuda, mais você percebe as microviolências.

A senhora disse anteriormente que é preciso ter uma dose de otimismo. Há uma sensação de que atualmente as crianças negras estão mais conscientes, se aceitam mais. Você também é mais otimista em relação a essa geração que vem com novos conceitos e princípios?

Eu sempre digo pros meus filhos que uma pessoa preta com amor-próprio é uma forma de luta, é uma afronta, porque tudo o que se espera de uma pessoa preta é que ela não tenha autoestima. O racismo é implacável. Um jovem preto tem três vezes mais chances de morrer na mão da polícia do que um jovem branco. Olha, se uma pessoa branca passasse um dia na pele de uma pessoa negra, não existiria mais racismo em lugar nenhum. A mensagem que tem de ser passada adiante é a de que a dor do outro nunca é “mimimi”. O que a gente precisa fazer, de fato, é conscientizar as pessoas a respeitar essa dor.

Doutora, estamos chegando ao final da entrevista. Qual seria a sua declaração final para os leitores?

Eu gostaria que todas as mulheres entendessem que quando a gente combate uma situação de machismo, de violência, nós estamos honrando as mulheres que lutaram antes da gente. Toda a mulher é feminista. Se o feminismo não existisse, nós mulheres não estaríamos aqui, nós não votaríamos, não sairíamos à rua e nem poderíamos viajar sem a autorização de nossos maridos. As mulheres somente podem viver da maneira que vivem hoje por conta da luta do feminismo. Dito isso, o que eu peço é que todas as mulheres denunciem sempre a violência. É uma forma de deixar um mundo melhor para as mulheres e os homens que virão depois da gente, pois o feminismo não é um movimento que promove a superioridade das mulheres e busca oprimir os homens, e sim um movimento que luta por igualdade entre homens e mulheres. Luta para que nós tenhamos os mesmos direitos. Hoje, infelizmente, não temos.

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