Publicado 13 de Janeiro de 2022 - 9h06

Por Cibele Vieira/ Caderno C

Integrantes da rede apoiada pelo Ateliê Transmoras, durante oficina realizada no ano passado e com participação de coletivos da RMC

Rafa Kennedy

Integrantes da rede apoiada pelo Ateliê Transmoras, durante oficina realizada no ano passado e com participação de coletivos da RMC

O Ateliê TRANSmoras, localizado em Barão Geraldo, ganhou o prêmio Fashion Futures do Instituto C&A em dezembro. O prêmio prestigia iniciativas de todo o país que apontam tendências e soluções para o futuro da moda. TRANSmoras é uma rede de artistas, estilistas, costureiras criativas e produtoras culturais trans e travestis da cidade de Campinas. Fundado pela ativista e estilista Vicenta Perrotta, o coletivo ganhou na categoria projeto social, escolhido entre 79 projetos inscritos de todo o país por um júri formado por 10 profissionais.

O prêmio inclui o valor de R$ 50 mil em dinheiro e apoio na construção de um plano de trabalho para este ano. Segundo Vicenta Perrotta, líder de articulação social e projetos do TRANSmoras, o prêmio se deve ao consistente trabalho desenvolvido em Campinas desde 2013. Seu trabalho já influenciou a criação de aproximadamente 30 núcleos - de costureiras e multiartistas - em diferentes estados como SP, RJ, RS, AM, PB entre outros. "Utilizamos a moda não só como forma de expressão artística, mas como veículo de transformação social", complementa Antonia Moreira, líder de planejamento estratégico do Ateliê.

Ontem, o coletivo se reuniu com os dirigentes do Instituto para discutir um plano de trabalho para este ano, quando pretendem dar continuidade à produção de uma moda questionadora, sustentável e que conscientiza sobre a cultura trans. Precursor em moda sustentável no Brasil, o Ateliê TRANSmora produz suas roupas com a técnica de transmutação têxtil e compartilha seus conhecimentos em oficinas e cursos pelo país. As estilistas, artistas e ativistas?que o compõem se desdobram em diversas atividades, todas carregadas de?vivências e?mensagens que informam, conscientizam e educam as pessoas sobre a realidade trans.

Upcycling está na moda. É o movimento que propõe o reaproveitamento de objetos antigos, com muita criatividade e respeito ao meio ambiente.?Essa é a essência da criação do TRANSmora, a ressignificação de peças e tecidos antigos, usados, descartados. "O lixo é um estereótipo de algo que não se encaixa mais a normas sociais e é descartado pela sociedade. O corpo trans também é lido como esse estereótipo que não se encaixa. Nosso trabalho é no sentido de potencializar, deslocar os materiais e as pessoas do lugar de resíduo, de não-função, para o protagonismo de um projeto de vida".

Perrota comenta que só quem já sentiu a dificuldade de encontrar roupas que sirvam em corpos transformados entende a importância desse trabalho. O ateliê?TRANSmoras se tornou ponto de encontro para troca de informações, conhecimento e pesquisa. É onde nascem os projetos. "O Fashion Futures tem como foco estruturar uma plataforma para reconhecer, dar visibilidade e investir em quem tem feito um notável trabalho no campo socioambiental sob a perspectiva da moda do amanhã", diz Gustavo Narciso, gerente executivo do Instituto C&A.

O prêmio foi lançado em 2021 em comemoração aos 30 anos do Instituto para apoiar o desenvolvimento de uma moda mais justa e diversa. Além da premiação em dinheiro, a entidade também pensará, junto com os ganhadores do prêmio, em atividades e projetos de contrapartida social, explica Gustavo Narciso. Foram premiados projetos em cinco categorias: Projetos Sociais, Inovação e Tecnologia, Design Sustentável, Negócios de Impacto Social, além da escolha da Personalidade da moda sustentável.

Perrota avalia que a preocupação em construir tecnologias sociais que tragam processos saudáveis na produção de moda e a ressignificação desse trabalho foi fundamental para o resultado.

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Cibele Vieira/ Caderno C