Publicado 21 de Julho de 2021 - 10h28

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

Candidatos a vagas de emprego são atendidos no Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT) em Campinas: falta de qualificação profissional é uma das maiores barreiras

Kamá Ribeiro/Correio Popular

Candidatos a vagas de emprego são atendidos no Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT) em Campinas: falta de qualificação profissional é uma das maiores barreiras

Em meio a 219 mil desligamentos registrados nos últimos 16 meses, o que dá aproximadamente uma média de 13,6 mil empregos perdidos a cada mês no período, a Prefeitura de Campinas lança um "feirão" para oferecer 7.237 vagas em 28 cursos de qualificação gratuitos e on-line, com inscrições a partir de hoje no site do Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT), órgão ligado à Secretaria Municipal de Trabalho e Renda.

O anúncio do projeto "Feirão da qualificação" foi realizado nesta terça-feira, 20,  durante entrevista coletiva do prefeito Dário Saadi (Republicanos) transmitida pelas redes sociais. De acordo com o prefeito, esse foi o terceiro anúncio do Programa de Ativação Econômica e Social (PAES), lançado na semana passada pela Prefeitura, em comemoração ao aniversário da cidade como medida de estímulo e recuperação da economia afetada pela pandemia da covid-19.

"É uma grande satisfação anunciar essas vagas e poder contribuir com a capacitação e qualificação do trabalhador para que Campinas volte mais forte do que antes da pandemia. Esse projeto foi mais uma demonstração de articulação entre o poder público e empresas parceiras", disse.

Na semana passada, a Prefeitura anunciou duas ações. Uma delas foi o envio do projeto de lei à Câmara Municipal para a criação do Recomeça, um fundo em que o município aporta R$ 10 milhões e capta através de instituições financeiras R$ 130 milhões para micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais conseguirem linhas de crédito com tempo de carência e juros bem mais atrativos do que os do mercado.

Na sequência, foi anunciada a antecipação da primeira parcela do 13º salário para os funcionários da Prefeitura de Campinas e das empresas e autarquias ligadas ao poder público municipal, onde estão previstos a injeção de R$ 50 milhões na economia da cidade.

Segundo o prefeito, esse terceiro eixo do PAES, ligado à qualificação e capacitação, é um eixo considerado fundamental para a retomada da economia. "Qualificar as pessoas do ponto de vista do empreendedorismo para a retomada do emprego e da renda é fundamental neste momento", disse.

Dos 219 mil desligamentos registrados nos últimos 16 meses, 63% foram de áreas de serviços, e 23% da área do comércio. Os dados apresentados pela Prefeitura foram retirados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged.

Como funciona

A relação de cursos e as inscrições para as vagas oferecidas podem ser feitas a partir desta quarta-feira, 21, por meio do site do Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT) www.cpat.campinas.sp.gov.br. Os cursos oferecidos são nas áreas de tecnologia, negócios, saúde, manutenção e idiomas, e possuem duração entre 20 e 80 horas.

Para participar de qualquer um dos cursos os interessados precisam dispor de um celular com conexão à internet, um computador ou tablet.

De acordo com o secretário de Trabalho e Renda de Campinas, Gustavo Tela, o projeto visa atender a uma demanda identificada, além dos atendimentos convencionais do CPAT. O secretário explica que houve um aumento no microempreendedorismo formal e informal em Campinas, que se tornou uma opção para uma parcela expressiva dos desempregados, além da necessidade de venda em canais alternativos.

"As vagas surgiram a partir da identificação da necessidade e da busca de qualificação para grande parcela da população que perdeu o emprego formal durante a pandemia", disse.

Os cursos são ofertados por meio de parcerias com empresas e instituições da cidade. As 7.237 vagas estão divididas em 28 cursos, sendo 1.845 oferecidos pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), 592 vagas do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), além de 4,8 mil vagas em 250 cursos de programação de computadores, ofertadas por duas empresas tradicionais e reconhecidas no mercado, ligadas à área de tecnologia.

No caso de as vagas serem rapidamente preenchidas, o CPAT informa que prossegue com a articulação com outras empresas para que novas vagas sejam abertas, sendo até mesmo para turmas presenciais, a depender do contexto da pandemia. No primeiro semestre, o CPAT informou que ofereceu 1,9 mil vagas de cursos.

Busca por emprego esbarra na falta de qualificação

O vigilante Davino Artur da Silva, 55 anos, está há mais de um ano desempregado. Seu último emprego foi de vigilante numa empresa que encerrou as atividades logo que se iniciou a crise econômica por conta da pandemia.

Com apenas o primeiro grau escolar concluído e idade avançada para o mercado de trabalho, o vigilante faz parte de uma parcela da população de desempregados que sente na pele a dificuldade em se recolocar no mercado de trabalho.

Ele conta que esteve no CPAT procurando emprego. Mas foi embora sem conseguir nada. "É muito difícil conseguir uma recolocação na minha idade. Eu aceito qualquer emprego, mas as vagas exigem uma qualificação que eu não tenho e isso dificulta muito a vida", disse.

O vigilante conta que consegue sobreviver graças ao emprego da esposa. "Ainda bem que eu não pago aluguel, vivo em um barraco na Vila Teixeira, e o salário da minha esposa coloca comida na mesa. Mas é tudo muito difícil e às vezes a gente perde a esperança. Sou muito velho para as empresas e muito novo para me aposentar", disse.

Para o professor Cândido Ferreira da Silva Filho, da Faculdade de Economia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puc-Campinas), o fato de uma parcela de trabalhadores atingida pelo desemprego estar sem emprego há muito tempo e já ter perdido experiência e capacidade de ser recontratada pode atrapalhar a retomada da economia a curto prazo a depender do contexto da pandemia.

"Na medida em que a força de trabalho fica desempregada perde qualificação. Portanto, é necessário requalificar a mão de obra para possibilitar acesso em melhores condições ao mercado de trabalho", explica.

 

 

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