Publicado 12 de Outubro de 2021 - 9h33

Por João Lucas Dionisio/Correio Popular

Interior da boate Caos, onde teria ocorrido o caso de homofobia: estabelecimento reconheceu erro de procedimento e prometeu dar teinamento à equipe de segurança

Diogo Zacarias

Interior da boate Caos, onde teria ocorrido o caso de homofobia: estabelecimento reconheceu erro de procedimento e prometeu dar teinamento à equipe de segurança

A denúncia de um caso de homofobia, ocorrido na casa noturna Caos, em Campinas, repercutiu nas redes sociais após a vítima publicar um desabafo sobre o episódio, que causou a indignação de frequentadores, artistas e de algumas associações de apoio às vítimas de agressão. O caso reascendeu a discussão sobre o aumento no número de crimes contra a dignidade sexual nas cidades do interior do Estado de São Paulo, que preocupa autoridades e a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBTQIA+).

Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado revelam que, entre janeiro e agosto de 2020, foram registrados 175 casos do tipo, contra 259 em 2021, o que representa um aumento de 48%.

Pablo Monaquezi utilizou as redes sociais para alertar sobre o ocorrido na casa noturna de Campinas. Por meio de um vídeo, o jovem revelou que sofreu agressões verbais e, por pouco, não foi atacado fisicamente. Segundo a vítima, as ofensas aconteceram após ele fazer amizade e dançar com uma mulher, que seria ex-namorada do agressor. "Ele veio para cima de mim, me xingando de 'viadinho' e só não me agrediu porque eu corri e algumas pessoas o detiveram", explicou por meio do vídeo.

Após a confusão inicial, o acusado da agressão foi retirado pela equipe de segurança do setor onde estava Monaquezi, acompanhado de um amigo. No entanto, quando ambos decidiram ir embora, encontraram o agressor na pista da casa noturna. "Ele partiu para cima de mim de novo, mas foi contido pelos seguranças", contou o rapaz, que ouviu da gerente que a equipe da balada estava fazendo o possível para controlar a situação.

Em virtude dos ânimos exaltados e da gravidade do caso, Monaquezi e o amigo se dirigiram ao banheiro do estabelecimento e acionaram a Polícia Militar, que compareceu ao local minutos depois. Contudo, ao sair da boate para encontrar com os policiais, a vítima viu o agressor sendo amparado pela gerência do local. "Esperamos, sob chuva, porque tínhamos medo de alguma agressão. Por outro lado, o homem recebia água de alguns responsáveis da casa noturna para se acalmar", afirmou.

Um aspecto curioso é que a Caos tem uma placa afixada na entrada afirmando que a boate condena a homofobia, o racismo, o machismo e outros crimes contra minorias. O episódio repercutiu durante todo o final de semana nas redes sociais. Um post do próprio estabelecimento foi bastante criticado pelos internautas, que lembravam o fato de o local levantar a bandeira contra o preconceito, mas não proteger um frequentador de agressões por conta da orientação sexual. A cantora Clarice Falcão também compartilhou o post da vítima e criticou a omissão da equipe de segurança do estabelecimento.

Outro caso

Situações homofóbicas não são novidade em relação às casas noturnas de Campinas. Para um entrevistado que não quis se identificar, o ato preconceituoso machuca bastante. "Sofri um caso parecido há alguns anos atrás, em uma balada localizada no Cambuí, e até hoje sinto a dor daquele dia", contou a vítima, que não quis prestar queixa à Polícia por medo dos agressores. "Fui ameaçado por dois homens dentro do banheiro da casa noturna, que falaram que iriam me agredir na rua", relembrou. Em choque, o entrevistado avisou os dois amigos com que estava e ligou para outra pessoa, que buscou o grupo de carro. "Até hoje sinto medo e evito frequentar casas noturnas. Não me sinto bem", confessou.

Na opinião do presidente da Associação da Parada e Apoio LGBT de Campinas, Douglas Holanda, o aumento de casos de homofobia no interior do Estado é preocupante. "Nossa finalidade é cuidar da comunidade e fazer o possível para que esses números não existam. Entretanto, se casos assim acontecem, é necessário documentar e acompanhar da forma menos dolorosa possível para quem foi agredido", ressaltou. A associação propôs um treinamento aos funcionários da Caos para que situações parecidas não se repitam. "Tenho convicção de que o treinamento diminui a possibilidade de que crimes assim ocorram em qualquer espaço, seja ele hétero ou LGBT", analisou.

Holanda explicou que a iniciativa não tem qualquer caráter de defesa da boate e que a entidade que representa não compactua com qualquer atitude que represente discriminação ou preconceito. "Se houve o crime, que ele seja apurado pelos órgãos competentes. Agora, se a causa foi a falta de treinamento da equipe de segurança, faremos o possível para que uma capacitação seja realizada", reforçou.

Casa noturna admite erro

Em nota divulgada nas redes sociais, a Caos lamentou o ocorrido e pediu desculpas pela falta de amparo no tempo devido após o rapaz sofrer sentir-se ameaçado dentro da casa. "Houve um erro irreparável da equipe responsável pela segurança em não retirar esse sujeito homofóbico de imediato do local", afirmou o estabelecimento. Mesmo assim, a casa noturna ressaltou que não compactua com atos preconceituosos de qualquer espécie. "O agressor homofóbico não é bem-vindo em nosso Club".

A casa noturna destacou, ainda, que trabalha, há anos, com a inclusão de diversos públicos, "com suas diferenças e identidades próprias". Na tentativa de se retratar, a nota afirmou que a Caos vai analisar todos os aspectos envolvidos no episódio para um exercício de reflexão e transformação. "Independente do trabalho executado pela equipe fixa ou terceirizada, houve falhas no procedimento e vamos trabalhar para a correção", reiterou.

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João Lucas Dionisio/Correio Popular