Publicado 10 de Setembro de 2021 - 9h35

Por Gilson Rei/ Correio Popular

O monumento

Diogo Zacarias

O monumento "Toninho e sua pipa", idealizado pelo artista Spencer Pupo Nogueira, em homenagem ao ex-prefeito Antonio da Costa Santos: família de Toninho ainda acredita que caso possa ser elucidado por corte internacional

Um pedido de investigação sobre o assassinato do arquiteto Antônio da Costa Santos, o Toninho, prefeito de Campinas, ocorrido há 20 anos, será protocolado amanhã na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que é um órgão judicial autônomo com sede em San José, na Costa Rica. A Corte Interamericana é acionada quando todos os agentes da Justiça de um Estado esgotam suas investigações e não chegam à autoria dos crimes em inquéritos.

Vale lembrar que a Corte Interamericana tem como propósito aplicar e interpretar a Convenção Americana de Direitos Humanos e outros tratados de Direitos Humanos. Faz parte do chamado Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

O recurso jurídico, adotado pela família de Toninho, foi anunciado com exclusividade pelo Correio Popular em julho deste ano e surge como um sopro de esperança, justiça e resposta ao assassinato ocorrido na Avenida Mackenzie, no dia 10 de setembro de 2001, quando Toninho retornava de um shopping para casa, sozinho, em seu carro, no início da noite.

O crime deixou a população de Campinas chocada e indignada. Mesmo após duas décadas, os motivos da trágica ocorrência não foram esclarecidos e todos ainda se perguntam: "Quem matou Toninho?".

Marina Costa Santos, filha do político assassinado, disse ontem que a família vai protocolar o processo de investigação na Corte Interamericana de Direitos Humanos, porque é preciso esclarecer a motivação do crime bárbaro, algo que o Estado brasileiro não conseguiu. "O Estado foi omisso nas investigações da morte de meu pai. A família recorreu a todas instâncias da Justiça nestes 20 anos e nada foi conseguido. Houve negligência, não teve um mínimo de esforço", lamentou Marina.

Impunidade

A tragédia e a falta de respostas causaram - e ainda causam - indignação. "A sensação de injustiça e impunidade são os sentimentos mais difíceis de se conviver. A história de luta do meu pai por uma cidade mais justa e igualitária confunde-se com a história de Campinas e nada foi feito pelo Estado para fazer valer a justiça", acusa Marina.

A filha de Toninho destacou que muitas ações do Estado provocaram estranheza. "Nenhuma linha de investigação deveria ter sido deixada de lado e muitas suspeitas foram negligenciadas. As investigações focaram apenas em uma linha, para a qual não houve comprovação, nem indícios. Focaram na tese de autoria de um criminoso famoso da cidade que responde pena de mais de 200 anos por outros crimes. Ele negou as acusações e não assumiu a autoria", lembrou. "Esta única linha de investigação acabou sendo descartada pela Justiça e tudo voltou à estaca zero", lamentou.

A condução do caso foi criticada. "A ação de alguns policiais no dia do assassinato foi também estranha. A cena do crime não foi preservada, pois alguns agentes chegaram e levaram cápsulas. A arma do crime nunca foi encontrada. Diversas possibilidades de investigação foram deixadas de lado", comentou.

Uma delas, levantada nos primeiros três meses de trabalho policial, chegou à prisão de quatro suspeitos, que chegaram a confessar o crime. Na época, houve também a apreensão de duas motocicletas. Essas ações realizadas por equipes de Campinas, entretanto, foram descartados pelo novo comando, que assumiu o caso por ordem do governo estadual.

Marina lembrou também que na segunda fase de investigações, a partir de 2011, não houve avanço. "Quando reabriram o caso em 2011, nada foi feito. Apenas oito pessoas foram ouvidas e o caso foi arquivado. Além disso, a Polícia Federal não assumiu as investigações em nenhum dos governos. Muito estranho também este fato. Por que a investigação não foi federalizada?", indagou.

Histórico

Toninho ocupou o cargo de prefeito por oito meses e dez dias, em 2001. Antes disto, foi eleito vice-prefeito de Campinas em 1989. Na época, Toninho denunciou esquemas de corrupção envolvendo empreiteiras e acabou pedindo desligamento do cargo por questões éticas em 1990, enquanto era vice-prefeito e secretário Municipal de Obras.

Fora do governo, entrou com ações populares na Justiça e fez denúncias ao Ministério Público contra políticos e grandes empreiteiras que eram, no período, responsáveis por obras gigantescas em Campinas. Decidiu ser candidato a prefeito e elegeu-se em 2001. Em poucos meses, intensificou sua luta contra desvios dos cofres públicos e especuladores imobiliários.

O preço foi alto. Toninho foi assassinado no dia 10 de setembro de 2001. Nada foi roubado dele, apenas uma pasta com documentos desapareceu do carro que dirigia. Há 20 anos, a família e os amigos lutam por investigações que apurem o crime, considerado como sendo de cunho político.

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Gilson Rei/ Correio Popular