Publicado 22 de Outubro de 2021 - 9h14

Por Mariana Camba/ Correio Popular

Estudantes desembarcam de vans escolares diante da Escola Estadual Monsenhor Emilio José Salim, na Vila Marieta: setor amarga baixa procura mesmo com a obrigatoriedade da volta às aulas

Diogo Zacarias

Estudantes desembarcam de vans escolares diante da Escola Estadual Monsenhor Emilio José Salim, na Vila Marieta: setor amarga baixa procura mesmo com a obrigatoriedade da volta às aulas

A obrigatoriedade do retorno às aulas, divulgada pelo governo estadual na semana passada, não trouxe o impacto esperado para os motoristas de vans escolares em Campinas. O pouco tempo até o término do ano letivo e a alta do preço do combustível, que refletiu no aumento da mensalidade cobrada de pais de alunos, provocaram a redução na procura pelo serviço. Segundo o presidente do Sindicato dos transportadores Escolares de Campinas e Região (Sintescamp), José Brasilino dos Reis, a oferta de vans de transporte escolar deve diminuir em 2022 por causa do elevado número de motoristas que abandonaram o ofício e buscaram outras atividades profissionais.

O sindicalista explicou que a maioria dos pais decidiu não contratar o serviço de transporte escolar neste momento, por causa do custo/benefício. Diante do pouco tempo até o término do ano letivo, muitos não acharam vantajoso gastar com a mensalidade e com os encargos cobrados no final do ano. Por isso, a determinação para o retorno presencial às escolas estaduais não refletiu no aumento da demanda. Reis acredita que mesmo com a volta obrigatória das aulas presenciais nas escolas municipais de Campinas, o quadro não sofrerá mudanças significativas. A expectativa da categoria, informou, é de que no próximo ano a situação apresente avanço.

Desde março de 2020, o setor vem enfrentando a pior crise já registrada. Com a paralisação das escolas como medida de segurança, por causa da exposição à covid-19, os motoristas ficaram sem rendimento por pouco mais de 15 meses. "Muitos passaram fome. Por isso, uma parte significativa mudou a área de atuação. Essa foi a maneira que encontraram para sobreviver", declarou Reis. Segundo o Sintescamp, no início do ano passado havia 1.650 motoristas de vans escolares em Campinas e Região. Este ano, o número caiu 21,21% (1.300).

O movimento do setor voltou a ser registrado a partir do início do segundo semestre de 2021. Atualmente, as vans estão trabalhando com apenas 50% da demanda, por causa da falta de clientes. Para Reis, neste momento os pais estão se adaptando à nova dinâmica escolar, mas se dizem seguros com o retorno dos filhos às escolas. Dentro das vans, assegurou o sindicalista, é obrigatório o uso do álcool em gel e da máscara, e entre as viagens os carros devem ser higienizados.

De acordo com Reis, o custo dos transportadores escolares também sofreu mudanças significativas desde o ano passado, por causa da alta no preço do combustível. Com isso, foi inevitável o repasse do valor aos pais, o que tem interferido na procura e adesão ao serviço. A mensalidade custava em média R$ 250 antes da pandemia. Agora, o valor subiu para R$ 350. Mesmo com o transporte escolar mais caro, o presidente do Sintescamp está otimista para o aquecimento do setor no início do próximo ano letivo. "Vamos retomar gradualmente e com segurança", concluiu.

Motoristas

O motorista de van escolar João Batista ficou sem ter como trabalhar com o transporte de estudantes por meses, devido ao fechamento das unidades de ensino. Por isso, teve de atuar como pedreiro e depender do dinheiro que conseguia com trabalhos informais. Ele também contou com a ajuda de alguns clientes, que se compadeceram diante da situação crítica e continuaram pagando parte da mensalidade, mesmo sem o uso do serviço. "Por causa desse ato humano é que consegui sobreviver ao ano passado", garantiu.

Segundo Batista, em 2019 ele e a esposa se dividam em duas vans para realizar o serviço de transporte.

Cada carro atendia em torno de 70 crianças. Atualmente, o casal tem contado apenas com um veículo e com a clientela de somente 30 alunos. Para o motorista, os poucos que retornaram às escolas o fizeram porque temiam ser penalizados com o registro de falta. Na tentativa de não espantar clientes novos e antigos, Batista não repassou ainda o custo que teve com o aumento do combustível. Ele deve reajustar o valor da mensalidade apenas no próximo ano.

O transportador escolar Osvaldo José Garcia atua no ramo há 21 anos, e garantiu que a pandemia gerou a primeira crise do segmento. "Desde o ano 2000 a demanda de serviço vinha aumentando. Por isso, ninguém esperava viver este momento caótico", explicou. Para ele, a maioria dos motoristas não está preocupada com o distanciamento dentro dos carros. A medida traz riscos, acrescentou, pois as crianças ainda não foram vacinadas contra a covid-19. Garcia disse que o ideal seria que o revezamento entre as turmas em sala de aula fosse mantido até o final deste ano letivo, e que a volta total ocorresse apenas em 2022. Desta forma, o espaçamento entre os estudantes seria garantido por mais tempo.

Garcia acredita que o setor se mantenha aquecido pelo menos nos próximos três anos, por causa do reduzido número de motoristas em atividade. Assim, os que tiverem ativos no mercado, terão o trabalho garantido. Parte dos pais de alunos da Escola Estadual Monsenhor Emilio José Salim, localizada no bairro Vila Marieta, se assustou com o preço cobrado pelos transportadores escolares. Por isso, decidiram economizar usando o próprio carro para levar os filhos à escola.

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Mariana Camba/ Correio Popular