Publicado 21 de Agosto de 2021 - 10h24

Por Mariana Camba/Correio Popular

A professora de etnomusicologia da Unicamp, Suzel Reily: o folclore não é uma coisa e sim uma prática, na qual a população é parte ativa dessa construção

Ricardo Lima

A professora de etnomusicologia da Unicamp, Suzel Reily: o folclore não é uma coisa e sim uma prática, na qual a população é parte ativa dessa construção

Muitas das histórias contadas oralmente e das tradições que transcendem as décadas de cunho popular e que são mantidas pelo povo são reconhecidas como folclore. Segundo o professor titular do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pedro Paulo Funari, os contos folclóricos não se dividem entre verdadeiro e falso, pois são enredos míticos.

Trata-se de uma prática viva, acrescentou, que, portanto, mantém-se em constante mudança. "Por isso, o folclore também é contemporâneo. Afinal, a cultura muda de acordo com a circunstância em que ela está inserida e pelas pessoas que a cultivam", informou. Assim, novas histórias vão surgindo, sem conflitar com as tradicionais, como o conto do Saci e da Mula Sem Cabeça, garantiu.

"O folclore é feito para a coesão social geral. A história que todos conhecem tem uma moral, isso deve ser levado em conta para que a tradição possa ter a sua função", afirmou. Amanhã é celebrado o Dia do Folclore e, para Funari, a data remete à importância de fazer com que a cultura perpetue entre as gerações.

Segundo o docente, a indústria cultural tem tido um papel fundamental ao tornar as histórias contemporâneas contos folclóricos. Mesmo que tal fenômeno não tenha sido propagado pelo setor, explicou, a ficção criada e disseminada pelas empresas caiu no gosto popular. "É a adesão de um novo olhar para que o costume que já conhecemos possa ser disseminado. As produções cinematográficas têm criado novas construções de histórias antigas", declarou.

Há tempos, lembrou, Monteiro Lobato criou o Sítio do Pica Pau Amarelo, que une personagens clássicos, como o Saci e outros inventados, como o Visconde de Sabugosa. Portanto, concluiu, essa não é uma prática nova. "Sequências como Guerra nas Estrelas e Harry Potter são tramas fictícias que se passam fora do tempo que conhecemos. Elas dependem do imaginário das pessoas, disseminam-se entre grupos, encontram um meio de se manterem vivas e foram incorporadas por parte da população, o que são características folclóricas", observou.

As histórias ganham vida de maneira natural e por isso perduram, disse Funari. A Festa Junina, por exemplo, é uma atividade folclórica tradicional por fazer parte da cultura brasileira e ser propagada pelo povo. Nesse contexto, explicou, ela permanece sendo um costume enraizado, sem confrontar com as novas culturas populares, pois elas vivem em cenários diferentes e com atribuições distintas. "Elas coexistem sem problemas e exercem suas funções sociais. Cada uma à sua maneira".

Para o docente, o Estado tem nas escolas o meio de difundir a cultura popular, de forma que permaneçam presentes nas novas gerações. O calendário escolar, acrescentou, é feito com base nas festas locais e em tradições populares. Essa é uma maneira de a escola contribuir positivamente com a cultura brasileira, ensinando-a em sala de aula, ressaltou.

Construção coletiva

De acordo com a professora titular de etnomusicologia do Departamento de Música do Instituto de Artes da Unicamp, Suzel Reily, o folclore contemporâneo também se estrutura por meio dos contos urbanos. "As pessoas não deixaram de ser criativas. Piadas, por exemplo, são uma forma de folclore, pois são narrativas que surgem no dia a dia, usadas como forma de expressão e que envolvem as pessoas", explicou. A quadrilha também tornou-se uma cultura nacional "folclorizada", segundo ela.

Para Suzel, é importante que todos tenham conhecimento de que a cultura não é unificada. Cada região ou país traz consigo valores e costumes diferentes e, por isso, o folclore pode ser construído de maneiras distintas.

A cultura popular é recriada de acordo com a ação das pessoas. Portanto, esclareceu, o folclore não é uma coisa e sim uma prática, na qual a população é parte ativa dessa construção coletiva que permanece em desenvolvimento. "É isso que faz com que a vida tenha um pouco mais de cor, mesmo em tempos sombrios", afirmou

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Mariana Camba/Correio Popular