Publicado 10 de Outubro de 2021 - 10h09

Por Ana Carolina Martins/ Correio Popular

O escritor e titular da Academia Campinense de Letras, Sérgio Castanho, em visita à sede da Rede Anhanguera de Comunicação, onde concedeu entrevista exclusiva ao Correio Popular

Ricardo Lima

O escritor e titular da Academia Campinense de Letras, Sérgio Castanho, em visita à sede da Rede Anhanguera de Comunicação, onde concedeu entrevista exclusiva ao Correio Popular

Quando alguém pergunta a Sérgio Eduardo Montes Castanho se ele nasceu em Campinas, ele logo responde que, na verdade, nasceu literalmente na Rua Costa Aguiar, porque, justifica, é mais importante ter nascido nesta via do que na cidade. Foi exatamente na esquina com a Rua Álvares Machado, em um sobradinho amarelo, onde, embaixo, ficava a loja de seu pai e tio, a Casa Parra, que vendia fumo de corda, e em cima a casa da família, que ele nasceu com a ajuda de uma parteira.

Campineiro da gema, Castanho formou-se em Direito e logo começou a dar aulas. Com mestrado e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi docente e pesquisador da PUC-Campinas e da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Atualmente, aos 81 anos, é professor doutor colaborador da Unicamp e pesquisador vinculado ao Grupo de Estudos e Pesquisas História, Educação e Sociedade do Brasil (HISTEDBR). É titular ainda da Academia Campinense de Letras e escritor. Exerceu ainda as funções de jornalista e publicitário. Como cronista, publicou mais de 400 crônicas na imprensa de Campinas e São Paulo.

Incansável, lançou recentemente o título "Crônicas do Atibaia", em primorosa publicação, cuja capa foi criada por ninguém menos que o pintor, desenhista, cenógrafo e professor Egas Francisco de Souza. A genialidade de Egas estampa as "atibáiades", ninfas do rio Atibaia, que Sérgio Castanho afirma terem sido suas inspiradoras na criação literária ao longo do tempo. Ele esteve na última quinta-feira na redação do Correio Popular em visita ao presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni, e trouxe exemplares de seu último título, autografando-o e entregando durante a entrevista feita com ele.

O livro traz uma centena de crônicas escritas durante sua carreira. Nas palavras do próprio autor, cabe à crônica: "Referir o fato que ocorre, ou tenha ocorrido; comentar a ideia que aflorou, ou esteja brotando; tirar consequências da teoria que o cientista ou o filósofo tenha elaborado; pôr em prosa estalos que o poeta teria posto em verso - e tudo isso, e mais um mundo de temas ou casos, escrito em texto elegante e bem humorado, que dê prazer ao leitor, que o leve a refletir, que o conduza à esfera diáfana dos signos que a todos nos envolve, à esfera da cultura - tudo isso não é pouco. E é aí, exatamente aí, que está a crônica".

Casado há 52 anos, Castanho tem três filhos - duas mulheres (a mais velha, Daniela Castanho, é ginecologista e especialista em reprodução humana; já a caçula, a Camila, é juíza em Indaiatuba) e Sérgio, que se formou em engenharia mecânica na Unicamp e depois passou a atuar como consultor de negócio, fez MBA na França e se tornou empresário nos Estados Unidos). Também com orgulho conta que tem oito netos. Ele ressalta que o seu mais novo trabalho tem a marca profunda da cidade em que foram escritas as crônicas: Campinas, cujo teor pretende universalizar a discussão de questões históricas, filosóficas e teóricas. Espera o autor ter realizado, sob a inspiração das ninfas do rio Atibaia, este ambicioso leque de fins que cabe à crônica atingir. Bem, nada melhor que o criador para falar sobre a sua criatura...

Quando o sr. percebeu que tinha talento para a escrita?

Tirando os "ditados" na escola primária de dona Noêmia Asbahr e também as redações com o professor Ernesto Alves Filho, no curso colegial do Culto à Ciência, escrever mesmo, como criação pessoal para ser impressa e lida por outros, somente ocorreu no jornalzinho do grêmio do Colégio Culto à Ciência. Na época era dirigido pelo colega José Alexandre dos Santos Ribeiro, que mais tarde se formaria como Linguista, e tinha como redator-chefe Joaquim Cândido de Oliveira Neto, querido amigo que recentemente faleceu. Fui então convidado a escrever um artigo, em 1955. Peguei o dicionário e nele escolhi uma penca de palavras difíceis. Tratei de compor um assunto em torno delas. Não saiu uma obra-prima, é evidente, mas recebi elogios de colegas e professores. Isso foi o bastante para que nunca mais parasse de escrever.

E sua passagem pela imprensa campineira, como se deu?

Ainda na faculdade de Direito, eu e um colega, o Joaquim Cândido, começamos a escrever as "Colunas Universitárias", no saudoso Diário do Povo. Dois anos depois já estava trabalhando na redação do jornal, onde fui repórter e redator. Até cheguei a ser, temporariamente, o secretário de redação na ausência de seu titular, Santos Júnior, o "Santinho". O redator-chefe era Luso Ventura e o cronista assíduo, José Paranhos de Siqueira. Também tive a honra de trabalhar com os jornalistas Romeu Santini e Zaiman de Brito Franco. Tive passagens ainda no jornal paulistano A Nação (periódico de São Paulo, cujo dono era Mário Wallace Simonsen, megaempresário, com um império que se estendeu do café à aviação), cujo diretor de redação era Antônio Carlos Guedes Chaves, recentemente falecido. Também me recordo da passagem pelo jornal Tribuna, em 1997, um semanário campineiro, do empresário Paulo Pedroso, que tinha Zaiman como diretor. Entre 97 e 98 publiquei setenta crônicas, todas elas estão agora publicadas neste novo livro.

Mas também houve uma incursão sua pela área publicitária, conte sobre esse episódio...

Foi um fato inesperado. Ingressei por meio de concurso para ver quem conseguia confeccionar um folheto na Bosch. Fui indicado a participar e acabei chefiando a seção de redação jornalística e publicitária da multinacional alemã. Escrevia sem parar. Depois de algum tempo, já professor de Direito Constitucional e de História da Filosofia, abri a primeira agência de propaganda de Campinas: a Meta. Além de dirigi-la, era ainda redator publicitário. Durante 40 anos fui empresário de agências de propaganda, sempre atuando como redator também.

E quando começou a brindar os leitores do Correio Popular com os seus artigos?

Pois é, gostaria de ter começado bem antes a escrever a este jornal que tanto admiro e respeito. O fato é que, em 2019, meu amigo Luiz Carlos Ribeiro Borges - colega de Direito na PUC-Campinas, juiz aposentado, poeta, romancista de elite e cronista do Correio, insistiu que eu fizesse companhia a ele como cronista nesse jornal centenário. Fui, e estreando, dei sequência a uma tradição familiar, uma vez que meu tio, Aristides Lemos, advogado, professor, homem de luzes e letras, havia sido chefe de redação do jornal. Comecei e não parei. Hoje publico as minhas crônicas, atualmente, quinzenalmente. E também neste livro que estou publicando parte delas.

Alguém fez uma referência à sua atuação na esfera da política...

Tive algumas passagens sim pela esfera pública do poder. Uma experiência bem diferente e interessante. Com 15 anos já tinha interesse em política no sentido mais amplo. Não concordava com o que estava em vigor na época e nem com as propostas comunistas na época, em 1955. Pensava que deveria haver alguma forma de governo democrática, mas que conseguisse, ao mesmo tempo, colocar as coisas nos eixos. Imaginem que assim cheguei ao integralismo (conceitos teóricos e práticas políticas que exercem uma ordem social e política totalmente integrada, baseando-se na convergência de tradições políticas, culturais, religiosas e nacionais de um determinado Estado ou outra entidade política). A proposta de democracia orgânica, sem partidos, porque eles dividem, e busca da coesão. Cheguei a defender algumas ideias, mas mal sabia eu que alguns anos depois estaria em um campo diametralmente oposto. Esse foi o meu primeiro contato com programa político. A minha tese de doutorado na Unicamp, com o título "Nasce uma Nação", é um ensaio sobre a teoria da cultura de Roland Corbusier, que começou no integralismo e caiu no marxismo.

Que cargos chegou a ocupar?

Assumi os cargos de secretário municipal de Administração e fui o primeiro titular da Secretaria de Cultura (1975) de Campinas, cujo anteprojeto de criação foi elaborado por mim. E ainda, presidente da Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas). Em São Paulo, fui diretor da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e assessor jurídico de Comunicação do Gabinete do Governador de São Paulo. Mas foram experiências incríveis que ocorreram fora da curva, porque minha vocação mesmo é na escrita. Sou um escritor em essência.

Agora vamos navegar em águas mais literárias. Por que o título do livro "Crônicas do Atibaia"?

Bem, o livro reúne uma seleção de exatamente 94 crônicas que publiquei na imprensa campineira nas duas últimas décadas e elas são do "Atibaia", porque esse é o nome do rio que abastece 95% da cidade de Campinas, cidade em que nasci, cresci, estudei, formei-me, casei, onde nasceram os meu filhos. Às margens do rio Atibaia, no bairro de Três Pontes, no distrito de Sousas, tive por muito tempo uma terrinha e nela, uma casa, onde escrevi quase todas as 70 crônicas da terceira e maior parte do livro. Cheguei até a pensar em pôr o título de "Crônicas do Atibaia", em homenagem às ninfas do rio, que, em meus devaneios poéticos, inspiraram as crônicas dessa terceira parte. Afinal, Camões também disse que seu poema épico "Os Lusíadas" foi inspirado pelas Tágides, ninfas do rio Tejo, que em latim é Tagum. Mas acabei optando pelo nome de nosso Rio Atibaia para o título.

E por que a escolha literária por crônicas?

Como explico na introdução, a crônica busca referir o fato que acontece ou tenha acontecido, comentar a ideia que aflorou ou que esteja brotando; tirar consequências da teoria que o cientista ou filósofo tenha elaborado; pôr em prosa estalos que o poeta teria posto em verso... Tudo isso e mais um mundo de temas ou casos, escrito em um texto elegante e bem humorado, que dê prazer ao leitor, que o leve a refletir... No meu entender, isso é a crônica em geral. Não estou querendo dizer que as minhas crônicas preenchem todos esses quesitos, nem garantir que redigi um texto elegante, porque, como diz a voz do povo, "elogio em boca própria é vitupério" (risos). Esse material foi escrito em três períodos bem delimitados nas três divisões do livro, de 1997 a 2021. Já a organização do volume, seleção das crônicas, as notas, introdução e o convite ao Egas Francisco para a criação da capa, ocorreu no verão deste ano.

Este é o seu primeiro livro literário?

Sempre escrevi. Durante a minha trajetória de vida publiquei muito conteúdo em livros, capítulos de livros, artigos em revistas científicas especializadas, comunicações e anais de eventos. Mas tudo na modalidade de produção universitária, como o título "Teoria da História e História da Educação". No âmbito literário, esta é a minha estreia. Inclusive, acreditei que o lançamento dele seria presencial, com noite de autógrafos e um coquetel, na sede em estilo grego da Academia Campinense de Letras, em que tenho assento na cadeira 31. Porém, os resquícios da pandemia da covid-19 impediram a realização desse sonho. Por isso, o lançamento acontece em ambiente virtual, com release distribuído pela editora, e que foi acolhido muito atenciosamente pelo Correio Popular, o que desde já agradeço muitíssimo.

Temos por norma, terminar a entrevista perguntando sobre o hobby ou atividades de lazer do entrevistado. Quais as suas?

Antes da pandemia, todos os sábados costumava ir a uma sauna. Também gostava muito de correr, mas tive que parar um pouco, e adorava fazer caminhadas. Mas com a idade, o impacto é grande nos joelhos. Quero ressaltar que não me sinto nem um pouco velho. Hoje, leio demais. É o meu maior prazer. Chego a ler até seis títulos por vez ao mesmo tempo. Não consigo ler apenas um. Neste momento, estou lendo do "Manon Lescaut", de Abade Prévost, aliás, relendo. Também reli recentemente "Ulisses", de James Joyce, e "Grandes Sertões: Vereda", de Guimarães Rosa.

Escrito por:

Ana Carolina Martins/ Correio Popular