Publicado 17 de Novembro de 2021 - 9h15

Por Gilson Rei/ Correio Popular

Comdema e ONG Resgata Cambuí reclamam do corte radical de árvores no canteiro central da Avenida Jesuíno Marcondes Machado, onde está sendo construída uma nova ciclovia

Kamá Ribeiro

Comdema e ONG Resgata Cambuí reclamam do corte radical de árvores no canteiro central da Avenida Jesuíno Marcondes Machado, onde está sendo construída uma nova ciclovia

A implantação de um sistema cicloviário na região dos bairros Nova Campinas e Cambuí, iniciada pela Prefeitura há duas semanas, está gerando muita polêmica. Moradores, ciclistas, ambientalistas e urbanistas defendem a iniciativa da Prefeitura de criar mais quilômetros de vias exclusivas para bicicletas, porém criticam a forma radical e sem acompanhamento técnico na execução da obra.

Integrantes do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) e da Organização Não Governamental (ONG) Resgate Cambuí questionam principalmente os cortes de árvores sem critérios; os danos feitos às raízes das espécies de pequeno e grande porte; as podas drásticas dos galhos e a redução da área de desenvolvimento das plantas nos canteiros. Todos apontam a necessidade de ajustes técnicos no planejamento e na execução do sistema cicloviário.

O projeto da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) pretende interligar vias exclusivas para bicicletas por duas rotas, que juntas totalizam aproximadamente 7 km. Uma das rotas prevê ciclovias e ciclofaixas pela avenida José Bonifácio até a avenida Jesuíno Marcondes Machado, próximo à Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac) e Shopping Iguatemi, seguindo posteriormente no sentido dos bairros Nova Campinas e Novo Cambuí pela rua Helena Steinberg até a avenida José de Souza Campos (via Norte-Sul), onde já existe uma ciclovia.

A outra rota será pela avenida Doutor Manoel Afonso Ferreira, no bairro Jardim Paraíso, a partir do Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, seguindo pela avenida Jesuíno Marcondes Machado, passando pela Igreja Santa Rita, acessando posteriormente a rua Helena Steinberg, próximo ao prédio da antiga Telesp, até interligar com a ciclovia da avenida José de Souza Campos (via Norte-Sul).

Falta de cuidado

A falta de um cuidado com as mangueiras, abacateiros, flamboyants e tantas outras espécies de árvores foi criticada por José Hamilton de Aguirre Junior, engenheiro florestal, agrônomo e mestre em arborização urbana, que integra também o Comdema. "Um dos erros no projeto é o estreitamento das áreas com terra nos canteiros centrais nas avenidas. A permeabilidade diminui a absorção de nutrientes, prejudicando a saúde e o desenvolvimento das árvores, tornando cada planta mais vulnerável a quedas e doenças", comentou.

O corte radical das raízes das árvores com o uso de tratores que abrem os trechos no canteiro, resulta em uma ação violenta, que rasga as raízes, deixando as espécies expostas a muitas doenças. "O dano vai refletir em maior contaminação de fungos, bactérias, brocas, cupins e doenças diversas que acabam enfraquecendo as árvores com o passar dos anos", explicou.

O pouco espaço nos canteiros e o corte drástico das raízes resultam também em maior fragilidade na sustentação e na estrutura, podendo causar quedas de árvores com os ventos mais fortes em tempos de tempestades. "A forma de execução desta obra, feita sem critério técnico não pode continuar", comentou.

Aguirre Junior destacou também que a redução das áreas de terra nos canteiros vai contribuir também com o maior volume de água e correntezas nos dias de chuva, porque não haverá quase espaço para a água penetrar. "Haverá maior volume de água escorrendo para as regiões mais baixas, pois trata-se de uma região de vales e a bacia hidrográfica leva para as partes mais baixas toda a água, gerando enchentes e alagamentos maiores", comentou.

Projeto de arborização

Rodopho Schmidt, engenheiro florestal, integrante do Comdema, lembrou que falta um projeto de arborização nesta obra da Prefeitura. "Não houve planejamento de arborização e isto prejudica na qualidade de vida e na questão ambiental", comentou. "São bairros-jardins, bastante arborizados e a obra deveria ser utilizada para se fazer uma recomposição. Deveriam ter planejado quais deveriam ser cortadas e definir o replantio de compensação, restaurando a arborização", afirmou. Quanto ao corte radical das raízes, Schmidt aconselhou a técnica de poda adequada das raízes, sem causar danos para evitar o surgimento de doenças.

Tereza Penteado, integrante da ONG Resgate Cambuí, defendeu o acompanhamento de um técnico na obra. "O Poder Público não se conversa. Todas as Secretarias deveriam se conversar e agir em conjunto. Um faz o projeto, o outro executa com empresa terceirizada e surgem erros que comprometem a obra, que é uma reivindicação importante para a sociedade", comentou. "As podas radicais não deveriam ter acontecido e falta ainda muita obra pela frente. Algo tem que ser feito para não destruir o meio ambiente e piorar ainda mais a qualidade de vida", disse.

Morador da região há 40 anos, Ronaldo Marques, arquiteto e participante da ONG Resgate Cambuí, disse que existem erros também no trajeto do sistema cicloviário. "No balão que fica próximo à Igreja Santa Rita, por exemplo, a ciclofaixa termina no balão, sem qualquer segurança aos usuários. Além dos veículos que fazem o trajeto na pista, tem neste ponto um ônibus articulado do transporte coletivo. O risco de acidente é gritante", comentou.

Marques disse também que as podas radicais não seguem critérios e muitas árvores vão cair nos próximos anos por doenças. "Além disso, tem árvores de grande porte que vão acabar quebrando o asfalto das ciclovias. Ninguém pensou nisso. Deviam usar as pistas de asfalto e não os canteiros centrais", sugeriu.

Tarik Juliani, empresário e morador da região, disse que a obra é importante para os ciclistas e para a mobilidade, porém, deveria ser executada de uma forma mais planejada e sem podas radicais e prejuízos ao meio ambiente. "Acho que o local tem também muitas subidas e descidas acentuadas e não há segurança para ciclistas, pedestres e nem para motoristas", disse.

Emdec

A Emdec foi procurada ontem, porém não houve retorno. Novo contato deverá ser retomado hoje.

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Gilson Rei/ Correio Popular