Publicado 26 de Setembro de 2021 - 9h52

Por Karina Fusco/ Correio Popular

Painéis fotovoltaicos instalados pelo Hospital Maternidade de Campinas: tecnologia permitirá economia de quase 11% no consumo mensal de energia elétrica

Divulgação

Painéis fotovoltaicos instalados pelo Hospital Maternidade de Campinas: tecnologia permitirá economia de quase 11% no consumo mensal de energia elétrica

Quando uma pessoa está internada em um hospital, o foco é sua recuperação. Além de médicos e enfermeiros, há dezenas de outros profissionais que atuam para que o ambiente esteja limpo, as roupas de cama e banho esterilizadas, a alimentação seja servida na temperatura adequada, o chuveiro funcione corretamente, ou seja, para que a experiência do paciente seja a melhor possível.

Para que toda essa estrutura de cuidados aconteça de forma harmônica, os hospitais geram diversos tipos de resíduos. Desde seringas, agulhas, gesso, gaze, luvas, ampolas e bisturis, até reagentes para laboratório, bolsas de sangue e substâncias para revelação de filmes de radiografias. Há ainda o lixo orgânico da cozinha, os papeis do setor administrativo e os copos descartáveis disponíveis em diversos ambientes.

Existem regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que precisam ser seguidas em relação à separação, acondicionamento e destinação dos cinco tipos de lixo hospitalar: possivelmente infectantes, químicos, rejeitos radioativos, resíduos comuns e instrumentos perfurocortantes.

Se o volume de lixo hospitalar já era significativo, a pandemia de covid-19 fez a situação se agravar. Marcelo Boeger, presidente da Sociedade Latino Americana de Hotelaria Hospitalar e consultor do setor, explica que, por determinação da Anvisa, todo o lixo gerado nas áreas destinadas aos pacientes com covid precisa ser considerado resíduo infectante, o que fez com que o volume desse tipo de lixo aumentasse significativamente.

Além disso, a pandemia fez elevar o uso de itens descartáveis, como máscaras, luvas e capas protetoras pelos profissionais e até de talheres e copos plásticos. Para piorar o cenário, houve a redução da reciclagem, pois, por um tempo, as empresas recicladoras não quiseram buscar nada dos hospitais receando que seus funcionários fossem contaminados pelo novo coronavírus. "A geração de resíduos em hospitais passou de 10 quilos/paciente/dia para 15 quilos/paciente/dia no Brasil", afirma Boeger.

O impacto da atividade hospitalar é inegavelmente alto. Estima-se que o setor de saúde seja responsável por aproximadamente 4,5% das emissões globais líquidas de gases do efeito estufa. "Só a área de resíduos responde por 4% do total das emissões desses gases, o que representa algo como 96 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO²)", revela o consultor.

Soluções diversas

A pandemia também ampliou a percepção global de emergência climática. Mesmo os hospitais que apenas cumpriam a legislação começaram a buscar mais soluções para fazer com que suas operações se tornassem mais sustentáveis. Alguns começaram a dar os primeiros passos, outros aceleraram o processo e, de forma geral, todos saem ganhando com essa movimentação.

O Hospital Maternidade de Campinas, por exemplo, está implantando uma usina solar fotovoltaica, doada pela CPFL Paulista, que garantirá a geração de 14.000 kWh por mês, levando a uma economia mensal de 10,76% no consumo de energia elétrica. São 365 placas para a captação da energia solar, que correspondem a uma potência instalada de 124,3 kWp, capaz de gerar 183 MWh/ano, o equivalente ao consumo de 77 residências. Com esse sistema de geração de energia limpa, evita-se a emissão de 11,3 toneladas de CO², o equivalente ao plantio de 68 árvores.

O médico Rogério Manuel Duarte Nogueira, primeiro vice-presidente da Maternidade e responsável pelo acompanhamento do projeto, afirma que as iniciativas não devem parar por aí. "Pretendemos ampliar essa captação de energia solar, utilizando terrenos próximos para colocar as placas, gerar energia e mandar para cá. Também estamos avaliando a questão dos resíduos", completa.

]No Hospital PUC-Campinas, uma das principais iniciativas ecológicas vem de 2009 e permite contabilizar resultados bem favoráveis. Trata-se da construção de uma estação de tratamento de efluentes químicos no próprio hospital, onde todo o resíduo gerado dos exames realizados no laboratório de análises clínicas passa pelo tratamento biológico e químico para então ser enviado para a rede de esgoto já limpo.

Segundo Cláudio Roberto Sanches, supervisor do serviço de higiene e limpeza e membro da comissão de gestão de resíduos, o procedimento é feito uma vez por semana e demora de três a quatro horas. "Tratamos cerca de mil litros por semana. Se não tivéssemos esse sistema, teríamos que contratar uma empresa para coletar e transportar esses resíduos e o custo seria de R$ 3,00 a R$ 3,50 por litro. Com a estação própria, cai para R$ 0,20 a R$ 0,30 por litro. É uma sustentabilidade financeira e ambiental", ressalta. Ele revela também que o projeto gera economia de mais de R$ 100 mil por ano.

A força da digitalização

No Hospital Vera Cruz, entre as ações sustentáveis adotadas, destaca-se a digitalização do serviço de imagem. "Hoje temos um banco de imagens digital e dependemos cada vez menos de avaliar exames em filmes radiográficos. A entrega de resultados impressos é menor e, quando necessária para cirurgias, é feita sob uma nova tecnologia sem o uso de prata, que é danosa ao meio ambiente. O material usado para imprimir é papel, facilmente reciclado, ao invés de plástico", explica Glauco Eduardo Saura, gerente médico do Vera Cruz Medicina Diagnóstica.

Dar acesso aos exames de imagens para médicos e pacientes de forma virtual traz outros impactos positivos, entre eles a economia de insumos como tinta e papel, sem contar a diminuição do uso de energia elétrica para a impressão. "Em média, há uma redução de 20% a 30% do uso de papel com a entrega digital", revela Saura. Para ele, a digitalização da medicina como um todo favorece muito a sustentabilidade e o que está por vir deve trazer mais benefícios. "Surgem como tendências o arquivamento dos exames em nuvem e o uso cada vez menor de contraste, já que a tomografia de dupla energia consegue separar bem os tecidos sem uso da substância que se torna um resíduo químico", afirma.

Novas soluções chegam ao mercado, como o equipamento que transforma lixo orgânico em água. "Por meio de um processo de digestão aeróbica, o resíduo orgânico é 100% transformado em águas residuais, que fluem diretamente para o sistema de encanamento de esgoto, não restando nenhum resíduo sólido para ser descartado em aterro sanitário", explica Alfeu Cabral, consultor especialista em soluções sustentáveis. Segundo ele, as vantagens de se apostar nessa tecnologia vão desde a eliminação de odores, de estocagem de resíduos em câmaras frias e de usos de sacos de lixo preto, até a eliminação de emissão de CO².

Marcelo Boeger ressalta a força de algumas iniciativas internacionais como a emenda de Kigali, uma aliança que define um cronograma de redução da produção e consumo de hidrofluorcarbonos (HFCs), usados em equipamentos de refrigeração e ar-condicionado, e a campanha Race to Zero, que tem o objetivo de zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050. "No passado, ações como essas resultaram na retirada do mercúrio que se tinha em equipamentos, termômetros e até em lâmpadas usadas nos hospitais", diz. Agora, cada vez mais, os hospitais caminham para uma economia de baixo carbono.

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Karina Fusco/ Correio Popular