Publicado 14 de Setembro de 2021 - 9h23

Por Da Redação do Correio Popular

Consumidora observa produtos em supermercado de Campinas: atenção à proporção entre preço e volume é fundamental para economizar dinheiro

Ricardo Lima

Consumidora observa produtos em supermercado de Campinas: atenção à proporção entre preço e volume é fundamental para economizar dinheiro

O aumento dos preços de muitos produtos tem sido observado pelo consumidor com mais intensidade desde o início da pandemia. A prática tem influenciado na elevação do índice de inflação, que é perceptível em diversas situações, mas não em todas. É o que ocorre com a chamada "inflação disfarçada", que pode ser explicada pela manutenção do preço de determinada mercadoria, que sofre, porém, uma significativa redução do seu volume ou peso. Em outras palavras, o consumidor fica com a falsa sensação de que o item não teve reajuste de preço, o que não corresponde à realidade, visto que ele está pagando o mesmo para levar menos.

A gerente de hotel Adriana Gonçalves tem observado a diminuição do volume dos produtos no supermercado, sem a alteração dos preços. Segundo ela, o peso do chocolate em barra caiu de 240 gramas para 180 gramas, enquanto o valor desembolsado pelo produto se manteve. "Quando uso o produto para fazer a calda do bolo, percebo que ele rende menos", afirmou. Para a gerente, a prática mascara a realidade. "Na embalagem do absorvente íntimo vem quatro unidades a menos agora. Por isso eu preciso comprar um pacote a mais, se não falta no final do mês", queixou-se. Para ela, a sensação é de que está sendo iludida e enganada.

A dona de casa Regina Aparecida de Lima também disse perceber a redução da quantidade dos produtos durante as compras, mesmo gastando o mesmo valor. O peso da bolacha recheada disponível em um pacote, afirmou, diminuiu pela metade, enquanto o preço aumentou. "Percebo que a indústria tenta enganar o cliente, porque nem todo mundo percebe tais mudanças. As pessoas se atentam apenas ao preço e não veem que estão pagando mais caro", declarou. Para ela, diante da inflação e da diminuição do salário, o poder de compra caiu consideravelmente. "Um filé de frango que antes eu comprava por R$ 11 o quilo, hoje pago mais de R$ 20. Daqui alguns dias, terei que me limitar a comer verdura e legume", reclamou.

De acordo com o professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, Roberto Brito de Carvalho, a diminuição do peso ou quantidade dos produtos sem alterar o preço não é uma prática nova. Segundo ele, isso começou a ocorrer por causa da mudança de hábito da população, que passou a viver em uma dinâmica social diferente, com menos pessoas morando na mesma casa.

Assim, a embalagem que continha alimento para uma família convencional, formada por dois adultos e duas crianças, foi reformulada para atender às necessidades de casais sem filhos e de pessoas que vivem sozinhas. "Mas, com certeza, a prática foi intensificada nesse momento. A ação é uma alternativa da indústria neste período de crise econômica para aumentar o preço, de maneira que a medida não seja refletida no custo final pago pelo cliente", explicou.

Segundo o economista, a alternativa possibilita fazer uma alteração de preço sem trazer um impacto óbvio para o cliente final, que está tendo de lidar com a escalada da inflação e com as reduções orçamentárias geradas por causa da pandemia. O descontrole da inflação, lembrou o economista, teve início no segundo semestre de 2020. Segundo Carvalho, múltiplos fatores provocaram o crescimento inflacionário exagerado, como a variação cambial que implicou na desvalorização da moeda, e a ausência de comando e clareza das políticas econômicas do governo federal. "Esse cenário, aliado aos grandes conflitos institucionais, gerou muita incerteza e dificuldade de planejamento. Isso impactou em todo o complexo industrial e em suas cadeias produtivas", analisou.

Desde julho do ano passado, tem sido possível observar o aumento constante e persistente dos preços, pontuou o docente. De acordo com ele, o planejamento do governo federal para 2021 previa uma inflação de 3,5%. Atualmente, ela subiu para quase 10%. "Índice muito além do estimado mesmo no pior cenário possível, que previa uma inflação de até 5,5% para o ano", ressaltou. Para ele, o quadro demonstra o descontrole e incapacidade do governo federal em manter uma boa gestão monetária.

Esse patamar de índice inflacionário é extremamente preocupante, acrescentou, pois quem sofre são as famílias mais pobres. Afinal, o aumento dos preços tem ocorrido em um cenário que já registra uma queda acentuada na renda dos trabalhadores, fruto da elevação do desemprego e da subutilização do trabalho durante a pandemia. "Os produtos mais caros contribuem para a piora da pobreza", reiterou Carvalho.

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos 12 meses o arroz registrou um aumento no preço de 32,15% em todo o país. No Estado, a alta chega a 37,83%. O aumento do preço do açúcar refinado em São Paulo, no mesmo período, chegou a 41,73%. Em nível Brasil, bateu em 36,78%. O preço das carnes sofreu alta de 33,56% entre agosto de 2020 e agosto de 2021 no Estado e de 30,05% no país. De acordo com o economista, diante dos aumentos dos custos dos insumos e como alternativa para manter os negócios no azul, as empresas precisaram rever os seus produtos e criar saídas. Reduzir o peso da mercadoria e manter o preço foi uma das alternativas encontradas para manter resultados positivos, reforçou Carvalho.

"A alteração do peso muitas vezes não é percebida pela população. Afinal, a pessoa não faz essa relação direta em seu orçamento. Assim, a conta final vai continuar fechando, sem grandes alterações", explicou. Para a empresa, informou, a alteração é registrada como diversidade no portfólio de produtos. O consumidor, acrescentou, está por sua conta e risco, pois essa é uma prática legal, desde que seja divulgada claramente no ato da compra.

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