Publicado 04 de Janeiro de 2022 - 8h47

Por Ronnie Romanini/ Correio Popular

Sem lugar para sentar, alguns pacientes com sintomas de gripe resolveram aguardar o atendimento deitados no chão da UPA Campo Grande: o tempo de espera chegou a 9 horas

Kamá Ribeiro

Sem lugar para sentar, alguns pacientes com sintomas de gripe resolveram aguardar o atendimento deitados no chão da UPA Campo Grande: o tempo de espera chegou a 9 horas

A tendência de elevação no número de pessoas que procuram atendimento para sintomas respiratórios continuou neste início de ano em Campinas. Em um período de apenas uma semana, a busca por atendimentos praticamente quadruplicou no Hospital Ouro Verde e dobrou no Hospital Mário Gatti-Amoreiras e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) São José, Anchieta, Carlos Lourenço e Campo Grande. Há uma semana, em um espaço de 24 horas entre domingo e segunda-feira, a média diária de casos de gripe no Ouro Verde era de 70. Agora, das 7h de domingo até às 7h de ontem, o número estava em 272. Até ontem, dez pacientes estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do complexo hospitalar. Dois tiveram a confirmação de covid-19 enquanto outros foram diagnosticados com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) ou aguardam o resultado de exames.

No Gripário do Mário Gatti-Amoreiras, o atendimento de pacientes com sintomas respiratórios subiu de 120 para 254 de uma semana para outra. No caso dessa unidade, não há diagnóstico confirmado de covid-19. Os nove pacientes internados na UTI estão com SRAG ou também no aguardo dos resultados dos exames. Entre domingo e segunda-feira, nas UPAs da Rede Mário Gatti de Urgência, Emergência e Hospitalar, 1.026 pacientes foram atendidos, sendo que dois terços tinham sintomas respiratórios. Uma semana antes o total de atendimentos ficou em torno de 400.

A reportagem do Correio Popular visitou algumas unidades de saúde e constatou que a situação passa longe de ser confortável. Por não conseguirem ficar sentadas, algumas pessoas estavam atiradas ao chão. A cada cinco segundos era possível ouvir uma tosse irrompendo em algum canto entre as pessoas que esperavam pela triagem ou pela consulta. A espera era longa e as reclamações eram tanto individuais - pela demora no atendimento - como coletivas e solidárias diante de casos mais graves. A desconfiança entre os pacientes que esperavam é de que havia apenas um médico para atender todos, algo que foi negado pela Rede Mário Gatti.

Na UPA Campo Grande, o jardineiro Vitor Hugo Martins Izar, de 24 anos, se indignou com a demora em atender um senhor de cadeira de rodas bastante debilitado. O jovem estava acompanhando a namorada, Bianca Cristina do Carmo, 19 anos, que está com febre, dor de garganta e uma forte tosse. Ao ser atendida no domingo à noite, ela disse que um membro da equipe médica insinuou que ela estava apenas atrás de atestado. Como a situação não melhorou, o casal voltou à UPA ontem às 7h e só foram atendidos por volta das 16h. Ele alegou que a esposa não foi testada para covid-19 mesmo apresentando sintomas. A suspeita é que ela esteja com gripe, mas não foi pedido o exame para descartar a possibilidade de covid.

Houve ainda quem não aguentou a longa espera e desistiu, retornando para casa do mesmo jeito que saiu ao buscar auxílio médico. Na UPA, o instalador de internet, Jessé Windsor Ferreira da Conceição, de 28 anos, estava deitado no chão sem conseguir permanecer sentado ou de pé. Ele sofreu um acidente de moto no domingo pela manhã e, além dos ferimentos decorrentes do acidente, estava com sintomas de fraqueza, dor no peito, falta de ar e febre. Depois de cerca de oito horas de espera, ele enfim foi atendido, mas foi informado que precisaria esperar mais duas horas para fazer a coleta de sangue para exames e o tratamento dos ferimentos do acidente. A mãe dele, a auxiliar de limpeza Roseli Figueira da Conceição, contou que o filho não aguentou esperar por estar o dia inteiro sem comer e com muitas dores.

No hospital Ouro Verde, a vendedora on-line Paola Jair Marta estava acompanhando o marido que apresentava sintomas respiratórios. Logo pela manhã o casal tentou atendimento no Centro de Saúde do Jardim Florence e não conseguiu. Eles foram até a UPA Campo Grande e, ao constatar a situação do local, também desistiram de tentar por lá. Por fim, chegaram ao Hospital Ouro Verde. O marido de Paola até conseguiu passar pela triagem, mas depois de quase duas horas de nova espera, e observando a demora no atendimento, eles desistiram. Com o corpo e a garganta ruins, a opção foi pelo repouso para ver se há uma melhora na condição. Caso contrário, a procura por atendimento vai recomeçar hoje.

Já no Hospital Mário Gatti-Amoreiras, a empresária Rosângela Cardoso acompanhava o filho Eduardo Felipe do Farah, 28 anos, que é publicitário. Ele apresentou sintomas no sábado e, com piora no domingo, resolveu ontem procurar o hospital. Depois de seis horas de espera ele foi atendido e, ao contrário de outros, conseguiu fazer o teste para covid-19, mas não sem demora. "Até que foi rápido após passarmos pelo primeiro atendimento. A demora mesmo é no processo inicial. Foram seis horas apenas para fazer a ficha.

Ao menos o atendimento foi bom. O médico fez o teste de covid e teremos o resultado em até dez dias. Disseram que estão fazendo testes em qualquer um que apresente sintomas gripais, pelos casos de Influenza e de covid", afirmou a empresária.

Para a médica infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi, é preciso identificar o que de fato está acontecendo no município, se a crise é por causa da nova variante da covid (Ômicron), da gripe (Darwin) ou se são os dois vírus juntos causando uma ampliação na demanda por atendimento médico. "Testar é fundamental. Se não há testagem, não há como orientar adequadamente o paciente em relação à medicação e ao tempo de isolamento. Também atrapalha a decisão dos gestores na hora de tomar medidas de controle. Seria extremamente importante a disponibilidade de testes rápidos, não apenas um que demore quatro, cinco dias para o resultado sair. Acredito que o grande esforço dos gestores públicos deve ser o de disponibilizar isso para a população".

Raquel ainda citou outras duas medidas que poderiam ajudar a Administração no controle da epidemia de gripe e da pandemia de covid-19. "É preciso retomar campanhas de conscientização. A pandemia ainda não acabou. Precisamos usar máscara sempre que houver aglomeração, mesmo em locais abertos, e insistir nas que tem maior poder de filtração. É preciso destacar também a necessidade de completar a vacinação, tanto para quem ainda precisa tomar a segunda dose como para os aptos a receber a terceira".

Secretaria de Saúde nega uma suposta falta de médicos

Em relação à reclamação da falta de teste e de profissionais para atender a população na UPA Campo Grande, a Rede Mário Gatti informou que "pacientes com sinais sugestivos de covid-19 são submetidos à testagem RT-PCR" e que os resultados saem entre quatro e cinco dias. A assessoria de imprensa da rede também disse que não há, no momento, falta de testes e de medicamentos, e que não procede a reclamação de que haveria apenas um médico atendendo ontem na UPA. Vale frisar que ontem foi homologado o contrato com a entidade que terá a responsabilidade de contratar médicos e profissionais para trabalhar na UPA Campo Grande. Com a publicação no Diário Oficial do Município, agora será emitida a ordem de serviço. A estimativa é a de que a entidade associada contribua nos recursos humanos da UPA em três semanas.

Ainda sobre as reclamações de falta de médicos, a Secretaria de Saúde de Campinas também negou o problema. A informação, repassada por meio da assessoria de imprensa, é a de que o quadro de profissionais é o mesmo que era no pico da pandemia, "quando a demanda era maior". Nos hospitais e UPAs da Rede Mário Gatti, o índice de positividade para covid-19 está abaixo de 5%. Até a semana passada, nas unidades de saúde gerenciadas pelo município o índice estava entre 2% e 3%. Entretanto, para gripe, os casos testados com resultado positivo eram quase 40%.

Embora seja notável o aumento de pessoas sintomáticas respiratórias na cidade, algo reconhecido pela Secretaria de Saúde, ainda não foi possível atribuir o número às novas cepas. Por enquanto, nenhum caso da Darwin ou da Ômicron foi detectado em Campinas. Quem faz o sequenciamento genético para identificação das variantes é o Instituto Adolfo Lutz. Procurado, o instituto disse que até o momento houve a identificação de 28 casos da Ômicron em todo o estado de São Paulo. Especialistas recomendam a manutenção das medidas já conhecidas para evitar a covid-19 e que também são válidas contra outras doenças respiratórias: uso de máscaras, distanciamento social, evitar aglomerações e realizar higienização frequente das mãos.

Escrito por:

Ronnie Romanini/ Correio Popular