Publicado 07 de Agosto de 2021 - 10h45

Por Gilson Rei/Correio Popular

Luciana Campanatti Palhares, fisioterapeuta do HC da Unicamp:

Ricardo Lima/Correio Popular

Luciana Campanatti Palhares, fisioterapeuta do HC da Unicamp: "O aparelho auxilia na realização de exercícios que proporcionam a melhora no quadro de dispneia"

Um aparelho de fácil acesso e baixo custo que auxilia no tratamento de doenças respiratórias - como câncer de pulmão, asma, enfisema pulmonar e síndrome pós-covid-19 - promete ser uma importante ferramenta para pacientes e para a Medicina. O novo dispositivo atua na área de fisioterapia respiratória e é indicado para quadros de fraqueza muscular respiratória decorrente de várias doenças, substituindo equipamentos importados e descartáveis.O novo dispositivo foi criado por um grupo multidisciplinar de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para atuar na Terapia Muscular Respiratória (TMR).

Uma das integrantes do grupo multidisciplinar, Luciana Campanatti Palhares, fisioterapeuta do Hospital de Clínicas da Unicamp (HC-Unicamp), explicou que uma das vantagens é a dupla função do dispositivo: permite a inspiração e a expiração. "Existem equipamentos importados semelhantes que são de alto custo e que só existem de forma separada, ou seja; um aparelho para inspirar e outro para expirar. Ambos são caros e descartáveis. No tratamento com importados é necessário ter muitos aparelhos e isso inviabiliza para a grande maioria dos pacientes, mesmo no sistema Público de Saúde", comentou.

O aparelho desenvolvido permite o uso duplo em um só dispositivo que não é descartável. "Com isto, o aparelho auxilia na realização de exercícios que proporcionam a melhora no quadro de dispnéia, que é a sensação de insuficiência respiratória, ocorrida em pacientes com fraqueza nos músculos usados na respiração", comentou.

Outra vantagem do dispositivo de TMR apontada pela fisioterapeuta: auxilia no tratamento de forma não invasiva, exercendo resistência à passagem do ar expirado e inspirado. "Isto é importante porque o paciente precisa fazer força para vencer a carga pré-estabelecida, que impõe uma barreira física. Esta ação não invasiva promove o fortalecimento dos músculos e melhora a respiração como se fosse um treinamento físico para o pulmão", explicou.

Luciana destacou que o aparelho reforça o trabalho de fisioterapia nas doenças respiratórias. "Diversos trabalhos e publicações mostram as evidências e as mudanças positivas que ocorrem em pacientes que fazem fisioterapia para fortalecimento da musculatura respiratória. O novo aparelho poderá beneficiar muitas pessoas, até mesmo aquelas com doenças cardíacas, principalmente porque é um aparelho de baixo custo e abrangente", disse a fisioterapeuta.

Indicações

Carmen Silvia Passos Lima, médica do Departamento de Anestesiologia, Oncologia e Radiologia, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, destacou que o aparelho é indicado para a reabilitação de pacientes com doenças que impactam a oxigenação do sangue, como o câncer de pulmão, além de outras doenças crônicas, como asma e enfisema pulmonar. "A reabilitação com terapia muscular respiratória demonstra efeito benéfico para os pacientes no retorno às atividades diárias", explicou.

A nova tecnologia para TMR, segundo Carmem, pode também ser usada no tratamento de pacientes com a síndrome pós-covid-19, e que mantêm a dispnéia mesmo após terem se recuperado da infecção pelo coronavírus. Diversos graus de disfunção respiratória foram observados nestes pacientes e a fisioterapia respiratória pode acelerar a recuperação do quadro. "Esses indivíduos são afastados ou até saem do mercado de trabalho, onerando os serviços públicos. Acreditamos que o dispositivo terá uma grande importância na melhoria da qualidade de vida dessas pessoas", comentou Carmen.

Origem

Eder Sócrates Najar Lopes, engenheiro  do Departamento de Manufatura e Materiais, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), explicou como surgiu o projeto. "A primeira demanda era que o equipamento fosse reutilizável. Isso passa, necessariamente, pela disponibilidade de abrir, desmontar e higienizar com água e detergente, como se faz em casa com uma mamadeira.

O aparelho é compacto, com formato e tamanho de uma seringa. Apresenta uma câmara e uma válvula acionada por mola, que resulta em simples operação e construção. Pode ser facilmente montado e desmontado, pois possui encaixes que evitam erros. A grande vantagem está na troca da posição do bocal: um lado para a terapia muscular inspiratória e o outro lado para terapia muscular expiratória. Foi pensada também a redução de custos, juntando dois conceitos, para que fosse mais acessível a pessoas de baixa renda. Outra solução importante foi o uso de materiais de baixo custo e que pode ser fabricado em alta escala, que resulta em preço baixo do produto.

Lopes destacou também a vantagem do uso domiciliar do aparelho. É necessário apenas que haja uma orientação de um profissional de saúde, para o paciente realizar e complementar os exercícios de reabilitação em casa, pois tem fácil montagem e manutenção. "A geometria do aparelho permite também um ajuste de modo preciso, da carga de treinamento e durante o exercício, sem a necessidade de supervisão direta de um profissional de saúde", comentou.

Além de Lopes, Luciana e Carmen, participaram do projeto de desenvolvimento do aparelho, mais dois pesquisadores da Unicamp: Arthur de Arruda Pelligrino, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) e André Luiz Jardini Munhoz, da Faculdade de Engenharia Química (FEQ).

Parcerias

O aparelho está em fase de protótipo e um pedido de patente foi depositado pela Agência de Inovação Inova Unicamp no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI). Para lançar o aparelho no mercado, a tecnologia precisa ser licenciada por empresas que possam dar continuidade no desenvolvimento do produto em parceria com os inventores. O próximo passo é realizar testes clínicos. Os pesquisadores pretendem acompanhar, por 12 semanas, grupos de 30 pacientes do HC-Unicamp que tenham doenças ocupacionais, doenças obstrutivas crônicas e tabagistas. Para que a tecnologia possa se transformar em produto para benefício da sociedade é preciso que empresas negociem o licenciamento. Esse processo é feito com o apoio da Agência de Inovação da Unicamp que recebe os pedidos de parceria na área conexão com empresas.

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Gilson Rei/Correio Popular