Publicado 04 de Agosto de 2021 - 12h07

Por João Lucas Dionisio/Correio Popular

O médico Aguinaldo Garcez, um dos coordenadores da pesquisa, e a recepcionista Elenita Miranda, que perdeu o paladar por causa da covid: sintoma incômodo, mas passageiro

Fotos: Kamá Ribeiro/Correio Popular

O médico Aguinaldo Garcez, um dos coordenadores da pesquisa, e a recepcionista Elenita Miranda, que perdeu o paladar por causa da covid: sintoma incômodo, mas passageiro

Pesquisa realizada por um grupo de alunos recém-formados pela Universidade São Leopoldo Mandic (SLMAndic), em Campinas, detalhou quais são os principais tipos de paladares afetados em pacientes que testaram positivo para a covid-19 e comparou os sintomas com os causados por outras doenças respiratórias. Segundo os dados do estudo, que entrevistou cerca de 180 pessoas, 70% dos infectados pelo coronavírus relataram ter perdido o olfato ou o paladar. As pessoas infectadas pela covid podem apresentar perda até 13 vezes maior do que pacientes com outras síndromes.

De acordo com um dos coordenadores do projeto de pesquisa, o professor e dentista da São Leopoldo Mandic, Aguinaldo Garcez, apesar da perda desses sentidos ocorrerem também em decorrência de outros problemas respiratórios, como a gripe, o déficit no paladar de pessoas que se contaminaram pela covid-19 é diferente de outras doenças. “Costuma durar mais do que em um resfriado. Por isso, a importância da identificação da pessoa que está com essas sensações, já que a probabilidade de que ela teste positivo é bem considerável.”

Com uma base mais consistente de informações sobre a doença, segundo Garcez, é possível associar tais sintomas com a infecção pelo coronavírus. “É possível identificar as pessoas com esse problema e realizar uma triagem. Com isso, além de oferecer uma atenção maior, é possível isolá-las para que o vírus não seja disseminado, uma vez que muitos pacientes com dúvidas acabam não tomando os devidos cuidados”, explicou o professor.

Recuperada da covid-19, a auxiliar de escritório Luana Cristina da Silva, de 37 anos, ainda não readquiriu o olfato. “Acabei me acostumando a não sentir o cheiro de basicamente nada. Atrapalhou bastante no dia a dia, pois não sinto o cheiro de comida ou de perfumes”, revelou a mulher, que também sofreu pela perda do paladar. “Todas as comidas eram iguais, não tinham cheiro e nem sabor”, justificou.

Segundo Garcez, não existe atualmente um tratamento que promova a melhora do paladar, mas existem algumas possibilidades, como o uso de um laser de baixa potência que possui efeito anti-inflamatório. Também é possível promover a introdução de alguns alimentos para que o próprio paladar volte a reconhecer o sabor dos alimentos. “No geral, a pessoa consegue se recuperar. Alguns processos levam mais tempo, mas isso tende a voltar ao que era antes. Normalmente, em infecções virais, a solução é ter paciência”, ressaltou o dentista.

Para a recepcionista Elenita do Nascimento Miranda, de 37 anos, que também testou positivo para a covid-19, o paladar e o olfato já foram recuperados, entretanto, o período para melhora levou mais de três meses. “Não sentia o gosto de absolutamente nada. Fiquei com medo de não ser mais a mesma coisa. Não tinha o que fazer, só esperar”, contou Elenita, que hoje valoriza mais o sabor dos alimentos.

O trabalho de pesquisa coordenado pelo aluno Felipe Silva e pelos professores Aguinaldo Garcez e Marcelo Sperandio, revelou que o número de pessoas com a covid-19 que não sentem mais o sabor “umami” é bem maior do que as que possuem outras síndromes respiratórias. O novo sabor é típico da culinária asiática e encontrado nas mesas dos brasileiros em cogumelos, tomates e carnes bovinas, por exemplo. Segundo o estudo, 25% das pessoas com outros problemas respiratórios não conseguiam sentir esse sabor, o que difere bastante dos 65% dos infectados pelo coronavírus.

Para Garcez, não há uma resposta exata para isso, já que se trata de uma doença relativamente nova. “Existem alguns fatores, como a diferença na quantidade de papilas ou de receptores, mas não é possível afirmar. Fato é que a presença desses sintomas está muito atrelada aos pacientes que testam positivo.” A pesquisa teve início em abril do ano passado com a ideia de um diagnóstico rápido e barato. “No começo, a recomendação era aguardar os sintomas graves para realizar o teste. O nosso foco era criar um mecanismo para obter um indício rápido, barato e simples para diferenciar os pacientes com alta probabilidade de covid. Realizamos as perguntas via questionário de 20 perguntas e o processo durou cerca de três meses”, revelou Garcez.

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João Lucas Dionisio/Correio Popular