Publicado 14 de Novembro de 2021 - 9h32

Por Ana Carolina Martins

O presidente da Sanasa, Manuelito Pereira Magalhães Jr: carreira bem-sucedida

Diogo Zacarias

O presidente da Sanasa, Manuelito Pereira Magalhães Jr: carreira bem-sucedida

Manuelito é um nome derivado de origem espanhola, diminutivo de Manuel, comumente usado para se referir carinhosamente às crianças pequenas que levam este nome. Isso faz sentido, porque, de ''diminutivo", o presidente da Sanasa tem somente mesmo o nome. Economista, formado pelo Instituto de Economia da Unicamp, com MBA em Parceria Público Privada (PPP) e Concessões pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - com coparticipação da London School of Economics (LSE), o atual gestor da empresa de saneamento básico de Campinas, Manuelito Pereira Magalhães Júnior, conta com larga experiência no setor público, principalmente nas áreas relacionadas à Saúde, Saneamento, Economia e Planejamento. Já ocupou o cargo de diretor de gestão corporativa da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), foi presidente da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) e integrou a gestão do prefeito reeleito na capital, Bruno Covas (PSDB), no cargo de secretário Executivo de Desestatização e Parcerias.

Chegando para presidir a empresa campineira em meio à pandemia, a convite do prefeito Dário Saadi, Manuelito garante que aceitou o desafio por conta da Sanasa ser uma potência no setor e um patrimônio público que deve ser motivo de muito orgulho a todo campineiro. Nesta entrevista exclusiva, o executivo descarta qualquer possibilidade da Sanasa ser privatizada e justifica isso apontando os números, segundo os quais demonstram que a companhia ultrapassou o índice de universalização de água exigido por lei, que atualmente é de 99%, alcançando a marca de 99,8%. Em cinco anos, segundo Manuelito, a empresa deverá atingir também a universalização da coleta e tratamento de esgoto, hoje de 90%, faltando apenas dois ou três pontos percentuais para o município alcançar essa meta.

Manuelito esteve na redação do Correio Popular, em visita ao presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni, na última quarta-feira, 10 de novembro, e revelou suas expectativas e os futuros desafios previstos para a área de saneamento em Campinas e região. Casado com uma jornalista que trabalhou por anos aqui mesmo no jornal, o gestor reforça que, reiteradamente, manteve-se ligado e atualizado sobre Campinas durante sua trajetória profissional, mas adverte: "não sou político e não pretendo jamais me candidatar a qualquer cargo". Acompanhe o bate papo informal com quem hoje é o "dono da bola" na Sanasa.

O seu nome é um tanto incomum, qual a origem dele?

Bem, ele é diferente para estas bandas, mas não é um nome tão incomum na Bahia, onde nasci. Inclusive, você não vai acreditar, mas, uma vez, estavam na sala da minha casa cinco "Manuelitos", incluindo eu mesmo (risos). Mas a história é a seguinte: Manuelito é o diminutivo de Manuel, espanhol, ou seja, "Manuelito" é como são chamadas as crianças pequenas com este nome. Meu avô gostou muito, porque tinha um grande amigo espanhol e quis homenageá-lo colocando este nome no seu filho - meu pai -, que, por sua vez, também resolveu dá-lo a mim. Como não tive filho homem, tenho duas mulheres, a coisa parou por aí. Acredito que não iria repassar o nome se tivesse filho do sexo masculino, porque é muito difícil explicar tudo isso (risos) As pessoas não entendem. Mas foi essa a origem do meu nome.

E como o sr. chegou aqui em Campinas para ocupar esse cargo na Sanasa? Conte um pouco de sua trajetória profissional.

Na verdade, não cheguei aqui. Eu saí daqui. Mudei-me para Campinas no final dos anos 80 para estudar na Unicamp. O começo da minha vida profissional se deu aqui. Já havia ocupado cargos na Prefeitura de Campinas antes e, apenas no final de 2006, começo de 2007, mudei-me para São Paulo, em razão de já trabalhar há dois anos como secretário municipal em São Paulo. E, com filhos pequenos, ficar de lá para cá não era interessante, então me mudei para a capital, mas mantive minha relação com o hoje prefeito (Dário Saadi) e a proximidade com a cidade. Sou casado, tenho duas filhas, uma de 17 e outra de 13 anos, a mais velha campineira, a outra paulistana. Tenho longa relação com o jornal Correio Popular, pois a minha mulher é jornalista, trabalhou no Correio por muito tempo e sinto muito carinho por ele. Bem, antes de voltar a Campinas, ocupei cargos como o de subsecretário de orçamento de Estado; antes disso, fui secretário de Desestatização da Prefeitura de São Paulo; secretário municipal de Planejamento de São Paulo; presidente da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano, a Emplasa, já extinta; conselheiro de Administração da Sabesp por quatro anos e diretor de gestão desta mesma empresa por sete anos e meio. Também atuei no Governo Federal, da Agência Nacional de Saúde (ANS), fui do Ministério da Saúde e trabalhei no Senado Federal.

E o que o levou a desenvolver uma carreira dentro do serviço público?

Eu sou um técnico e não um político. Claro que, quando se ocupa uma função técnica no serviço público, é necessário desenvolver algum traquejo político, mas não faço política. Nunca fui candidato a nada e nem pretendo ser. Minha formação é técnica, sou economista, com pós-graduação, MBA… Meu perfil profissional é da área do planejamento. Ao longo do tempo, acabei ocupando muitos cargos voltados à saúde, onde gestão é fundamental, e na área de saneamento, outro setor que demanda muito de planejamento e gestão. Então, aprendi muito sobre saneamento em uma das duas maiores escolas desse segmento no Estado: a Sabesp. E agora estou na outra: a Sanasa.

E como surgiu o convite para presidir a Sanasa?

Conheço o prefeito Dário há muitos anos e mantivemos o contato e relacionamento nesse tempo em que estive na capital, por ele ser médico e atuar na Câmara. E acompanhei, à distância, a eleição dele. Claro que, durante a campanha, conversávamos sobre questões voltadas ao programa de governo. Um belo dia, em dezembro, ele me ligou, dizendo que precisava tomar um café comigo. Fui, e ele ofereceu para mim o desafio de presidir Sanasa, que é uma das melhores empresas de saneamento do país e a melhor empresa municipal de saneamento. E esse é o tipo de desafio que nos enche de orgulho. Portanto, ficou muito difícil dizer não. Aceitei. A empresa vinha sendo bem gerida, bem administrada. Nos últimos anos, tem recebido sucessivas premiações como a melhor empresa de saneamento municipal e do país. Tive a minha primeira experiência de representar a Sanasa em outubro, em um fórum de saneamento, e, em uma mesa de presidentes de empresas do setor, eu era o único nela a representar uma empresa municipal. Fiquei até espantado e, de certa forma, constrangido com a maneira elogiosa e de alta referência que eles se referiram à Sanasa. Esse é o tipo desafio que a gente não questiona, apenas aceita.

Que distinções o sr. faria entre a Sabesp e a Sanasa?

A tecnologia do saneamento já é totalmente dominada. Existem alguns processos de inovação na área, mas, de maneira geral, em termos técnicos, a Sanasa não deixa nada a dever à Sabesp. Muito pelo contrário, em alguns aspectos, inclusive, estamos mais avançados que ela. Um deles se refere ao tratamento de esgoto na cidade de Campinas, muito avançado naquilo que chamamos de tratamento terciário de esgoto, que é um tratamento que devolve a água aos cursos d'água com uma pureza de cerca de 99%. A Sanasa é, eu diria, a empresa top em termos de qualificação e de estruturas de tratamento terciário no Brasil, estando à frente da Sabesp, que ainda faz, essencialmente, um tratamento de natureza secundária.

Ao assumir a Sanasa, houve alguma coisa que o tivesse surpreendido dentro da empresa?

Tive poucas surpresas na Sanasa, porque já conhecia essa área. O corpo técnico é muito qualificado, mas gostaria de aproveitar esta oportunidade para fazer um reconhecimento aos trabalhadores da empresa. Estamos há mais de 18 meses vivendo a pandemia e o tipo de trabalho que é feito para manter o funcionamento e operação da Sanasa - 24h por 7 (dias), sábado, domingo e feriados - é essencialmente presencial e físico. E esses trabalhadores mantiveram o atendimento durante esse período. Ninguém teve qualquer problema no abastecimento de água ou no tratamento do esgoto nesse período. Esse é um ativo da cidade que tem de ser reconhecido e aplaudido. Isso porque os mais diversos setores da economia sofreram interrupções de funcionamento ou tiveram problemas para manter suas estações, mas nós não. A população não tem noção do que é manter funcionando uma estação de tratamento de esgoto e onze estações de tratamento de água. São estruturas que exigem a presença das pessoas. Por mais automatizada que elas sejam, não dispensam a presença do trabalhador. Os trabalhadores da Sanasa estão de parabéns pela forma como se portaram durante a pandemia.

E que impactos a pandemia trouxe para a empresa de saneamento campineira?

Assim como todos os setores da economia, fomos impactados fortemente pela pandemia. A Sanasa foi impactada de duas maneiras: tanto nas suas receitas quanto nas suas despesas. Para se ter uma ideia, o faturamento da Sanasa em 2021 deverá se aproximar do faturamento de 2019. E por que isso? Porque, embora, de certa forma, o consumo de água tenha se mantido constante, ele mudou. Ou seja, as escolas fecharam, as universidades fecharam, os restaurantes fecharam, a prestação de serviços parou... e as pessoas foram para casa. Então, esse consumo se deu mais na categoria residencial do que nas outras. Entretanto, a categoria residencial tem uma tarifa mais barata. Tivemos o mesmo consumo, o mesmo nível de despesa com produto químico, com mão de obra, energia elétrica, muito consumida pela empresa… Para o mesmo patamar de despesa, tivemos uma receita bem menor, resultado motivado também pela inadimplência.

A inadimplência cresceu quanto na pandemia?

O aumento da inadimplência era previsível e natural, já que muitas pessoas perderam seus empregos e ficaram sem renda nesse período. É difícil calcular um índice, porque uma conta não paga hoje, pode ser paga amanhã. A estimativa que posso divulgar é a de que, antes da pandemia, o índice médio era em torno de 2 a 3%. Agora, 4%, 5%, chegando até a 6%. Por outro lado, a Sanasa também foi impactada de uma segunda maneira: as despesas cresceram exponencialmente no que se referem aos novos custos de energia elétrica, combustíveis - dois itens com sucessivas altas -, produtos químicos usados no tratamento da água e do esgoto, cujo valor é dolarizado, com variação de até 40%. E ainda a questão do asfalto, visto que o repomos nos locais onde ocorrem obras. Este ano, foi de grandes desafios e ajustes, de pé no freio, para conseguir manter a empresa em pé, como ela sempre esteve.

O que o sr. espera de 2022?

O que a gente espera daqui para frente é que, com a volta da economia funcionando, possamos restabelecer um certo equilíbrio de custos e, ao mesmo tempo, que a nossa perda de receita seja minimizada pela volta das atividades econômicas. Esse é o horizonte com o qual estamos trabalhando.

Em relação à crise hídrica que se avizinha, como a Sanasa enxerga esse risco e que planos ela tem para evitar desabastecimento em Campinas?

Não imaginamos hoje enfrentar uma crise hídrica da mesma magnitude da que ocorreu em 2014/15. E explico o porquê: são momentos muito diferentes. A crise hídrica de 2014/15 foi uma crise do abastecimento de água à população. Vou dar um exemplo a vocês: antes de sair para esta entrevista, chequei o nível do Cantareira, hoje de manhã. No dia 10 de novembro de 2014, portanto, no começo do período do Verão de 2014/2015, o Cantareira estava usando a reserva técnica - o volume morto, não gosto dessa expressão -, ele estava negativo em 18%. Hoje (última quarta-feira), na mesmíssima data, esse índice está em 27,7% positivo. E o que significa isso? Que nós teremos um Verão sem restrições.

Sem riscos?

Não é bem assim. Claro que o momento é de alerta, mas não de alarmismo. É óbvio que quando se fala em fenômeno climático, nunca é possível ficar no conforto, mas nos últimos anos essa questão climatológica se intensificou, levando a extremos. Mas, entre 2014 e 2021, temos observado aspectos técnicos que nos ajudam a olhar para este primeiro momento do início de 2022 com otimismo: de lá pra cá, a realização da interligação da Bacia do Paraíba do Sul com o Sistema Cantareira, uma interligação da Represa de Jaguari, da Cesp (Companhia Energética de São Paulo), com a represa Atibainha do Sistema Cantareira, o que ajuda a manter ou pelo menos perder pouco o nível do Cantareira. A segunda situação que nos beneficiou foi a renovação da outorga do Sistema Cantareira, que atinge diretamente a região de Campinas, em que estabeleceu-se que, na captação, aqui na altura do município de Valinhos, a vazão mínima do Rio Atibaia, é de 10 metros cúbico por segundo, o que nos dá esse horizonte de enfrentar o momento sem maiores restrições.

E como se encontra a situação geral de abastecimento no longo prazo?

Logicamente, não podemos e não devemos cruzar os braços. Afinal, temos que olhar para frente e a escassez de água não pode ser fator restritivo ao desenvolvimento da cidade. Dessa maneira, devemos buscar alternativas de abastecimento que ofereçam a Campinas e à sua Região Metropolitana, um vislumbre da situação em 2030, assim como a possibilidade de enfrentar com tranquilidade o nível de consumo de água atingido daqui a 10 anos, ou ainda a outros momentos como este, sem restrições. Inclusive, é importante mencionar que Campinas também apresenta hoje um dos menores índices de perda de água tratada devido a vazamentos na rede de distribuição do país. Atualmente, gira em torno de 20 a 21%. Parece muito, mas, apenas para efeito de comparação, a média do Brasil é de 39% de perda de água tratada nas linhas de distribuição. E temos estados em que esse índice chega a 70%.

Existe algum projeto prevendo socorro no abastecimento aos municípios da RMC?

Recentemente, nós disponibilizamos um contrato ao município de Valinhos, oferecendo a possibilidade de ajudá-lo a enfrentar esse período crítico. Aguardamos uma manifestação deles sobre isso. A Sanasa, naturalmente, está, como sempre esteve, à disposição de Valinhos e dos outros municípios para ajudá-los. E temos feito isso. Estamos realizando visitas técnicas e mantendo conversas com algumas cidades. Contamos com a capacidade técnica de alavancar recursos para o investimento necessário e parcerias. Mas depende de como as Administrações municipais vão encaminhar o assunto. Inclusive, do ponto de vista do novo marco regulatório, seria muito importante, pois ele estimula essa visão regional, ou seja, como é que eu posso compor com as cidades próximas.

Como o sr. vê a possibilidade, ou a oportunidade, de uma privatização da Sanasa?

Respondo para você com muita tranquilidade. A minha visão sobre o setor de saneamento é a de que o modelo de gestão da Sanasa é o melhor modelo para esse segmento. As melhores empresas de saneamento do país são de economia mista com controle estatal. E eu cito aqui as quatro melhores, pela ordem da grandeza: Sabesp, Copasa, Sanepar, do Pará, e Sanasa. As quatro têm o mesmo modelo, a de economia mista. No caso das outras três, excluindo a Sanasa, parte das ações delas está na Bolsa de Valores, o que não ocorre com a de Campinas. Todas com controle estatal. Nunca, na minha vida, eu defendi outro modelo que não fosse este. No caso específico da Sanasa, a privatização não faria sentido neste momento. A empresa alcançou a chamada universalização da água, que é definida por lei com o índice mínimo de 99% da população atendida com distribuição de água potável. Nós estamos com 99.8%. Do ponto de vista do esgoto, é de 90% para chegar à universalização da coleta e tratamento. Nós estamos entre 86% e 87%. Ou seja, falta muito pouco para atingir isso e os investimentos necessários estão praticamente engatilhados. Veja que não há sentido em se falar de abrir mão daquilo que eu disse no começo da nossa entrevista: de um patrimônio da cidade. Nos próximos cinco anos, atingiremos a universalização do tratamento de esgoto.

A nossa infraestrutura de abastecimento suportará ainda por quanto tempo? Existe planejamento para essa questão?

Estamos fazendo um planejamento para a cidade voltado à segurança hídrica, que envolve algumas características. Primeiro, aumentar a capacidade de reservação de água tratada. Nas próximas semanas, devemos lançar uma licitação para a construção de 20, 25 novos reservatórios, visando a ampliar a capacidade de reservação de água tratada no município. Outro ponto importante, refere-se à busca de alternativas que reduzam a dependência de Campinas ao Rio Atibaia. Esse ponto é fundamental. Sabemos de exemplos de localidades que foram buscar água mais longe para minimizar essa dependência de apenas um manancial. Somente assim é possível atingir alguma segurança hídrica. Dentro dessa perspectiva, uma outra questão que já temos em mente é a de que o Governo do Estado está finalizando duas represas: em Pedreira e Amparo, que fizeram parte da outorga do Cantareira. Essas empresas precisam ter alguma utilidade para Campinas, porque, se elas ficarem lá e não participarem das alternativas voltadas à segurança hídrica, não vão fazer sentido para Campinas. Por isso, estamos conversando com o Estado, com o PCJ, buscando alternativas para que elas dêem utilidade à região, para o lado de cá, dos rios Jaguari e Camanducaia. A entrega delas está prevista para 22 e 23 deste mês. Outra questão importante para a Sanasa é a de aumentar a flexibilidade operacional. Isso significa ter uma região da cidade que eu possa interligar com outras sem necessariamente ter um único caminho para a água passar.

Terminando este bate papo, queremos saber se o sr. consegue ter tempo livre para alguma atividade ou hobby.

Ultimamente, vem sendo muito difícil, por conta dessa questão da pandemia, quase não temos saído de casa. Gosto muito de maratonar nas séries e ficar com as meninas (filhas), porque elas estão estudando em São Paulo e, quando posso, quero ficar com a família. Também relaxo muito assistindo a jogos de futebol. Nem preciso dizer que torço pelo Bahia, né?

Escrito por:

Ana Carolina Martins