Publicado 04 de Janeiro de 2022 - 9h04

Por João Lucas Dionisio/Correio Popular

Orlando Schebauer na Avenida Princesa D'Oeste:

João Lucas Dionisio

Orlando Schebauer na Avenida Princesa D'Oeste: "Fiquei 10 minutos tentando salvá-la, tentei fazer de tudo"

Três dias depois de uma enchente na Avenida Princesa D'Oeste, que resultou na morte da representante comercial Denise Gabiatti, de 60 anos, presa embaixo de um veículo, a reportagem do Correio Popular presenciou mais um alagamento no local. A água, que desce de todos os lados, tomou conta da avenida em poucos minutos, tornando o trânsito dos veículos praticamente impossível. Um dos filhos da vítima, Guilherme Gabiatti, de 36 anos, revelou já ter presenciado inúmeras enxurradas no local. "Me lembro de situações parecidas ainda na minha infância. Sempre foi assim e o problema nunca foi resolvido. Desconheço um dia de chuva forte que a água não tenha chegado até a canela, por exemplo", contou.

Abalado com a morte da mãe, Gabiatti classificou a situação das enchentes no local como absurda. "Já vi gente morrer aqui", confessou. Para ele, é lamentável que uma cidade do porte de Campinas, que possui inúmeros recursos econômicos, apresente há décadas transtornos com enxurradas. "Se a Prefeitura tivesse realizado as obras e manutenções necessárias, essa tragédia não teria acontecido", avaliou.

"Quantas vidas poderiam ter sido salvas?", questionou.

Com o objetivo de que outras famílias não passem pela mesma situação e em memória de sua mãe, Gabiatti afirmou que pretende lutar, até mesmo judicialmente, para que o problema das enchentes no local seja resolvido pela Administração. "Era uma vida bastante valiosa para toda a família e amigos, assim como todas as outras que também foram ceifadas em virtude das enxurradas", frisou. Além disso, ele afirmou que pretende agradecer as pessoas que tentaram resgatá-la na última sexta-feira.

A morte de Denise não é a primeira registrada na Avenida Princesa D'Oeste em decorrência das chuvas. Em janeiro de 2019, praticamente no mesmo quarteirão, um motociclista de 41 anos morreu após cair da moto e ser arrastado pela enxurrada. Os socorristas do Corpo de Bombeiros tentaram reanimar o homem, que acabou não resistindo. Já em fevereiro de 2003, após uma chuva de 140 milímetros, seis pessoas faleceram, uma delas na Avenida Princesa D'Oeste. Na época, as vítimas chegaram a ser içadas por meio de um helicóptero.

Orlando Schebauer, que vive em situação de vulnerabilidade social, tentou resgatar a moradora na última sexta-feira. "Eu a vi caindo e sai correndo. Fiquei 10 minutos tentando salvá-la, mas a enxurrada estava muito forte. Tentei fazer de tudo", lamentou. Posicionado em frente a uma padaria localizada na avenida, Schelbauer observou atentamente mais um alagamento, que tomou conta da via por pelo menos 20 minutos ontem. "Basta uma chuva forte, mesmo por poucos minutos, que o local fica debaixo d'água", criticou.

Mesmo com a tragédia ocorrida na última sexta-feira, a prática de remover os carros do meio-fio ainda é comum. "Tem que estacionar em outro lugar, pois o risco de o carro ser arrastado ou ficar ensopado por dentro é grande", explicou Luiz Santana, de 43 anos, que estava no local para almoçar.

Problemas

Moradora do Parque Oziel, Ana Lúcia Silva, de 39 anos, contou que teve sua casa demolida, ontem, pela Prefeitura. "Mudaram algumas coisas no sistema de esgoto que acabou sobrecarregando a canalização em frente a minha residência", relatou. No último dia 5, após uma forte chuva, a mudança, segundo ela, causou uma enxurrada que levou um pedaço do quintal, fazendo com que o imóvel fosse considerado de risco. "Vieram na última quinta-feira e demoliram", contou. Com a medida, Ana foi obrigada a dormir na casa de vizinhos por alguns dias.

Com a interdição, ela recorreu a doações para pagar o aluguel de outra residência. Mesmo assim, Ana procurou a Prefeitura em busca de alguma resposta. "Falaram que vão tentar liberar o auxílio aluguel até fevereiro. Foi um erro deles, pois tinham ciência da necessidade em ajustar a canalização", criticou.

Posicionamento

Procurada, a Administração informou, em nota, que a Defesa Civil atendeu a 126 ocorrências no período de 31 de dezembro à 2 de janeiro. Com relação a enchente que vitimou a representante comercial na última sexta-feira, a Prefeitura esclareceu que a Secretaria de Infraestrutura trabalha na elaboração de um

"projeto executivo de intervenção nas microbacias hidrográficas do Ribeirão Anhumas, na Avenida Princesa D'Oeste, e do Córrego Serafim, na Avenida Orosimbo Maia.

Sobre a demolição de uma casa no Parque Oziel, a Prefeitura informou que trata-se de uma área de invasão com risco para as pessoas. "As casas foram demolidas por estarem em local de risco. A Administração já elaborou um projeto para a área a fim de estabilizar o entorno e evitar novos desmoronamento", esclarece a nota. As famílias desabrigadas, segundo a Administração, foram encaminhadas ao programa de Auxílio Moradia Emergencial.

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