Publicado 23 de Novembro de 2021 - 9h42

Por Mariana Camba/ Correio Popular

Alunos em sala de aula da Escola Municipal Professor Vicente Rao, no Pq. Industrial: mesmo sem o distanciamento de um metro, os pais se sentem seguros e aprovam a retomada integral

Diogo Zacarias

Alunos em sala de aula da Escola Municipal Professor Vicente Rao, no Pq. Industrial: mesmo sem o distanciamento de um metro, os pais se sentem seguros e aprovam a retomada integral

O retorno obrigatório às escolas da rede municipal de Campinas passou a valer para 100% dos estudantes a partir de ontem, sem a adoção do distanciamento de um metro entre os alunos. A maioria dos pais demonstrou segurança nesta volta e aprovou a retomada, mesmo com a proximidade do final do ano letivo, que ocorrerá em dezembro. Entretanto, a medida não é uma unanimidade. A especialista em educação, Marcia Malavasi, avaliou como temerário o retorno neste momento. O Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal de Campinas (STMC) também se posicionou contrário ao esquema de retomada adotado pela Prefeitura e, inclusive, solicitou uma audiência com o Ministério Público do Trabalho (MPT) para tratar sobre o assunto.

A obrigatoriedade da volta às aulas da rede municipal passou a valer no último dia 3, mas ainda em meio ao revezamento e manutenção do distanciamento entre os alunos. Somente a partir do último dia 8, o retorno por etapas teve início, sem o espaçamento entre os jovens. As primeiras turmas a voltarem integralmente às salas de aula foram as do ensino fundamental, Educação de Jovens e Adultos (EJA), dos cursos técnicos de qualificação profissional, e os alunos que fazem parte do chamado "Agrupamento III", que têm entre 4 e 5 anos. Na semana seguinte, no dia 16, as escolas receberam todos os alunos do Agrupamento II, entre 1,6 ano e 3 anos.

Ontem, voltou a última parcela dos estudantes que são do Agrupamento I, que inclui as crianças com até 1,6 anos. De acordo com o diretor do Departamento Pedagógico da Secretaria de Educação de Campinas, Luiz Roberto Marighetti, até o momento, a frequência dos alunos está em torno de 80%. A parcela que ainda não retornou, seja por orientação médica ou problemas familiares, tem mantido os estudos em casa por meio das atividades encaminhadas pelos professores.

"A frequência não cresce de forma imediata, ela é progressiva. Quem se ausentar sem justificativa cabível ficará com falta. Entretanto, sabemos que a frequência nunca será de 100%. Mesmo antes da pandemia, esse índice não era alcançado", informou. Marighetti disse que a retomada agora é essencial, pois ela permite a avaliação dos alunos e, com isso, o planejamento do ano letivo de 2022.

Segundo ele, fazer essa avaliação à distância seria muito difícil. Desde o início da volta presencial das aulas na rede municipal, o diretor do departamento pedagógico informou que não foram registrados casos de infecção por covid-19 dentro das escolas.

Sindicato

O STMC informou que muitas unidades escolares de Campinas têm salas de aula sem ventilação natural, o que afeta a segurança de estudantes, professores e demais trabalhadores. "O Departamento Jurídico do sindicato notificou a Secretaria Municipal de Educação e pediu uma audiência com urgência ao MTP, mas até o momento não houve retorno dos dois órgãos", declarou a entidade por meio de nota.

Segundo o STMC, a volta presencial ocorreu sem que houvesse um diálogo entre a Administração e o sindicato e isso colocou em risco a saúde e vida da comunidade escolar. A entidade reforçou que é contra o retorno integral dos estudantes e que não era necessária a retomada total com menos de dois meses para o término do ano letivo. Na semana passada, o sindicato encaminhou um ofício à Secretaria Municipal da Educação solicitando uma reunião com o secretário da Pasta para tratar sobre a volta e em relação ao ano letivo de 2022. "O STMC está preocupado", concluiu a nota.

Pais

A recepcionista ambulatorial, Lilian Aparecida Ruela, tem uma filha de seis anos que estuda na rede municipal de Campinas e garantiu que se sente tranquila com o retorno presencial da menina. "Eu trabalho em um hospital e vejo que os índices de casos e óbitos causados pela covid-19 estão diminuindo. Isso me deixa confiante com a volta", informou. Para ela, a vacinação deveria se estender às crianças como reforço à segurança delas.

O aposentado Airton Pedro de Souza levou ontem o neto de 7 anos até uma escola municipal, localizada no bairro Parque Industrial, e garantiu que o atual momento da pandemia é favorável à retomada. "Em casa, todos estão imunizados, assim como os profissionais que atuam nas escolas. Por isso, acredito que o meu neto esteja em um ambiente seguro", avaliou. Souza disse que, devido ao tempo que o garoto passou longe da sala de aula, agora ele está apresentando dificuldades para retomar os estudos.

Especialista

A especialista em avaliação institucional, Marcia Malavasi, acredita que a tendência é de que, no Brasil, ocorra no futuro a mesma alta dos casos que tem sido observada na Europa. Ela acrescentou que é precipitado voltar com 100% de presença nas escolas, enquanto toda a população não estiver imunizada, o que inclui as crianças. "Voltamos sem o distanciamento de um metro e isso é extremamente grave. Essas medidas, aliadas ao avanço das flexibilizações, terão um alto custo no futuro", declarou.

Marcia afirmou que é preciso que as crianças se imunizem contra a covid-19, principalmente as com 5 anos ou mais. A avaliação neste momento, segundo ela, tem que ser feita com base no ponto de vista da saúde e não em relação às questões pedagógicas. "Desde o início do retorno obrigatório, os professores e demais profissionais que atuam nas escolas estão apreensivos e preocupados. Por que vamos esperar o aumento nos registros de casos e óbitos para retroceder as liberações?", questionou.

Escrito por:

Mariana Camba/ Correio Popular