Publicado 04 de Setembro de 2021 - 9h46

Por Gilson Rei/ Correio Popular

Caminhão despeja lixo no Aterro Delta para posterior remessa ao Aterro Sanitário de Paulínia: gestão dos resíduos sólidos em Campinas será modelo para o país

Kamá Ribeiro

Caminhão despeja lixo no Aterro Delta para posterior remessa ao Aterro Sanitário de Paulínia: gestão dos resíduos sólidos em Campinas será modelo para o país

Campinas vai assumir uma posição de vanguarda na gestão do lixo com a aplicação do projeto técnico e o modelo econômico-financeiro da Parceria Público-Privada dos Resíduos Sólidos Urbanos, a chamada PPP do Lixo. Além de servir como exemplo ambiental e de saúde pública para cidades brasileiras, o novo modelo prevê também a geração de energia a partir da reutilização do lixo, que poderá auxiliar no combate à crise hídrica e energética atual. A análise é de Carlos Silva Filho, diretor presidente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e presidente da International Solid Waste Association (ISWA), referências no assunto.

O Plano de Resíduos Sólidos da Prefeitura de Campinas, reforçou Silva Filho, foi aperfeiçoado e deverá se transformar em marco em gestão do lixo no país. "Assim que começar a ser aplicado, Campinas dará um salto importante, pois o modelo muda o foco da gestão de resíduos", considerou. O foco principal passará a ser a sustentabilidade. A PPP do Lixo cumprirá as determinações da Lei Federal 12.305, que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos. "A lei exige, por exemplo, o tratamento prévio do lixo a ser lançado em aterros, ampliação da reciclagem de resíduos sólidos e a produção de energia pelo reaproveitamento do lixo", comentou.

Em Campinas, segundo o presidente da Abrelpe, está prevista a construção de três usinas e grande parte do lixo será reaproveitada. O restante será tratado. "Além disso, a renda obtida com o reaproveitado será partilhada entre a empresa vencedora da licitação e o Poder Público", exemplificou. O novo modelo, segundo Silva Filho, vai contribuir com o meio ambiente, além de gerar renda e empregos ao aproveitar o lixo, ampliar a atividade dos catadores por meio de cooperativas e produzir matérias-primas para a economia local.

O presidente da Abrelpe destacou que Campinas está pronta para sair na frente da grande parte dos municípios do país, porque o cenário nacional relativo ao tratamento e destinação do lixo é triste. A quantidade de resíduos destinados a aterros controlados e lixões cresceu perto de 16% entre 2010 e 2019, passando de 25 milhões de toneladas por ano para quase 30 milhões. Ao todo, o Brasil contabiliza 2.976 lixões a céu aberto e pelo menos três regiões (Centro-Oeste, Nordeste e Norte) ainda registram índices abaixo da média nacional de destinação adequada de resíduos.

Dados da entidade revelam ainda que na região Norte apresenta os piores resultados, pois 79% das cidades (357 municípios) continuam encaminhando seus resíduos para aterros controlados ou lixões a céu aberto. O descarte irregular, observou Silva Filho, é outro problema grave. Ele lembrou que a região Nordeste concentra o maior número de cidades com destinação irregular; 1.340 municípios, que representa 74,6% do total.

A situação é preocupante também no Centro-Oeste, que encaminha o lixo de forma irregular em 305 municípios, sendo 65% do total. Sudeste e Sul apresentam os menores índices, com 10,1% e 11,1% do lixo com destino irregular, respectivamente. O presidente da Abrelpe ressaltou as consequências danosas dessa realidade. "Esse cenário impacta diretamente a saúde de 77,65 milhões de brasileiros, pois gera doenças que vão desde as alergias respiratórias à contaminação da água dos lençóis freáticos", enumerou.

O custo ambiental causado pela má gestão do lixo é incalculável, conforme Silva Filho, mas somente em relação às perdas econômicas causadas pelo não aproveitamento dos resíduos sólidos são da ordem de R$ 14 bilhões ao ano. "O custo da má gestão em cada município é cinco vezes maior do que o investimento a ser feito em gestão de resíduos sólidos", estimou. A solução, segundo o presidente ele, está na aplicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, diminuindo a produção de lixo e repensando os hábitos de produção e consumo.

Abrelpe

Fundada há 45 anos por um grupo de empresários pioneiros nas atividades de coleta e transporte de resíduos sólidos, a Abrelpe atua na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável, para gestão de resíduos sólidos no Brasil. Ao longo de sua atuação, a entidade conquistou a representação da International Solid Waste Association (ISWA) e foi escolhida para ser sede da Secretaria Regional para a América do Sul, em um programa reconhecido e mantido pela Organização das Nações Unidas (ONU), através da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Regional.

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Gilson Rei/ Correio Popular