Publicado 23 de Novembro de 2021 - 9h52

Por Da Redação do Correio Popular

A coletora de recicláveis Valéria Francelino mostra a geladeira vazia

Kamá Ribeiro

A coletora de recicláveis Valéria Francelino mostra a geladeira vazia

A campanha "Natal sem Fome" pode não ter condições de cumprir o que propõe o seu enunciado. Por causa do grande número de famílias em situação de pobreza e extrema pobreza (53 mil, o que equivale a 212 mil pessoas) na cidade e do pequeno volume de doações de alimentos, reflexo principalmente dos altos índices de desemprego, é possível que muitos campineiros celebrem as festas de final de ano de barrigas vazias.

A iniciativa, lançada no último dia 11 de novembro pela Federação das Entidades Assistenciais (Feac), Associação Paulista de Supermercados (Apas), Câmara Municipal e Prefeitura conseguiu arrecadar apenas 27 toneladas de alimentos em nove dias, volume suficiente para atender somente 2 mil famílias, ou seja, algo como 4% da legião de famintos do município. Os números refletem o drama vivido tanto pelos campineiros em situação de vulnerabilidade social, quanto das entidades que se esforçam para atendê-las.

Benedita Aparecida Franco de Camargo, que coordena a Casa da Sopa, no Jardim Paraíso de Viracopos, disse que a arrecadação de alimentos caiu pela metade nos últimos meses e que o número de famílias para ajudar quase triplicou em um ano. "Em 22 anos de ajuda aos mais pobres, nunca vi tanta gente passando fome. Fornecemos sopa e cesta básica para 400 famílias. Antes da pandemia, eram 170 famílias", comparou.

As doações, segundo ele, precisam não apenas aumentar, como prosseguir ao longo dos próximos meses. "Precisamos de muita ajuda. A situação do povo é triste e dá dó de ver", lamentou Benedita. "A Casa da Sopa vai receber 100 cestas da campanha Natal Sem Fome e isso vai ajudar. Entretanto, outras 300 famílias vão ficar à espera de ajuda vinda de outras mãos", acrescentou. Solange Lucena, assistente social da Associação Beneficente Campineira (ABC), no Jardim São Marcos, disse que o cenário de crise econômica e pandêmica tem como resultado a diminuição na oferta de alimentos e o aumento de pessoas em situação de vulnerabilidade.

"A ABC passou a fazer entrega de cestas básicas por conta do agravamento da situação. O foco principal da instituição é acolher 90 crianças de 6 a 14 anos com atividades educativas, café da manhã e almoço, mais 60 famílias com atividades em informática, sapateado e empreendedorismo. Porém, houve um crescimento absurdo pela procura de alimentos e começamos a arrecadar doações para repassar a estas famílias e crianças que são atendidas", relatou.

Sem renda

A situação é bastante crítica na casa da Juliana Felizardo, que reside no Jardim Paraíso de Viracopos com mais quatro pessoas. "Minha mãe e meu irmão estão acamados e minha filha é criança. Eu e meu primo é que colocamos dinheiro em casa, mas estamos desempregados desde o ano passado. A Casa da Sopa é a nossa salvação", comentou. Valéria dos Santos Francelino, que vive com duas filhas em um barraco no mesmo, mostrou a geladeira vazia e disse que não consegue ter a mesma renda com a venda de produtos de reciclagem. "A atividade passou a ser feita por muito mais gente", lamentou.

A vida sofrida foi relatada também pela aposentada Euzita Ferreira Graia, de 72 anos, que mora com mais quatro pessoas em sua casa no Jardim São Marcos. As três filhas estão sem emprego e ela ainda tem que alimentar uma neta. "As contas básicas são pagas com a aposentadoria, mas é tudo muito caro. Se não fosse a ajuda da cesta básica da ABC, a gente ia passar fome", comentou. Outra situação complicada foi relatada por Marli da Silva Santos, que foi com a filha Sofia Manuela, de 4 anos, receber cesta básica. "O custo de vida subiu demais desde a pandemia. Está tudo muito caro. Mesmo com o emprego que tenho, não consigo manter as despesas", lamentou.

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