Publicado 22 de Outubro de 2021 - 9h08

Por Ronnie Romanini

Sistema de monitoramento por imagem flagrou o deslocamento do felino por vários pontos da empresa, mas não registrou a saída do animal

Ricardo Lima

Sistema de monitoramento por imagem flagrou o deslocamento do felino por vários pontos da empresa, mas não registrou a saída do animal

Desmatamento, queimadas e o avanço da mancha urbana têm modificado o comportamento da fauna em todo Brasil e um exemplo disso foi visto ontem, na Central de Abastecimento de Campinas (CEASA). Uma onça-parda foi identificada durante a madrugada pelas câmeras de monitoramento circulando pelas dependências da empresa. Embora seja comum a presença de outros tipos de animais silvestres no local, por conta da proximidade com a Mata de Santa Genebra, foi a primeira vez que um felino da espécie foi avistado na área interna da Ceasa.

Pelas imagens das câmeras de segurança é possível ver que a primeira aparição da onça foi próxima ao prédio administrativo. O animal subiu alguns degraus de uma escada externa, observou a movimentação de um carregador que passava de bicicleta e depois recuou assustada. Pelas imagens dá para identificar que o felino aproveitou o "passeio" para fazer uma breve passagem por uma agência bancária e outros locais da Central. A onça não teve chance de se aproximar de qualquer funcionários da Ceasa.

O diretor técnico operacional da central, Claudinei Barbosa, falou sobre as primeiras providências tomadas ao ser informado da presença do animal , que teve o deslocamento monitorado por algumas das 154 câmeras de monitoramento instaladas nas dependências da empresa. Assim que foi notificado sobre a presença da visitante inusitada, Barbosa realizou alguns alertas. "Falei especialmente com a Rota das Bandeiras, que é a concessionária da Rodovia D. Pedro I, por causa do risco de algum acidente que ela pudesse causar ou mesmo sofrer", afirmou.

A presença da onça na Ceasa foi o tema predominante nas rodinhas formadas por funcionários e clientes da empresa. "Foi o que mais conversamos hoje: olha a onça!", brincou Daniel Marcos Cardoso, de 44 anos, permissionário de duas lojas. Ele trabalha desde 1994 no local e disse não se recordar de outras onças terem aparecido por lá. Mesmo em tom descontraído ("A imprensa hoje não veio falar sobre alho, tomate, batata e banana, veio ver a onça"), ele disse que muita gente ficou com medo da visita felina.

De acordo com o biólogo da Mata Santa Genebra, Thomaz Barrella, a recomendação é para que as pessoas, ao encontrarem uma onça, jamais deem as costas para o animal ou saiam correndo. O mais indicado é que recuem lentamente, andando de costas. Além disso, acrescentou, se o animal não estiver em um local fechado e se sentindo acuado, o risco é mínimo. O biólogo diz desconhecer relatos de ataques de onça-parda a seres humanos no Brasil.

Para Barrella, é difícil precisar a idade da onça parda apenas pelas imagens. Onças pintadas, por exemplo, são mais fáceis de serem identificadas e acompanhadas justamente por causa das manchas. As pardas não possuem uma "marcação nítida" que permita distingui-las. Mesmo assim, devido à presença de uma fêmea que pariu três filhotes há cerca de um ano, ele suspeita se tratar de uma jovem onça parda, que está em fase de criar independência, se desgarrar da mãe e buscar ambientes novos. "Pelas imagens, observamos que ela estava em um comportamento exploratório. Suspeitamos que seja um dos filhotes", arriscou.

Outra razão para a suspeita do biólogo é que ele observou ontem pela manhã, ao passar pelo muro que divide a Ceasa com a Mata de Santa Genebra, rastros de onça em direção oposta ao estabelecimento. As câmeras não conseguiram captar a saída do animal, mas é provável que o felino tenha retornando ao seu habitat natural.

Corredor ecológico

O biólogo da Mata de Santa Genebra atribui às ações humanas a maior frequência de aparições de onças em zonas urbanas. "O avanço do espaço urbano ou a expansão rural sobre as áreas naturais espremem os animais e os obrigam a explorar outros territórios. Durante esse trânsito, eles acabam aparecendo dentro de ambientes com presença de pessoas", observou.

Uma das ações que poderiam ser realizadas para evitar que essas ocorrências se tornem mais frequentes é a criação de corredores ecológicos para que os animais silvestres possam transitar em segurança, sem assustar as pessoas. "A estrutura é representa uma via segura para os animais. Você restaura a parte florestal e cria um ambiente mais natural para a circulação. Em intersecções com rodovias, perto de ferrovias, ou dentro de cidades, em avenidas, o ideal é que haja uma passagem subterrânea ou superior, para que o animal seja conduzido, ao sair da área florestada, sem se expor a riscos, como atropelamento. Não precisa ser uma 'superfloresta'. Um ambiente arborizado, sem intervenção e circulação de pessoas, dá segurança aos animais que não precisarão se expor", concluiu Barrella.

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Ronnie Romanini