Publicado 29 de Setembro de 2021 - 9h42

Por João Lucas Dionisio/Correio Popular

Diagnosticada com câncer de mama em novembro de 2020, Eliane Degasperi, iniciou o tratamento há 7 meses já realizou 16 sessões de quimioterapia

Diogo Zacarias

Diagnosticada com câncer de mama em novembro de 2020, Eliane Degasperi, iniciou o tratamento há 7 meses já realizou 16 sessões de quimioterapia

Responsável pela produção de 85% de radiofármacos no Brasil, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) prevê retomar, na próxima sexta-feira, a fabricação de substâncias usadas em inúmeros tratamentos contra o câncer e em diagnósticos por meio de exames de imagem. Segundo o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, o valor de R$ 19 milhões, liberado ontem pelo Governo Federal, garante apenas duas semanas de trabalho, uma vez que a produção foi paralisada por dez dias, em virtude da falta de recursos para a compra de insumos importados.

Ao todo, o Ipen precisa de R$ 89,7 milhões para continuar a produção até dezembro, mas a verba extra depende da aprovação de dois projetos de lei, pelo Congresso Nacional, que viabilizam a transferência de mais recursos para a entidade.

Localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP), na capital, o Ipen é incumbido pelo fornecimento de 25 tipos de radiofármacos aos laboratórios e hospitais de todo o Brasil. Contudo, o Governo Federal reduziu a verba da entidade de R$ 165 milhões, em 2020, para R$ 91 milhões este ano. Ou seja, um corte de 46%, que pode afetar cerca de dois milhões de pessoas caso o desabastecimento aconteça de maneira generalizada, informou a Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN). No entanto, apesar da retomada, a paralisação de dez dias já afetou, aproximadamente, 700 mil pacientes, estimou Pontes.

Em uma reunião da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, realizada na última segunda-feira, o ministro mencionou que a situação ainda é crítica e pode piorar caso novos recursos não sejam liberados. "Houve a parada na produção e não foi por falta de aviso. Porém, o projeto de lei não foi votado até agora", lamentou o ministro, que culpou o Ministério da Economia e o Congresso Nacional pela falta situação.

A proposta, que tramita em Brasília (DF) desde agosto e deve ser votada na próxima semana, prevê a abertura de um crédito extra de R$ 34 milhões, suficiente apenas para a manutenção da produção dos radiofármacos por cerca de dois meses. Posteriormente, será necessária, ainda, a aprovação de um novo projeto de lei, destinando R$ 55 milhões para recompor o orçamento do Ipen até o final de 2021.

Para Pontes, que diz ser voto vencido dentro do governo em relação à previsão orçamentária inicial, é preciso atenção a partir de 2022. "Que o Ministério da Economia inclua o valor completo para a produção de radiofármacos, sem provocar restrições em outra parte do orçamento da categoria", afirmou. Por meio de nota oficial, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações recomendou que a Lei Orçamentária enviada ao Congresso seja ratificada, justamente para que a escassez de recursos não se repita. Somente no Estado de São Paulo, de acordo com dados do Governo, cerca de 14 mil exames e procedimentos mensais dependem dos materiais produzidos pelo instituto de pesquisa.

Doença traiçoeira

Diagnosticada com câncer de mama em novembro de 2020, Eliane Degasperi, de 44 anos, iniciou o tratamento há sete meses e de lá pra cá realizou 16 sessões de quimioterapia. "Entendi que, para vencer a doença ,seria necessário me submeter a um tratamento bastante severo e, para não desistir, coloquei em mente que qualquer medicação recomendada pelos médicos é visando o bem da minha saúde", destacou.

Em consequência do câncer, Eliane passou, recentemente, por duas cirurgias complexas e, segundo ela, "o tratamento com medicamentos de forma correta foi fundamental para que meu caso clínico apresentasse melhoras, além de propiciar uma recuperação melhor".

Ciente da situação, Eliane torce para que o impasse em Brasília seja resolvido o mais rápido possível, já que o tratamento, mesmo seguido à risca, é complexo e desgastante. "Quando soube da doença, a primeira imagem que tive foi da queda dos cabelos e senti o medo da morte, mas, com o apoio da família, amigos e da própria equipe médica, estou conseguindo superar os desafios", contou. A paciente faz questão de compartilhar, diariamente, o passo a passo da sua luta contra o câncer nas redes sociais. O intuito é o de alertar outras mulheres sobre a importância de realizar exames rotineiros e o autoexame, pois "a doença é silenciosa e traiçoeira".

Apesar da dor psicológica durante a queda dos cabelos, Eliane recorreu ao alicerce da fé. "Os cabelos voltam a nascer após um tempo, entretanto, sem o tratamento correto, realizado com os medicamentos adequados, a vida pode não voltar".

O diretor do Centro de Oncologia de Campinas, André Moraes, não registrou a falta dos radiofármacos, porém, segundo ele, a situação de escassez de recursos federais para a é motivo de bastante preocupação para a classe. "Imagino que essa verba, de R$ 19 milhões, liberada na última segunda-feira, pode ter evitado um desabastecimento do produto", analisou.

As substâncias, de acordo com o médico, são bastante utilizadas na avaliação, por exemplo, da tireoide, principalmente quando um câncer é detectado no local. "Os produtos preparados pelo Inpe são vitais em procedimentos, como exames de imagem, cintilografias e em alguns tratamentos oncológicos", detalhou.

Por outro lado, Moraes fez questão de tranquilizar as pessoas que necessitam de algum procedimento que use o radiofármaco. "No momento, o paciente que está passando por algum tratamento ou que necessita de um exame por imagem não está encontrando dificuldades", afirmou, mesmo se tratando de um produto complexo, em que o planejamento começa já na etapa de transporte.

Segundo o especialista, por serem radioativas, algumas substâncias devem ser usadas rapidamente, visto que seu potencial pode ser de horas apenas. "Quando encomendam uma dose específica para um doente, é feito um cálculo do tempo do trajeto até o local do tratamento. Em alguns casos, é necessário adquirir o dobro da substância, já que algumas perdem metade da eficácia em duas horas, por exemplo", explicou.

Em virtude da necessidade do radiofármaco em diversos procedimentos médicos, Moraes torce para que o desabastecimento no Brasil não se concretize e para que o instituto seja mais valorizado, principalmente pela importância que carrega no tratamento de doenças graves, como o câncer. "A utilidade das substâncias preparadas pelo Inpe é bastante ampla, tanto em uma avaliação inicial quando no mapeamento e tratamento de alguns tipos da doença. Por isso, a ausência desses produtos pode causar grandes transtornos aos pacientes e à equipe médica, além de impactar negativamente a vida das pessoas que dependem do tratamento".

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João Lucas Dionisio/Correio Popular