Publicado 10 de Agosto de 2021 - 11h43

Por João Lucas Dionisio

A bióloga e integrante da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, Maíra Rodrigues da Silva, mostra os estragos feitos pelo fogo: susto e indignação com o que considera um ato proposital

Diogo Zacarias

A bióloga e integrante da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, Maíra Rodrigues da Silva, mostra os estragos feitos pelo fogo: susto e indignação com o que considera um ato proposital

Referência de patrimônio material e imaterial da cultura negra em Campinas, a Fazenda Roseira, que tem como responsável a comunidade Jongo Dito Ribeiro, foi atingida por um incêndio em sua área de mata na noite do último domingo. O espaço existe desde 1830 na região do Jardim Ipaussurama e, a partir de 2008, se tornou público. Por sorte, o fogo não atingiu a sede. Por conta de questões de segurança, alguns membros da entidade estão dormindo no local há mais de 200 dias com o propósito de zelar pela casa de cultura, já que, segundo os responsáveis, incêndios, roubos e ataques movidos por intolerância religiosa são comuns.

A fazenda vem sofrendo com a falta de iluminação e de segurança nos últimos meses. "Todos os dias temos uma nova surpresa. Diariamente, enfrentamos problemas com pessoas que vêm até o local para consumir drogas. Recentemente, ao ser flagrado dentro da área, um indivíduo tentou agredir alguns meninos da comunidade com um pedaço de madeira", revelou uma das gestoras da Fazenda Roseira, Bianca Lucia Lopes, de 23 anos, que faz parte do grupo que dorme no local.

Segundo ela, por causa da escuridão, as tentativas de furtos são rotineiras. Entre 2020 e o começo de 2021, vários objetos foram levados ou danificados, como livros, instrumentos musicais e artigos religiosos. Seis boletins de ocorrência foram registrados de agosto de 2020 a janeiro deste ano. O espaço público, que depende da Prefeitura de Campinas para receber cuidados básicos, também sofre, frequentemente, com queimadas devido ao matagal que cresce de forma descontrolada, já que não é podado periodicamente.

"Deveria existir uma parceria com o poder público municipal, entretanto, não é o que acontece. Pelo que acompanhei durante o incêndio do último domingo, acredito que se trate de algo planejado e criminoso. Contudo, por conta do matagal, muitos bichos como ratos e cobras estão aparecendo diariamente nas casas próximas. Por isso, acredito na possibilidade de que alguns moradores possam estar ateando fogo na tentativa espantá-los", inferiu a gestora Bianca. Ela também lamentou as recentes queimadas porque a Fazenda Roseira está instalada em uma área de preservação permanente. "É algo que dói bastante, uma vez que muitos itens ancestrais perdidos pelas queimadas e pelos furtos são irreparáveis."

Graças à vigília realizada por algumas pessoas no local, segundo Bianca, foi possível identificar rapidamente o incêndio da noite e domingo. "No momento, foi algo bastante assustador. Acionamos o Corpo de Bombeiros que levou mais de uma hora para chegar ao local. Nós tentamos apagar o fogo com baldes d'água e com ma ajuda de mangueiras. Mesmo assim, acabamos perdendo algumas árvores e uma parte da área de proteção. Se não estivéssemos no local há mais de 200 dias, essa e outras queimadas seriam bem mais graves", garantiu Bianca.

A Comunidade Jongo Dito Ribeiro, que tenta zelar pelo local, reivindica junto à Prefeitura implantação de cercas e postes de iluminação, além da realização de rondas de segurança permanentes. Há cerca de dois anos, a Fazenda Roseira sofreu com um incêndio de grandes proporções que devastou boa parte de sua área. Para a historiadora e doutora em urbanismo, Alessandra Ribeiro, neta de Benedito Ribeiro, que dá nome à comunidade, a elaboração de uma política cultural em Campinas é um quesito fundamental.

"Não é possível que as culturas de matrizes africanas fiquem com essa tamanha vulnerabilidade. Precisamos que os espaços de cultura sejam inseridos nos projetos de políticas públicas municipais. A fazenda carece de cerca de proteção e de um sistema de alarme. A gravidade deste último incêndio com certeza seria maior caso o local não contasse com pessoas em vigília", considerou Alessandra.

Em fevereiro deste ano, membros da comunidade Jongo Dito Ribeiro se reuniram com a Prefeitura de Campinas para pedir que a Administração providenciasse a instalação da cerca de proteção e do um sistema de iluminação. Contudo, segundo a historiadora, as promessas feitas pelo poder municipal não foram cumpridas. Segundo ela, o prefeito Dário Saadi espera reunir documentos para que as revindicações feitas pela da comunidade sejam atendidas.

Cultura

Uma das referências de Campinas na difusão da cultura negra, a Fazenda Roseira desenvolve diversos trabalhos com base na lei 10639/03, que consiste na implantação do estudo da história da África e sobre tradições afro-brasileiras. O espaço realiza inúmeros projetos, como cursos de percussão, turbante, aula de dança, agricultura quilombola, além de contar com o primeiro curso de pós-graduação em matriz africana do Brasil. "Contamos com atividades semanalmente, mas estamos a dois anos parados em decorrência da pandemia. Nós estamos pedindo o básico e não sairemos daqui enquanto nosso orçamento não chegar", salientou a gestora Bianca Lucia Lopes.

Em nota, a Prefeitura informou que "o prefeito Dário Saadi tem feito todos os esforços para garantir a parceria e a qualidade do funcionamento da Casa de Cultura Fazenda Roseira". Em conjunto com a Associação Jongo Dito Ribeiro, registra o texto, a Administração tem buscado recursos para melhorias e manutenção do espaço. "Sobre a iluminação, o cercamento e reformas, as questões serão tratadas com contrapartidas e captação de recursos. Em relação a segurança do espaço, a Guarda Municipal realiza operações semanais no local. Além disso, há uma ordem de serviço para que o patrulhamento seja reforçado e feito diariamente".

Escrito por:

João Lucas Dionisio