Publicado 12 de Setembro de 2021 - 11h01

Por Ana Carolina Martins

O monsenhor Fernando de Godoy Moreira, que durante 21 anos esteve à frente da Paróquia Santa Rita de Cássia, no bairro Nova Campinas

Kamá Ribeiro

O monsenhor Fernando de Godoy Moreira, que durante 21 anos esteve à frente da Paróquia Santa Rita de Cássia, no bairro Nova Campinas

Ele já tem 88 anos, mas com forte vocação religiosa, ainda realiza todos os domingos missa às 10h30 no Cemitério Parque Alameda dos Flamboyant, no Bairro das Palmeiras, em Campinas. Muito querido pelos católicos, monsenhor Fernando de Godoy Moreira esteve à frente da Paróquia Santa Rita de Cássia, no bairro Nova Campinas, por 21 anos. Antes disso, auxiliou a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja Santa Catarina, a Catedral Metropolitana, a Igreja de Sant'Ana (no distrito de Sousas) e o Santuário Menino Jesus de Praga, no Cambuí, onde foi reitor do Santuário por 22 anos. Cheio de histórias para contar, o monsenhor surpreendeu ao revelar que a Igreja de Santa Rita, erguida pelo já falecido padre Chiquinho, teve como recurso o "dinheiro do diabo". Mas os detalhes precisam ser conhecidos pelas palavras do clérigo, ao longo desta entrevista.

Durante sua gestão como religioso, construiu duas creches, administradas pela paróquia, como também a casa paroquial, a biblioteca e o centro para formação de catequese. Outra obra de destaque do monsenhor Fernando foi a criação e implantação da casa do Padre Aposentado, que acolhe sacerdotes sem condições de permanecer nas atividades eclesiásticas.

Eclesiastes, terceiro livro, da terceira seção da Bíblia hebraica e um dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento da Bíblia cristã ensina a importância de discernir as etapas da vida: "Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento, debaixo dos céus" (3,1). Cumprindo mais uma etapa, o querido pároco da Igreja Santa Rita de Cássia, por questões de saúde, preferiu restringir as suas atividades junto ao seu amado rebanho e requereu a renúncia do ofício em 2015, sendo substituído pelo padre Carlos Donizeti da Silva. O arcebispo metropolitano, D. Airton José dos Santos, aceitou a renúncia e ainda concedeu-lhe o título de pároco emérito, de forma que ele continuasse com algumas atividades paroquiais.

Com cabelos brancos e uma voz serena e pausada, esse padre católico, com título eclesiástico de honra conferido pelo papa a sacerdotes da Igreja Católica por serviços prestados à Igreja, esteve na redação do Correio Popular, no último dia 25, em visita ao presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni, contando sobre a sua trajetória à frente de uma das paróquias mais queridas em Campinas, cuja festa anual reunia um enorme contingente de fiéis que, após assistirem à missa, recebiam rosas vermelhas consagradas.

Monsenhor, é um prazer tê-lo aqui conosco. Conte um pouco sobre a sua história e descoberta vocacional para o sacerdócio?

Bem, sou filho de Sebastião Godoy Moreira, campineiro - meus avós moravam ali na Rua Barão de Jaguara. Durante a febre amarela que assolou a cidade, meus avós resolveram se mudar para Ribeirão Bonito (SP) e compraram uma chacrinha, um sitiozinho. Ali ficaram. Ele constituiu família, casando com a minha mãe, Vitória, filha de italianos, que nasceu 15 dias depois de sua família chegar da Itália. Estudei no grupo escolar de Ribeirão Bonito, uma cidade pequena, mas muito agradável. Vivíamos bem. Entretanto, veio a Segunda Guerra Mundial. Lembro-me que o meu pai colocava um filho em cada lugar da fila para pegar o pão. Éramos seis, com a empregada que trabalhava na casa, sete. Assim, juntávamos pão suficiente para nos alimentar. Essa era a sabedoria do 'velho'. Meu pai foi oficial de justiça durante muitos anos. Depois, meu irmão também atuou nessa função por muitos anos. Recentemente, ele faleceu. Como não havia muita atividade para um oficial de justiça naquela cidade pequena, meu pai trabalhava ainda como alfaiate. Lembro-me que existiam cerca de sete alfaiates naquela cidadezinha, um caprichava mais do que o outro. Isso porque quem precisava de roupa tinha que recorrer a um alfaiate, não é como hoje. Ao terminar o grupo escolar, já estava bem envolvido com a igreja. Afinal, minha família toda era católica e a vocação para o sacerdócio já vinha de três gerações. A minha vocação vem de uma transmissão de fé familiar.

E como surgiu a vontade de ser padre?

Desde criança já alimentava essa vontade de ser padre. Mas não posso dizer o porquê ou de onde vinha essa vontade. Ajudava na missa e achava tudo aquilo muito bonito. Algum tempo depois, fui para São Carlos, que, naquela época, tinha um seminário menor e ficava a cerca de 40 quilômetros de Ribeirão Bonito. Cursei tudo lá. No ensino médio, então, os seminaristas estudavam junto aos outros alunos. Depois disso, fui fazer Filosofia e Teologia em um seminário maior, em Diamantina (MG), no tempo que o Juscelino Kubitschek era o presidente. De vez em quando, ele vinha visitar a gente, a cidade, e era uma alegria. Acabei ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1959, por Dom Ruy Serra, bispo de São Carlo, Ribeirão Bonito mesmo. Depois de uns 10 anos trabalhando em São Carlos, no seminário, como professor e ecônomo, fui estudar direito na PUC-Campinas, onde me formei em 1974, ano do bicentenário da cidade. Trabalhei como professor da universidade, capelão e vice-diretor do curso de Filosofia. Enfim, a minha vida se concentrou aqui.

E o que o motivou a permanecer em Campinas?

Terminado o curso de Direito, eu teria de voltar para São Carlos, pois o bispo de lá me queria de volta. Só que o monsenhor Luiz Fernando de Abreu, muito conhecido aqui em Campinas, foi comigo a São Carlos e explicou ao bispo que eu já estava muito entranhado em Campinas - na faculdade e na igreja - e que voltar seria uma mudança muito grande. O bispo de São Carlos estava com um padre de Campinas, chamado Hilário, que estava como professor da área de Filosofia. O monsenhor fez uma troca: o bispo ficaria com o padre Hilário e eu voltaria a Campinas. E eu fiquei. Resumindo: vim para Campinas em 1969, entrei na faculdade em 1970 e em 1974 me formei - em 19 de dezembro, quando fui escolhido para ser o orador da turma.

Como foi o seu caminho até chegar na paróquia de Santa Rita de Cássia?

Fiquei no Santuário do Menino Jesus de Praga durante 22 anos, antes da Santa Rita. O Santuário só tinha uma missa de domingo. Na época, ainda não era santuário, era igreja, mas todo mundo se referia a ela como santuário. Então, conversei com o bispo e sugeri que fizesse a canonização do local, porque os fiéis já chamavam a igreja de santuário. E ele aceitou. Fizemos uma cerimônia de duas horas, muito bonita lá. Esse santuário era um apêndice. Tudo o que eu queria fazer tinha que pedir à Paróquia de Nossa Senhora das Dores. Não podia fazer celebração de casamento, de batizado, somente era realizada uma missa. Só que aquilo foi crescendo e, quando decido me dedicar a algo, entrego-me totalmente. Eu visto a camisa. Acabei introduzindo uma missa às quintas-feiras às 15h. Que se tornou a mais frequentada. Vinha gente de toda a região. Depois dessa missa, tinha uma quermesse, um café ou encontros, coisas que o povo gosta. Durante muitos anos foi assim. Depois passamos a ter missa às 8h30, outra às 10h e mais uma às 18h30. A celebração da manhã passou a ser irradiada (transmitida por rádio). Tudo isso resultou em muito crescimento para o Santuário. Não havia problema de dinheiro naquela paróquia. Se eu queria fazer, fazia. E até hoje é assim.

Foi assim em relação à construção da casa paroquial?

Sim. A partir do momento que decidimos fazer a casa paroquial, em menos de um ano ela estava pronta. No dia em que anunciei que queria levantar essa construção, tinha um turco, de Arcadas (cidade próxima a Amparo), que depois da missa veio falar comigo. Ele garantiu todo o tijolo necessário para a obra. Depois fizemos o salão paroquial, uma secretaria grande, creche, adquirimos mais um terreno para uma obra social, compramos uma outra casa ao lado da igreja e construímos a casa paroquial. Mais tarde, naquela época, o presidente da Sanasa na época, havia prometido um terreno grande ali na Sanasa para a igreja. Mas ele saiu e acabou não assinando a escritura. Aí veio aquele que tentou ser prefeito, o Vanderlei Simionato, e ele também não assinou. Finalmente, quando o engenheiro Peter Walker, em 1993, entrou na vida pública tornando-se presidente da empresa de saneamento: ele assinou a escritura. E ali foi erguida, naquele terreno, foi erguida uma segunda creche. Esse foi o meu trabalho material, impulsionado pelo trabalho espiritual. Eu passava as tardes atendendo às pessoas.

Essas mudanças aumentaram o público de fiéis?

Acabou ajudando. No boca a boca, todo mundo sabia que nós estávamos disponíveis para acolher as pessoas. Eu tinha por princípio jamais falar não a quem quer que buscasse ajuda. Depois, o padre Chiquinho (monsenhor Francisco Assis Marques de Almeida, que morreu aos 72 anos, em março de 2000) sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e o bispo me enviou para assumir as missas da Igreja Santa Rita de Cássia. E fiquei nos dois lugares: na Santa Rita e no Santuário do Menino Jesus de Praga. Foi uma correria para dar conta de tudo. Quando o padre Chiquinho morreu, o bispo resolveu me nomear pároco da Santa Rita uma semana depois do enterro dele.

 

Qual a sua avaliação desse período de 21 anos à frente da Santa Rita?

Os fiéis da Igreja de Santa Rita sempre foram de um nível economicamente privilegiado. Contudo, lembro-me que, quando cheguei lá, tinha aquele telhado de zinco que fazia um barulho tremendo durante as missas, casamentos, batizados... Pensei: preciso reformar. Era uma obra grande. Contei primeiramente com o apoio do Gilberto Paschoal, que ficou como presidente da reforma. Fomos até a Prefeitura pegar as plantas da igreja. Não achamos nada lá. O Gilberto, então, pesquisou sobre o assunto e descobriu que havia um japonês, em São Paulo, que tinha feito todos os cálculos da planta. Ele achou o homem, que disse ter sido ele o autor dos cálculos, mas que quem estava à frente das obras era uma empresa belga, que não existia mais, mas mantinha escritório na capital. Gilberto foi até lá e pegou tudo: cálculos, plantas, toda a documentação.

Quanto ficou essa obra e como conseguiu angariar os recursos para reformar o telhado?

Falei com o sêo Armindo (Armindo Dias, empresário português, com vários empreendimentos, entre os quais o Royal Palm Plaza Resort Campinas) e expliquei que precisávamos fazer a reforma. Ele concordou. Fui, então, anunciar para os fiéis da igreja. No começo, a reação não foi boa, porque o país estava com dificuldades econômicas. Tanta miséria... achavam um despropósito fazer a reforma. Mas insisti, falei com o Quércia (Orestes Quércia, político, foi prefeito de Campinas de 1969 a 1973). Ele disse que assinava o livro, o português também. Então tivemos algumas pessoas que assinaram o livro, com uma colaboração de R$ 200 mil e uns 10, 12, com R$ 100 mil. Arrecadamos assim R$ 2 milhões sem muito sacrifício. O Gilberto (Miguel Gilberto Paschoal, arquiteto e empresário) ficou presidente da obra e não cobrou um tostão. Depois fizemos a comissão liderada pelo Armindo, o João Faria (cafeicultor e empresário), o tesoureiro. Cada um ficou com uma função. Toda a contabilidade era feita no escritório do sêo Armindo, tudo com nota fiscal. Começamos também uma rifa. O Tavolaro (Agostinho Tavolaro, advogado, fundador do escritório de advocacia Tavolaro e Tavolaro) deu um carro, que somou mais de R$ 200 mil na venda da rifa. O ganhador acabou devolvendo o veículo e fizemos uma nova rifa do mesmo carro. Aí o Tavolaro resolveu dar outro carro. Este último nós vendemos.

Mas quanto custou a reforma no total?

A reforma totalizou cerca de R$ 3,5 milhões. A cúpula, somente ela, ficou em R$ 1,5 milhão. Apenas para a grua (guindaste utilizado para a elevação e a movimentação de cargas e materiais pesado), que veio de Curitiba (PR), pagamos 20 mil por dia, o que totalizou R$ 60 mil. Todo o piso da igreja foi trocado por um mármore branco lindo. O Gilberto também foi muito feliz na reforma dos banheiros, e também fez uma sala bonita. O Edson Moura, que era prefeito lá de Paulínia, e também o Pavani (médico Marco Aurélio Matallo Pavani, diretor do Grupo RAC). Sempre contei com o apoio de muita gente. Tenho facilidade de ter amizade, de conquistar as pessoas. Sim, fiz muito, mas com muito apoio. Inclusive com o de bispos, como o Dom Gilberto.

E quem construiu a Igreja de Santa Rita de Cássia em Campinas?

O padre Chiquinho foi quem construiu a igreja de Santa Rita. Isso, com o "dinheiro do diabo". Ele mesmo contava isso para todo mundo. Tudo se deu quando ele participou do programa de J. Silvestre (apresentador do programa de TV "O Céu É o Limite", de perguntas e respostas, no qual cunhou a expressão: "Absolutamente certo!"), que fazia as perguntas sobre o assunto que o participante escolhesse. Ele falou sobre o diabo. E foi feliz nas respostas. Atingiu o que seria hoje R$ 450 mil. Mas o J. Silvestre queria que ele continuasse para chegar ao prêmio máximo de R$ 1 milhão. Mas ele ficou com medo de perder aquele valor já conquistado e resolveu parar. Essa é a história da origem de parte dos recursos que ergueu a Igreja de Santa Rita.

E como surgiu o cemitério do Flamboyant na sua trajetória?

O padre Chiquinho foi quem deu o nome ao cemitério e isso ocorreu antes de 1988, quando apenas a Prefeitura e a Igreja podiam ter cemitérios. Depois da promulgação da Constituição de 1988, qualquer um podia também administrar um. Então, um grupinho de empreendedores queria abrir um cemitério e, como não podia, doaram um terreno para a Arquidiocese, com a condição de o padre Chiquinho encabeçar o negócio. Ele ficava com 10% do movimento do cemitério, o que era muito pouco, enquanto o grupo de empresários, com 90%. Depois que eu entrei, comecei a melhorar aquilo. Alguns da sociedade já haviam morrido e um dos herdeiros resolveu vender a parte dele do cemitério. Há quase 20 anos, ele pediu R$ 5 milhões. Decidi aceitar, mas pagando a prazo. Levamos nove anos para pagar, mas quitamos a dívida. E quando você melhora algo, dá certo. Eu melhorei a Igreja Santa Rita e isso aumentou a frequência. Hoje, até a turma da periferia vem casar na igreja, porque ela é linda. O povo simples também gosta de coisas bonitas. O maior problema está na arrecadação do dízimo. É uma arrecadação incerta e pequena para a manutenção estrutural de uma igreja. Enfim, a igreja e o cemitério cresceram. Entretanto, como já estou bem idoso, penso em passar o cemitério para frente.

Em sua avaliação, de que forma a pandemia afetou a fé das pessoas?

Antigamente, quando ocorria uma tragédia ou epidemia, tudo era tratado como sendo um castigo de Deus, uma praga. Mas, nesta pandemia, ninguém mencionou isso. Não vi católico falar que isso era castigo de Deus. É o ciclo da vida. A cada cem anos vem uma praga. As coisas vão acontecendo contra a vontade da gente, mas elas acontecem. Isso leva as pessoas a pensarem mais em Deus. Faz as pessoas refletirem mais.

O sr. não acha que falta apoio da Secretaria Municipal de Cultura para elencar algumas igrejas como pontos turísticos da cidade?

Falta sim. O brasileiro, infelizmente, não dá muita bola para a cultura, coisas antigas, históricas, catedrais... Não existe aquele gosto que os europeus têm pela arte. Em nossas cidades, como Mariana, Diamantina, Ouro Preto (todas em Minas Gerais), as igrejas são belíssimas, mas não há uma secretaria, federal, municipal ou estadual, que incentive a visitação. A própria sociedade não dá muita bola para as construções religiosas. A Catedral de Campinas, por exemplo, está reformando. O único que deu algum apoio ali foi o Guilherme Campos (atualmente diretor administrativo-financeiro do Sebrae São Paulo). Foi ele quem conseguiu uma verba de R$ 300 mil. Mas o que é esse valor? Não dá nem para a pintura...

Qual a sua avaliação sobre o papado de Francisco?

Avalio como uma atuação mais tímida em comparação ao Bento XVI. Ele é um homem admirável, mas conta com muita oposição. Contudo, está fazendo um bom governo. Ele olha para a necessidade do povo. Sua atuação é mais abrangente para tudo.

Qual é o seu hobby? O que o sr. gosta de fazer nas horas de lazer?

Desde criança gosto muito de passarinho. Tenho muitos deles. Começo a juntar e quando fico com muitos, distribuo. Mas depois volto a buscar mais. Agora mesmo vão nascer mais de 30 passarinhos em casa. São mais de 20 canários fêmeas chocando. Já tenho 30 e vou ficar com 60 aves. Dou canário para todo mundo. Outro hobby meu é cuidar e brincar com os meus cachorros, da raça pinscher, miniaturas. Temos seis. Eu me divirto com eles. Quando estou meio cansado, corro para ver meus passarinhos, fico sentado, ligo o rádio, aí eles começam a cantar e fico escutando...

Qual mensagem o sr. deixaria para os nossos leitores?

A vida é aquilo que Jesus dizia: "Sem mim nada podeis fazer". Tudo que a gente faz, precisamos da ajuda de Deus. Dizia São João Crisóstemo: quem tem uma Bíblia em casa está mais protegido. Apenas a sua presença já afasta as trevas. Porque aquilo é a própria palavra de Deus. Temos que ter nos lábios habitualmente a palavra "Jesus", nas dificuldades e nas alegrias. Se você decide ser católico, então realmente seja católico e siga em paz.

Escrito por:

Ana Carolina Martins