Publicado 13 de Novembro de 2021 - 9h42

Por João Lucas Dionisio/Correio Popular

A vereadora Paolla Miguel na sessão de segunda-feira foi xingada de

Diogo Zacarias

A vereadora Paolla Miguel na sessão de segunda-feira foi xingada de "preta lixo"; polícia já tem o nome da suspeita de cometer racismo

A Polícia Civil confirmou, na última quinta-feira, que identificou "uma pessoa suspeita" de ter cometido crime de racismo contra a vereadora Paolla Miguel (PT). O caso aconteceu durante a sessão da Câmara Municipal de Campinas na última segunda-feira. O inquérito está sendo realizado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que colheu ontem o depoimento da parlamentar. Três testemunhas também foram ouvidas, entre elas, o vereador Jorge Shneider (PL), que afirmou ter visto uma mulher ofendendo a vereadora de "preta lixo" enquanto ela discursava na tribuna sobre a importância da criação de um Conselho de Valorização da Comunidade Negra.

O parlamentar realizou, inclusive, o reconhecimento da suspeita, pois, segundo ele, "a manifestante estava sem máscara". Os dados da pessoa são mantidos em sigilo pela Polícia Civil. No entanto, Schneider reforçou que a Câmara possui o cadastro de todos os manifestantes, já que, para assistir a sessão plenária, o visitante é obrigado a apresentar um documento de identificação. De acordo com a DIG, que é a unidade responsável por apurar casos de racismo ou injúria racial de autoria desconhecida, o crime foi cometido por apenas uma mulher, que deve ser ouvida na próxima semana.

Investigação na Câmara

Além da averiguação da Polícia Civil, o presidente da Câmara, Zé Carlos (PSB), solicitou uma análise minuciosa das imagens gravadas pela TV Câmara para verificar os manifestantes que estavam sem máscara e os que praticaram ofensas aos parlamentares durante a reunião. O objetivo do órgão legislativo é proibir a entrada destas pessoas em sessões futuras. O grupo foi protestar contra o "passaporte da vacina" que passou a ser exigido em cinemas, teatros, cultos e missas em Campinas. Alguns vereadores da bancada da esquerda afirmaram que as pessoas foram incitadas pelo parlamentar Nelson Hossri (PSD), que é contrário ao comprovante de imunização. Entretanto, durante a sessão da última quarta-feira e por meio de nota oficial, Hossri assegurou que "não é líder de torcida e não convocou ninguém". O departamento jurídico da Câmara deve ser acionado nos próximos dias caso sejam identificados os visitantes que ofenderam os políticos.

Posicionamento

Na sessão da última quarta-feira, os 33 vereadores discursaram na tribuna e prestaram solidariedade à parlamentar Paolla Miguel. Do lado de fora do plenário, aproximadamente 300 pessoas protestaram contra o ato de racismo sofrido pela vereadora petista. Além disso, Hossri foi acusado pelos manifestantes de ter apoiado o grupo de direita a comparecer na Câmara. No discurso, o vereador afirmou que vai processar quem atribuir a ele o crime de racismo ou de ser o responsável pelo grupo.

Prefeitura

A Administração informou, em nota, que a corporação da Guarda Municipal foi solicitada pela direção da Câmara. No entanto, não houve pedido para que os guardas retirassem os manifestantes do plenário durante a sessão. "Não foi possível identificar a pessoa que proferiu a injúria racial. Porém, se tivesse havido a identificação, o indivíduo seria encaminhado para o distrito policial de forma imediata", explicou. De acordo com o posicionamento, a comandante da Guarda Municipal, Maria de Lourdes Soares, conversou com Paolla durante a sessão e se ofereceu para acompanhá-la para registrar a ocorrência, mas a vereadora preferiu comparecer à delegacia no dia seguinte.

O caso

Na última segunda-feira (8), a vereadora Paolla Miguel (PT) sofreu uma ofensa racista ainda na tribuna da Câmara, enquanto explanava sobre a criação do Conselho de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra, que estava prestes a ser votado. A transmissão ao vivo da TV legislativa captou o xingamento racista de uma mulher por pelo menos duas vezes. A parlamentar discursou em outras duas oportunidades, mas até então, os xingamentos tinham cunho político. "Quando voltei ao palanque pela terceira vez, as ofensas se acaloraram. Escutei a palavra lixo e alguns outros xingamentos agressivos. Na sequência, o presidente pediu para que eu parasse o discurso por conta da situação", afirmou.

"Alguém da platéia disse uma besteira. Nós vamos buscar as imagens e quem falou vai pagar. As imagens falam por si, fiquem tranquilos. Eu vou expor aqui na Câmara quem falou essa bobagem", avisou o presidente da Câmara, Zé Carlos. Apesar do alerta feito pelo presidente da casa, Paolla Miguel contou que as ofensas continuaram até o final da sessão. "Outros vereadores e um assessor também foram agredidos verbalmente pelo grupo antivacina", revelou.

Durante as atividades da casa, o grupo de manifestantes ecoou um cântico dizendo que "a vacina mata", mesmo com a notícia de que o Estado de São Paulo não havia registrado nenhum óbito pela covid-19 no dia. "Aquelas pessoas realizaram um crime de saúde pública ao incentivar que as pessoas não se imunizassem. Além disso, foram vários xingamentos e agressões injustificadas contra os parlamentares", relatou. A vereadora rechaçou, ainda, que os manifestantes e apoiadores justifiquem o crime como liberdade de expressão. "O responsável pela ofensa deve ser punido criminalmente", finalizou.

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João Lucas Dionisio/Correio Popular