Publicado 14 de Setembro de 2021 - 9h19

Por Mariana Camba/ Correio Popular

Moradora da periferia de Campinas, Fabíola de Oliveira reúne a família diante de muitas panelas vazias:

Ricardo Lima

Moradora da periferia de Campinas, Fabíola de Oliveira reúne a família diante de muitas panelas vazias: "Ter que lidar com a falta de fralda, leite e comida é horrível"

A pandemia intensificou e evidenciou os problemas sociais, como a falta de estrutura básica com que muitas famílias precisam conviver. A luta para encontrar meios de sobrevivência diante da falta de trabalho e da extrema pobreza, mesmo com o início de retomada da maioria das atividades econômicas, segue representando um desafio para um número significativo da população. Nesse contexto, os serviços de assistência social ganharam protagonismo devido ao auxílio prestado às pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. É o caso de Fabíola Martins Lopes de Oliveira, de 27 anos, que é mãe de seis crianças, a mais velha com 11 anos e a mais nova, com um. Atualmente, sua família depende de programas governamentais e da solidariedade de desconhecidos para ter o que comer.

O marido dela, Edison dos Santos, 53 anos, era quem provia o sustento da casa por meio do seu trabalho como mecânico. Mas desde a chegada do novo coronavírus ele perdeu o emprego e atualmente depende de trabalhos informais, que se tornaram raros. A família vive com a renda de R$ 700 por mês. Metade do dinheiro vem do programa Bolsa Família. "Todos os dias são difíceis. Tem momentos que infelizmente não dá mais vontade de viver. Ter que lidar com a falta de fralda, leite e comida é horrível", afirmou. Enquanto Santos procura por trabalho, Fabíola cuida dos filhos.

Segundo ela, a ajuda das Organizações não Governamentais (Ongs) e de desconhecidos que se unem com o propósito de amparar aos que precisam é o que tem garantido o prato de comida na mesa. "São pessoas que não conhecem a minha realidade e nem a dos meus filhos, e mesmo assim me dão o que comer. Poder ganhar um pacote de bolacha e satisfazer a vontade das crianças é incrível. Não tem dinheiro que pague", garantiu.

Fabíola contou que antes do novo coronavírus a situação da família já era difícil, mas piorou após o advento da pandemia. "Eu não tive como pagar as contas de água e luz em determinado momento. Como se vive assim?", questionou. De acordo com o superintendente socioeducativo da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac), Jair Resende, situações críticas como a enfrentada por Fabíola têm sido comuns. O número de famílias em vulnerabilidade social aumentou desde o ano passado, segundo ele.

Como consequência dos impactos econômicos gerados pela pandemia houve a diminuição dos salários de milhares de pessoas e até mesmo a falta de renda. Segundo Resende, a Feac é parceira de 100 organizações da sociedade civil. Mais de 60% delas atuam por meio da assistência social. "Destas, todas sentiram um aumento, desde 2020, no número de famílias que passaram a contar com a ajuda desses serviços, principalmente para ter o que comer", ressaltou.

Por isso, observou o dirigente da Feac, toda doação é válida, desde alimentos até peças de roupa. Resende ponderou que, mesmo com o número de casos da covid-19 diminuindo e aumentando a porcentagem da população vacinada, o efeito social gerado pela pandemia não será recuperado tão facilmente. "Os problemas sociais tendem a perdurar por mais tempo", previu. De acordo com ele, a maioria das famílias em vulnerabilidade social recebe apoio de mais de uma organização social, o que tem tornado as ajudas complementares.

Como consequência dessa gigantesca pressão social, relatou Resende, as organizações ficaram saturadas, sem ter como expandir o atendimento. Por isso, a tendência é que, com o passar do tempo, a disponibilidade de atendimento diminua. De acordo com o diretor da Feac, nas periferias de Campinas a maioria das famílias que enfrentam a pobreza é monoparental, tendo as mulheres à frente. Segundo ele, as pessoas que antes tinham uma condição econômica melhor, que integravam a classe C, perderam a renda e caíram para a classe D, o que aumentou o contingente de vulneráveis.

Progen

O Projeto Gente Nova (Progen), um dos parceiros da Feac, trabalha com atividades socioeducativas no combate às violações de direitos de crianças e adolescentes há 37 anos. Antes da pandemia, o Progen atendia 2.460 pessoas por mês, nas suas quatro unidades. Em julho, esse número subiu para 18 mil. O crescimento na demanda foi de 632%. De acordo com a coordenadora técnica do projeto da unidade Vila Bela, Marcela Egídio de Souza Ferreira, a pandemia trouxe uma situação de calamidade pública para os que já enfrentavam a pobreza.

"A equipe permaneceu prestando os atendimentos emergenciais, mas agora atendendo não apenas um membro da família e sim vários", explicou. A maioria dessas famílias é extensa, acrescentou Marcela, com até dez pessoas morando na mesma casa. A Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos de Campinas registrou entre 2020 e 2021 a entrada de cinco mil novas famílias no cadastro municipal de vulnerabilidade, totalizando 90 mil.

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Mariana Camba/ Correio Popular