Publicado 19 de Setembro de 2021 - 9h23

Por Ana Carolina Martins/Correio Popular

O maestro Victor Hugo Toro rege a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, em apresentação no Teatro Municipal Castro Mendes: regente anunciou que deixará o cargo em dezembro

Ricardo Lima

O maestro Victor Hugo Toro rege a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, em apresentação no Teatro Municipal Castro Mendes: regente anunciou que deixará o cargo em dezembro

Nascido em Santiago, capital e maior cidade do Chile, o maestro Victor Hugo Toro, regente da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC), é o nosso entrevistado da semana e esteve na redação do Correio Popular, na última terça-feira, 14, em visita ao presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni. Bem humorado e sorridente, o regente, que apresenta ainda um forte sotaque espanhol, foi enfático em sua demonstração de amor pela profissão que escolheu, assim como pela "adoção" da orquestra sinfônica local, à qual se referiu em termos paternais.

Surpreendentemente, no início de fevereiro deste ano o maestro anunciou que deixaria a regência da orquestra no final de dezembro. Toro esteve à frente da sinfônica campineira por uma década. A escolha do novo maestro ainda não foi definida e a decisão é política, cabendo ao prefeito Dário Saadi (Republicanos). Ao comentar a saída, Toro deixou clara a sua paixão pelo ofício e pelo trabalho que desenvolveu em Campinas, mas também sinalizou um anseio por um tempo sabático, em que possa se rever e decidir novos rumos.

Para o maestro, a existência de uma sinfônica existe exclusivamente pela vontade da população a quem serve. Acompanhe a entrevista e conheça um pouco mais desse artista musical que conduz um grupo virtuoso durante um concerto.

Como alguém se torna maestro? Que habilidades são necessárias para se ocupar essa função com sucesso?

O maestro é um líder, basicamente, assim como um diretor de uma empresa, um editor-chefe de um jornal... Então, ele precisa ter as competências e habilidades à liderança e essas não costumam ser ensinadas na formação das pessoas, embora elas sejam imprescindíveis àqueles que desejam estar à frente de um grupo e liderá-lo. Pensando bem, na verdade, depois de 20 anos como maestro, ainda não consigo exatamente explicar como isso se dá. Acho que a receita de liderança é um mistério, algo intrínseco ao líder: uma presença, um carisma, um poder - ou tudo isso junto. Às vezes, você sente quando uma pessoa entra em um ambiente e, repentinamente, atrai os olhares e interesses. Essa liderança existe quando há respeito e a reverência à sua maneira de contribuir com o todo.

Qual a sua formação acadêmica?

Antes de tudo, sou músico. Estudei piano e fiz a formação acadêmica em música. Contudo, há instrumentistas que conseguem se expressar através de um instrumento, como violino ou canto. Um maestro consegue se expressar comandando uma orquestra. No entanto, é preciso dizer que, a figura icônica do homem segurando uma batuta em frente aos músicos, é a menor parte do universo dessa profissão. Uma orquestra sinfônica é uma referência na sociedade. Assim, o maestro também precisa atuar como um gestor, visando buscar patrocínios e apoios, participar de atividades com cunho político... Porque fazer arte é uma questão política. Manter um coro, teatro, orquestra é, antes de ser uma atividade cultural, uma decisão política. Quando vi uma apresentação de um maestro frente a uma sinfônica, fiquei fascinado. Toda aquela energia, emoção, movimento - profundamente humano e visceral.

Como é ser maestro?

Quando comecei a minha carreira, já trabalhava com músicos que tinham o dobro da minha idade, o que não é uma situação das mais confortáveis, vamos dizer. Entretanto, o maestro tem um peso representativo na comunidade a que serve. Então, primeiro, você tem que ser músico com formação acadêmica. Depois, fazer uma formação especializada em regência. Porém, para além da técnica, existe algo que não pode ser ensinado, que vem apenas com a experiência. É por isso que, habitualmente, o maestro é alguém com cabelos grisalhos ou brancos, geralmente na meia idade. É uma profissão que exige ofício, labuta, vivência, visto que o maestro lida com seres humanos, músicos, que, naquele dia, talvez não tenham acordado bem, preocupados com situações envolvendo a família, questões financeiras ou, quem sabe, apenas não gostem do maestro que os regem... Música é uma expressão humana, que exige essa capacidade de equilíbrio para que a magia aconteça em um contexto como o de uma orquestra. O maestro precisa ser esse ponto de convergência, de superação de todo o resto, de forma que a única coisa que importe naquele instante seja a música.

E porque o sr. anunciou a sua saída do cargo de maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas no final deste ano?

Primeiro, porque é uma situação histórica a saída de maestros, ao longo dos mais de 90 anos de existência da orquestra de Campinas, "chutando o balde", brigados, de maneira um tanto negativa, sem transição, como aconteceu com o maestro Benito Juarez, após sua saída intempestiva. Quero fazer diferente. Sair enquanto ainda está tudo em paz. A orquestra sinfônica é um instrumento cultural muito importante para uma sociedade e não é bom para ela que as coisas terminem de forma negativa. É preciso protegê-la e também ao vínculo estabelecido entre ela e a comunidade. Estou há uma década no cargo e prefiro sair enquanto as pessoas ainda podem lamentar essa saída (risos). No entanto, quero afirmar, claramente, que fiz tudo o que pude e da melhor maneira possível, com o que me foi disponibilizado.

E quais são os planos? Vai para outro país, outra orquestra?

Preciso seguir o meu caminho. Quero, nesse momento, ter um tempo só para mim, um tempo sabático. Vou ficar ainda no Brasil, até porque tenho alguns compromissos ainda para cumprir, mas vou me dar um ano depois desses 10 anos como titular de uma orquestra. Preciso, porque a gente se entrega muito a esse trabalho. Há uma década vivo em função da orquestra. Ela foi a minha mulher, meu filho, minha família... Entreguei-me totalmente. Penso que necessito agora de um pouco de "oxigênio", fazer outros projetos, outras coisas...

A minha impressão é a de que existe uma relação de muito afeto entre os campineiros e orquestra sinfônica.

O brasileiro gosta ou não de música clássica?

Os campineiros têm com a sinfônica local um forte relacionamento emocional. Eles a chamam de "nossa orquestra". Há um vínculo real com ela. O maestro é o "nosso maestro". A música clássica é um tipo de música que apela à emoção, mas também à intelectualidade. Isso não acontece com a música popular, que basicamente, apela apenas ao emocional. Vou fazer uma comparação esdrúxula: a música popular é como hambúrguer com batata frita - todo mundo gosta. Contudo, é importante também oferecer uma comida diferente, mais requintada, uma culinária de outra nação, por exemplo. Essa é a questão: abrir espaço para que se possa apreciar muitas coisas diferentes e que ampliam nosso repertório, permitindo experimentar várias emoções e tons.

A população tinha um forte vínculo emocional com o maestro Benito Juarez...

Sem dúvida. Esse vínculo ficou bastante abalado com a saída dele de forma intempestiva em 2001. Acredito que, com o tempo, conseguimos restabelecer esse vínculo afetivo, essa ligação. É ele que garante a "vida" da orquestra, porque ela deve se perguntar corajosamente: "Se anunciarmos amanhã o fim da orquestra, a população a cidade vai se importar? Vai ficar triste? Vai se manifestar a favor de sua manutenção?" Esse relacionamento é vivo! A orquestra somente existe porque os campineiros querem! E ela somente vai continuar a existir enquanto a população campineira assim o desejar. É essencial investir nesse vínculo afetivo. A orquestra sinfônica é um orgulho não apenas para Campinas, mas também para toda a região de metropolitana.

Agora um assunto que não fica de fora em lugar nenhum: que lições a pandemia trouxe ao sr.?

A absoluta fragilidade das coisas, assim como a das orquestras musicais, da música e arte em geral, mas, principalmente, da música, que foi o segmento mais afetado e, creio, será o último a se recuperar após a pandemia. Saberemos que a pandemia de fato terminou quando tiver uma apresentação da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas em um local público. Só assim poderemos dizer que realmente acabou.

E como está a sinfônica com o impacto da pandemia?

A Prefeitura vem mantendo os pagamentos dos músicos em dia, uma vez que eles são funcionários públicos concursados. Entretanto, 50 vagas estão em aberto, e isso é bastante. Um desafio e tanto para um futuro próximo, visto que é preciso processos de concurso público para preencher essas vagas. O interessante é que, se hoje o quadro de músicos estivesse completo, o custo mensal da sinfônica seria de cerca de R$ 1,2 milhão. O município de Campinas tem um orçamento de R$ 6,4 bilhões por ano. Isso significa que, o custo da orquestra, dividido pela população da cidade, representaria menos de R$ 1,00 por campineiro. Ou seja, por centavos de real, há 10 anos a orquestra tem sido a principal estrutura de cultura musical de Campinas e da região, uma das principais sinfônicas do país.

Muito pouco para tanto ganho em educação, cultura e cidadania...

Sim. Esse valor deve ser entendido como investimento e não gasto. Quando as pessoas falam da Grande Campinas, elas enxergam a orquestra nessa imagem. É uma referência consolidada da cidade. Aqui existem três torcidas: Ponte Preta, Guarani e a orquestra sinfônica. Defendo que não se trata de dar mais importância a ela do que a outras questões, mas de reconhecer o seu legítimo lugar e importância dentro da sociedade. Claro que, como maestro, sempre pedirei mais recursos em nome da orquestra, mas o problema aqui não é o poder público, é a falta de investimentos da iniciativa privada. Nós já temos dois de um tripé imprescindível: qualidade musical e o apoio do poder público. O terceiro do tripé é a iniciativa privada, que brilha pela sua ausência.

Que projeto o sr. gostaria de ter feito e não conseguiu?

Um festival de ópera com a obra de Carlos Gomes. Vejo muita conversa sobre como existe o desejo do campineiro de transformar o município em um grande polo tecnológico. Todavia, infelizmente, não vejo esse mesmo entusiasmo quando o assunto é uma projeção cultural, sendo que Campinas reúne todas as condições para isso. Atualmente, só existem dois festivais de ópera no país, em Manaus e Belém. Quer dizer, um festival de ópera em Campinas, com certeza, atrairia um público interessante. Em Verona, há um festival desses, que leva milhares de pessoas para lá durante o verão europeu. São mais de 50 noites de ópera, 25 mil pessoas por noite, e as entradas se esgotam rapidamente. Não imagino um jogo de futebol que consiga trazer uma multidão dessas por 50 dias seguidos. Agora, se tivéssemos um evento como esse aqui, imagine o impacto não teria na economia... Realmente, aqui é possível fazer tudo, literalmente tudo, porque há recursos, estrutura, vontade, vínculo, capacidade e qualificação.

Que legado o maestro Victor Hugo Toro deixa a Campinas?

Quero pensar que reconstruímos o vínculo perdido com o campineiro após a saída do maestro Juarez. Tocamos muitos repertórios que jamais haviam sido apresentados, a recuperamos a tradição de fazer concertos para datas importantes, como o para o mês da Consciência Negra, Natal, de fechamento de temporada... Sei que há quem defenda que é uma bobagem investir em uma sinfônica, mas penso que trabalhamos bem nos últimos anos para reduzir esse contingente. Uma apresentação da sinfônica toca as pessoas, aflorando emoções, recordações. Elas riem, choram, envolvem-se com a família, criam lembranças... As pessoas sorriem quando se recordam de algum evento, alguma apresentação que assistiram da sinfônica. Então, meu maior legado, talvez, tenha sido fazer o campineiro feliz.

Conte um momento que tenha sido especial para o sr. nessa trajetória?

Nunca me esqueci de uma apresentação que fizemos no Parque Dom Bosco, recém-inaugurado no bairro Vida Nova em setembro de 2015. Levamos um tenor para cantar. Terminado o concerto, uma senhora aproximou-se, agradeceu-me pela música e explicou que não podia ir ver esse tipo de apresentação porque nem sempre tinha o dinheiro para o transporte e nem com quem deixar os filhos. Agradeci e ela arrematou: "Que bom escutar alguma coisa diferente de tiros". Isso me marcou profundamente. Música é saúde, física, mental e emocional. Estudos e experiências apontam que onde entra programas envolvendo música, os indicadores, sejam eles quais forem, sobem, melhoram.

De um a dez, que nota o sr. dá à nossa orquestra?

É uma saia justa, mas vamos lá. Para os músicos que integram a sinfônica, no quesito qualidade musical e artística, de 8 a 9. O dez não daria para nenhum item, porque isso significaria que chegamos a um limite e acho que, continuamente, temos que sempre buscar ir além. Agora, se perguntar qual a sinfônica que mais gosto e ouvir, a resposta é: a de Campinas. Ela é a que me dá mais prazer quando está no seu máximo. São meus filhos... Então, não tem como, né? Até nos seus erros...

O que o sr. gosta de fazer em suas horas livres? Algum hobby?

Adoro ler e o faço muito. Principalmente literatura latino-americana. Obviamente também escuto muita música clássica, mas também aprecio todo tipo de música, jazz, música popular brasileira. Ah! Isso é interessante. Na pandemia desenvolvi um hobby novo: produzir licores. Essa é uma habilidade que aprendi com meu pai no Chile, que também fazia a bebida artesanalmente. Modestamente, sou muito bom nisso... Sou maravilhoso! (risos) Mas deixa isso para lá. Também gosto muito de andar de bicicleta, mas não é uma atividade muito fácil de se praticar por aqui. De forma geral, cinema, arte, tudo o que se relaciona com cultura me atrai e interessa.

Escrito por:

Ana Carolina Martins/Correio Popular