Publicado 20 de Agosto de 2021 - 10h55

Por Gilson Rei/Correio Popular

Notícia da retomada presencial gradual deixou muitos na expectativa de uma movimentação no distrito, mas não afastou o temor de uma nova onda de contágio, agora com a variante Delta

Ricardo Lima

Notícia da retomada presencial gradual deixou muitos na expectativa de uma movimentação no distrito, mas não afastou o temor de uma nova onda de contágio, agora com a variante Delta

Uma sensação de dias melhores misturada à insegurança prevaleceu ontem entre a população do distrito de Barão Geraldo ao receber a notícia do retorno lento e gradual das atividades presenciais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a partir de 13 de setembro. O distrito está praticamente vazio e agoniza com a suspensão das aulas presenciais há um ano e meio. O reflexo direto pode ser percebido com o fechamento de inúmeros estabelecimentos comerciais e a desocupação de imóveis por conta da ausência de milhares de estudantes, que retornaram às suas residências durante as aulas remotas.

A informação de que haverá uma retomada presencial gradual na Unicamp deixou as pessoas animadas pela volta a uma normalidade no comércio e setor imobiliário. Ao mesmo tempo, trouxe uma sensação de receio, por conta da variante Delta do coronavírus, que transmite com maior intensidade a covid-19 e que já está presente no Brasil.

As aulas presenciais não vão ocorrer de imediato aos 33,2 mil estudantes de todas as etapas de ensino e pesquisa, 2 mil docentes e 6,7 mil funcionários. As atividades presenciais na universidade pública estabelecem a obrigação da vacinação em duas doses em toda a comunidade universitária; uso de aplicativos para monitorar a saúde de servidores, pesquisadores, professores, estudantes e funcionários, além da realização de testagem em massa.

Outras medidas serão também aplicadas pela instituição de ensino, como treinamento e orientações a toda a comunidade, além da obrigação de uso de máscaras, distanciamento, assepsia das mãos e uso de álcool em gel. Um centro de vacinação também foi instalado no campus em parceria com a Prefeitura de Campinas para agilizar a imunização da comunidade universitária.

Animados

Representantes do setor imobiliário ficaram mais animados e esperançosos de que o mercado volte a aquecer com a retomada gradual das aulas presenciais na Unicamp. Daniel Alves, corretor de imóveis do distrito de Barão Geraldo, aprovou a decisão. "Barão está com o comércio parado e o setor imobiliário sentiu muito com a saída de estudantes neste período de um ano e meio, pois as aulas presenciais é que provocam toda a movimentação", comentou.

Segundo Alves, a expectativa é a de que o comércio siga no mesmo ritmo de retorno dos estudantes. "A recuperação do setor imobiliário e do comércio será na mesma proporção do volume de estudantes que voltarão", disse. "Quanto à ocupação de imóveis, é muito difícil dizer quantos estão vazios. Alguns até estão sem ninguém ocupando mas o locador continua pagando para manter o imóvel livre, à espera do retorno das aulas presenciais. Outros estão vazios e sem contrato. Esperamos reaquecer um pouco o segmento com novos contratos", disse.

Tatiana Neves, corretora da Imobiliária Cidade Universitária, disse que, mesmo sendo uma volta tímida, a expectativa é positiva. "Vai melhorar a procura e isso já é um alento. O mercado de imóveis e o comércio em geral dependem muito da vida na Unicamp", disse.

"Acredito que alguns imóveis que estão vazios serão novamente ocupados por aqueles que continuam pagando, mesmo eles estando em outras cidades. Além disso, novos contratos voltarão a ser fechados, garantindo uma recuperação no segmento. Só espero que isso ocorra com todos vacinados e dentro de uma segurança sanitária que evite novos retrocessos", comentou.

Alexandre Vitullo Cocholice, proprietário do Aulus Restaurante, disse que a expectativa é de insegurança. "Tenho medo dessa volta, porque a gente não sabe direito em que momento as atividades serão retomadas. Há uma instabilidade ainda. A Unicamp vai tentar um retorno gradual e não sabemos como isso vai se dar. Estamos aguardando", comentou.

O comerciante destacou que vai manter o atendimento atual. "O restaurante vai continuar com a venda de marmitas apenas para garantir o patamar de gastos. A maioria dos clientes ainda está com receio de voltar e não dá ainda para planejar uma volta mais agressiva no restaurante. Por enquanto, será mantida a opção de retirada no local e o delivery via aplicativo", disse.

A preocupação é com a instabilidade da economia e com as notícias do exterior. "A gente vem estudando a melhor forma para a retomada, uma vez que hoje há também um aumento constante dos alimentos. Está difícil ajustar os valores das refeições com essas altas. As pessoas estão com o orçamento curto e fica complicado subir o valor da refeição. Uma retomada agora vai exigir também uma decisão sobre o valor das refeições", destacou Alexandre.

A crise causada pela pandemia ainda tem reflexos negativos. "Com a universidade vazia, sem atividades, Barão praticamente parou. Tivemos que desligar 32 funcionários e manter apenas quatro na estrutura do restaurante. Nesta retomada não dá para ter uma ideia de quanto terei que contratar para atender e ainda há um receio de que possa acontecer um novo retrocesso e terei que demitir de novo", alertou.

A variante Delta é a preocupação maior. "Não dá para planejar e se arriscar. A gente acompanha o que acontece no exterior e a expectativa no Brasil é a de seguir o mesmo caminho de explosão de novos casos de novo. Tem que fazer as coisas com cuidado, um passo de cada vez, com medo do que poderá vir pela frente. A gente aguarda uma estabilidade. Quando a situação estiver estável, será possível planejar melhor e com segurança", explicou.

Estudantes

Wilias Santos, doutorado em genética na pós-graduação, disse que para um retorno imediato de 100% dos estudantes é impraticável e apoiou a forma adotada pela Unicamp. "O custo de vida é alto e muitas pessoas não têm condições para voltar rapidamente e bancar financeiramente moradia, alimentação e outros gastos em tempos de pandemia. Houve um desconto na mensalidade da moradia, mas mesmo assim, ainda é alto, pois uma quitinete de R$ 1,5 mil caiu para R$ 1 mil, um valor que nem todos terão condições de bancar", disse.

Joana Gama, que faz doutorado de biologia celular estrutural, defendeu também o retorno gradual. "Voltei neste mês de agosto, pois já estou com as duas doses. Fiz todos os procedimentos necessários exigidos pela Unicamp para o retorno, afinal, estou na fase de pesquisas em laboratório no doutorado. Quanto ao retorno 100% das aulas presenciais, na minha opinião, acho que é muito cedo para saber se é viável ou não. Achei interessante a instituição estabelecer o retorno somente com as duas doses e dentro de muitos cuidados e medidas rígidas", disse.

Alan Peterson, graduando de engenharia agrícola, afirmou que a Unicamp está agindo corretamente e que, mesmo assim, é preciso muita cautela. "Existe um suporte amplo da universidade e bastante rígido, que garante uma segurança melhor a todos. Porém, existe algum receio, principalmente na questão dos restaurantes, afinal, a variante Delta é bem mais contagiosa. Por enquanto, deveriam manter apenas as marmitas como refeição. A volta deve ser mais para pós-graduação e pesquisas em laboratório. O interessante também é a adequação que cada instituto deverá adotar", explicou.

Álvaro Souza da Cruz, graduando de engenharia química, acredita que a única questão que está gerando dúvidas e ainda preocupa é com relação aos laboratórios. "Não está definido como vai funcionar, afinal uma aula presencial no laboratório é bem diferente de uma aula remota. A dinâmica do aplicativo é também uma questão interessante para auxiliar nas medidas de segurança", comentou.

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