Publicado 05 de Agosto de 2021 - 11h28

Por Mariana Camba/Correio Popular

Gavetas vazias ilustram a situação caótica enfrentada pelo Hemocentro da Unicamp: o estoque, na quarta-feira, era para mais um dia

Diogo Zacarias/Correio Popular

Gavetas vazias ilustram a situação caótica enfrentada pelo Hemocentro da Unicamp: o estoque, na quarta-feira, era para mais um dia

O Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) enfrenta uma situação crítica e sem precedentes, diante do baixo estoque de sangue disponível para atender os hospitais de Campinas e de 43 cidades da região. A quantidade de bolsas que o banco de sangue dispõe é suficiente para apenas mais um dia de demanda.

De acordo com o médico e diretor do serviço de coleta do Hemocentro, Vagner de Castro, o momento é angustiante e tem afetado a realização de cirurgias eletivas. No município, até agora, sete procedimentos tiveram de ser desmarcados. O Hospital das Clínicas (HC) da Unicamp adiou duas cirurgias por causa da falta de sangue, assim como o hospital Mário Gatti, onde mais cinco foram suspensas.

Segundo Castro, não há previsão para que a situação melhore. Para isso ocorrer é necessário manter a frequência nas doações. O problema tem sido registrado nos bancos de sangue de todo o país, de acordo com o médico. Desde o início da pandemia, as doações caíram 20%.

Além disso, o frio dos últimos dias fez despencar o número de doadores em 60%, segundo o coordenador da Divisão de Hemoterapia do Hemocentro, Bruno Benites.

Até então, as campanhas para impulsionar a solidariedade eram responsáveis por aumentar o número de doadores por até 20 dias depois das ações. Este ano, a movimentação gerada durou no máximo dois dias. “O problema é que agora as quedas têm sido frequentes”, afirmou Castro.

A média de doações esperada para uma semana é de 900 a 1 mil bolsas, mas o número não vem sendo atingido. “O paciente demora meses para conseguir realizar o procedimento, e quando chega a sua vez é necessário adiar. Isso gera um impacto social enorme”, lamentou o médico.

Para ele, os reflexos sociais e econômicos gerados pela pandemia também contribuíram com a queda nas doações. As pessoas estão preocupadas em conseguir sobreviver neste momento, acrescentou. Por isso, ressaltou, é mais difícil pensar no próximo agora. “Há falta de solidariedade por instinto de sobrevivência”, declarou.

O estoque considerado bom é quando há volume suficiente para atender pelo menos cinco dias de demanda. Segundo o diretor, em outras situações preocupantes havia a possibilidade de pedir socorro a outros bancos de sangue. Diante da falta de doações generalizada essa possibilidade se esgotou. Em torno de 99% das demandas atendidas pelo Hemocentro são do Sistema Único de Saúde (SUS).

Na região de Campinas, 85% da população é do tipo A+ e O+, por isso a demanda por essas bolsas também é maior. A gerente da Agência Transfusional do Mário Gatti, Solange Costa, afirmou que um momento crítico como este nunca foi registrado no hospital. “Estamos administrando a situação dia após dia”, ressaltou Solange.

Salva vidas

Quem recebeu a vacina contra a gripe ou a Coronavac deve esperar três dias para doar sangue. Os que foram imunizados com doses da AstraZeneca, Pfizer e Janssen precisam aguardar uma semana.

A projetista Eliana de Souza Silva garantiu a sua doação ontem. Segundo ela, a ação é essencial para salvar vidas. “O procedimento é muito rápido. Poder ajudar alguém, desconhecido ou não, é maravilhoso. Se cada um puder doar um pouco do seu tempo, vamos sair dessa”, reiterou.

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