Publicado 07 de Agosto de 2021 - 10h17

Por Mariana Camba/Correio Popular

A discrepância entre o número de óbitos e de nascimentos deverá reduzir a população economicamente ativa

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A discrepância entre o número de óbitos e de nascimentos deverá reduzir a população economicamente ativa

A pandemia afetou diretamente a dinâmica demográfica do Brasil, em decorrência da queda do número de nascimentos e do aumento de mortes desde o ano passado. De acordo com a Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen/SP), em Campinas nunca se morreu tanto e se nasceu tão pouco durante os seis primeiros meses do ano, como no primeiro semestre de 2021.

Como reflexo em longo prazo, a redução da taxa de natalidade aliada à crise econômica gerada pela covid-19 deverá promover a diminuição da população economicamente ativa no futuro, segundo Everton Emanuel Campos de Lima, docente do Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Núcleo de Estudos de População (Nepo) "Elza Berquó".

Segundo a Arpen, o novo coronavírus vem promovendo mudanças demográficas de uma forma nunca antes vista. Desde 2003, quando teve início os registros dos dados estatísticos dos Cartórios de Registro Civil da cidade, um cenário como o atual não tinha sido observado. Até o final de junho deste ano, foram contabilizados 6.021 óbitos em Campinas, número 47,7% maior que a média histórica de mortes no município (4.078) e 45% maior que os falecimentos ocorridos nos primeiros seis meses do ano passado (4.152). Em comparação ao primeiro semestre de 2019 (3.997), o aumento no número de mortes foi de 50,6%.

Para Lima, o comportamento demográfico registrado em Campinas não é exclusivo da cidade. O fenômeno também tem sido verificado em outros municípios, igualmente afetados pelo aumento do número de óbitos por causa da pandemia. "Temos observado este padrão em todas as cidades brasileiras", reforçou o pesquisador. Em situação de normalidade, conforme o docente, espera-se que as pessoas tenham menos filhos e vivam por mais tempo, mas sempre com uma diferença em favor dos nascimentos.

O que está acontecendo com a taxa de nascidos é similar ao que ocorreu quando foram registrados os primeiros casos de Zika Vírus no Brasil, entre 2015 e 2016. Naquele período, a taxa de natalidade despencou. Apenas depois que a doença foi controlada é que houve a retomada de nascimentos. O que nunca tínhamos registrado é um aumento de mortes como este", pontuou.

Segundo Lima, como reflexo desse cenário ocorrerá, em curto prazo, um freio no crescimento populacional. No longo prazo, acrescentou, a redução da população economicamente ativa e qualificada deve resultar em menor índice de produção e de consumo na economia do país. Também houve, de acordo com o especialista, uma redução na esperança de vida em algumas regiões do Brasil de até dois anos.

"Essa situação é momentânea. A tendência é que as pessoas não morram tanto em um período tão curto de tempo depois que a pandemia for controlada", afirmou. O impacto da atual queda no número de nascimentos, informou, deve ser sentido na próxima década.

O pesquisador explicou que, diante da crise econômica gerada pela covid-19, muitas pessoas decidiram não ter filhos e adiaram a ampliação da família. Para ele, o processo natural de transição demográfica já estava ocorrendo, mesmo antes de 2020, ano em que, por questões econômicas, a ideia de ter menos filhos tornou-se cada vez mais frequente.

"Mas a pandemia acelerou essa tomada de decisão diante da insegurança e vulnerabilidade que ela trouxe, tanto em relação à saúde quanto à economia. A falta de dinheiro influenciou". De acordo com um levantamento feito pelo docente, as mulheres na faixa dos 30 anos são as que mais optaram por não ter filhos durante a pandemia, o que contribuiu para a redução dos nascimentos.

No início da pandemia, acrescentou, o grupo de pessoas com 60 anos ou mais era o que registrava o maior número de óbitos por causa da covid-19. Com o avanço da imunização, passou a vitimar em maior número pessoas na faixa etária entre 30 e 50 anos, observou. "Quanto mais avançarmos no combate à covid-19, mais essa realidade deve mudar", concluiu.

Casal adia plano de gravidez por causa da pandemia

A analista financeira Sara Golin, de 34 anos, está casada há três anos e é mãe de um menino de dois anos e seis meses. Ela e o marido, Itamar Neckel, planejaram ter o segundo filho em 2020, mas quando a pandemia chegou o casal mudou de ideia. "Nós moramos em Campinas, mas a minha família vive no Paraná. Ter mais um bebê neste contexto já seria difícil. Sem ter a ajuda das pessoas mais próximas a situação seria ainda mais complicada", afirmou. O casal estava com receio de perder o emprego diante da crise, além do medo da doença, que persiste.

"A questão financeira, sem dúvida, teve um grande peso na nossa decisão de esperar para engravidar. A pandemia trouxe impactos que nos impediram de concluir esse planejamento", relatou Sara. Segundo a analista, ela e o marido tiveram a jornada de trabalho e o salário reduzidos em 2020, mas se mantiveram empregados. "Estar nessa situação e não poder ter uma rede de apoio também nos deu medo de colocar mais uma pessoa no mundo".

Outro receio da analista era ter que ir ao hospital e se expor ao novo coronavírus. Atualmente, o casal já conseguiu ser vacinado, o que trouxe mais segurança e tranquilidade à família. Para eles, é como se surgisse uma luz no fim do túnel. "Agora que temos certeza de que não temos risco de perder o emprego e que estamos no processo de imunização, voltamos a pensar na chegada do bebê para ainda esse ano", afirmou Sara, em tom animado.

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Mariana Camba/Correio Popular