Publicado 21 de Outubro de 2021 - 11h17

Por Ronnie Romanini

O radialista Jerry de Oliveira, de 52 anos, coordenador da Rádio Noroeste, que fica no bairro Vila Boa Vista, pede garantia de integridade física

Ricardo Lima

O radialista Jerry de Oliveira, de 52 anos, coordenador da Rádio Noroeste, que fica no bairro Vila Boa Vista, pede garantia de integridade física

Em meio ao crescimento da violência contra profissionais de imprensa no Brasil, Campinas registrou no mês passado mais um caso grave de tentativa de silenciamento e ameaças. A vítima da vez foi o jornalista Jerry de Oliveira, 52 anos, coordenador da Rádio Noroeste, que fica no bairro Vila Boa Vista.

Jerry estava em um carro de som na região convocando a população para uma manifestação que reivindicava a manutenção das aulas no período noturno de uma unidade escolar estadual, quando foi abordado por um homem. Após uma ameaça, inicialmente ignorada pela vítima, Jerry continuou a circular pelo bairro até ser interceptado por um veículo branco.

Dele saiu um segundo homem, armado, ameaçando matá-lo. O radialista saiu em disparada e conseguiu fugir do que ele classificou como uma emboscada. Ele comunicou aos organizadores do ato sobre a ameaça e pediu proteção policial para garantir a segurança no local. O que foi atendido.

Dias depois, um vídeo circulou em grupos das redes sociais e aplicativos de mensagens, em que o homem, supostamente um dos agressores que o abordaram durante a convocação para o ato, confirma que houve o contato com o radialista, mas que ele lamentava que o jornalista "não foi homem o suficiente para descer do carro" e faz sérias ameaças contra Oliveira.

Em uma delas, alerta as pessoas para não irem ao ato, pois algo poderia ocorrer, visto que o radialista estaria presente. Outras intimidações são feitas no vídeo, como a promessa de "passar por cima de você igual um trator" e "eu ia pisar na sua cabeça, no seu pescoço igual se pisa em uma galinha", caso o jornalista o tivesse confrontado e provocado uma briga. O agressor, inclusive, autoriza que o vídeo seja encaminhado para Jerry de Oliveira.

Quando soube da existência e persistência das ameaças, o comunicador registrou, no dia 20 de setembro, um boletim de ocorrência no 8º Distrito Policial (DP) de Campinas.

Ele também procurou a Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo para que a questão chegasse até as autoridades de segurança pública do Estado. Oliveira também buscou a ajuda de organizações de direitos humanos e parlamentares.

Em contato com a reportagem, ele apelou diretamente ao governador João Doria, para que o caso seja resolvido com celeridade, pois vive inseguro há um mês. "Somente quero resolver esse problema. Nada mais, nada menos. Se haverá prisão ou não, quem vai decidir é a Justiça, mas preciso me sentir seguro e o governo tem que me oferecer isso", afirmou.

O profissional pediu ao governo estadual que seja incluído em um grupo que possui outros jornalistas ameaçados e também no programa de proteção à testemunha.

Por questões de segurança, a companheira do jornalista, Cristiane Costa, diretora da rádio, está em endereço "desconhecido". O medo é o de retaliações e intimidações que saim do âmbito verbal. "Estou trancado em casa. Não posso exercer minha profissão porque, como jornalista, tenho que ir às ruas também, mas a situação é complicada. Minha segurança não é mais responsabilidade minha, está agora nas mãos do governador", desabafou.

A Rádio Noroeste, que tem Jerry de Oliveira como coordenador, é uma emissora pública e comunitária, voltada para a região da Vila Boa Vista. De acordo com ele, foram 14 anos de luta até a rádio conseguir autorização para ir ao ar.

Apoios

Entidades e sindicatos de jornalistas repudiaram a agressão e se solidarizaram com o radialista.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI), mediante seu presidente, Paulo Jerônimo, solicitou, em mensagem enviada diretamente ao governador, "a adoção das medidas junto aos órgãos de segurança pública para que investiguem com urgência tais ameaças e garantam a integridade física e a vida de Jerry de Oliveira e da diretora Cristiane Costa". A nota destaca que as ameaças são decorrentes da atuação da dupla em defesa dos direitos humanos e da comunidade em que atuam.

Na mesma linha, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) acredita que a política editorial que a Rádio Noroeste, que defende a liberdade de expressão, democracia e comunidade, é o motivo dos inúmeros ataques e ameaças sofridas, geralmente oriundas de setores antidemocráticos. A manifestação pública também pede urgência às autoridades estaduais na investigação e preservação da segurança das vítimas ameaçadas.

O diretor da regional em Campinas do SJSP, Marcos Rodrigues Alves, lamentou o ocorrido e desabafou sobre as agressões que os profissionais de imprensa enfrentam atualmente no país. "Ameaçar uma pessoa, mesmo que você não cometa o ato, já é um crime. Não pode (o agressor) chegar como 'Madalena arrependida’, chorar lágrimas de crocodilo e dizer que agiu no calor da emoção. Isso não existe", desabafou o diretor.

Escrito por:

Ronnie Romanini