Publicado 20 de Julho de 2021 - 11h24

Por Cibele Vieira/ Correio Popular

O aposentado Valdeis Vidal Barreto e a motocicleta com a qual viaja por todo o Brasil:

Ricardo Lima

O aposentado Valdeis Vidal Barreto e a motocicleta com a qual viaja por todo o Brasil: "Não precisamos nos sentir velhos só porque temos idade"

A Organização Mundial de Saúde (OMS) pretende incluir, a partir de 2022, a velhice na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID). Essa intenção está sendo fortemente repudiada por entidades de todo país, inclusive na região de Campinas, que lançaram um abaixo assinado para contestar a iniciativa. A campanha Velhice não é Doença está sendo promovida em nível nacional, com apoio de entidades de peso como a Sociedade Brasileira de Gerontologia, o Centro Internacional de Longevidade, o Sesc SP, Instituto Itaú, entre outras.

Em Campinas, Marta Fontenele, mestre em Gerontologia e doutoranda da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, e Lucia Secoti, ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, estão na liderança do movimento. Esse coletivo ajudou a montar a carta-manifesto que será enviada com o abaixo assinado à OMS. Fontenele, que também é jornalista e ex-integrante do Conselho Municipal do Idoso (CMI-Campinas), salienta que a velhice é uma conquista, um marcador social que não pode ser levado para dentro de um catálogo de doenças.

A carta-manifesto, que circula pelas redes sociais e segundo os coordenadores já soma milhares de adesões, considera a inclusão da velhice no catálogo do CID "um retrocesso que contribuiria para acentuar globalmente preconceitos em relação à longevidade, além de criar estigmas que marcam profundamente a saúde emocional e psicossocial das pessoas idosas".

A forte reação de setores ligados ao envelhecimento demonstra a preocupação com o risco de se mascarar os reais problemas de saúde para a terceira idade, aumentar o preconceito contra idosos e interferir no tratamento e pesquisa de enfermidades, além da coleta de dados epidemiológicos. No Brasil, cerca de 3/4 das mortes ocorrem a partir dos 60 anos, por doenças cardiovasculares, oncológicas e neurológicas, entre outras. Se tudo for resumido à velhice, argumentam os especialistas, há riscos de se faltar informação e investimento específicos para o tratamento destas doenças.

O projeto de mudança

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) é publicado desde 1900 e a próxima edição - a de número 11 - deve ser divulgada em janeiro de 2022 e se tornar oficial em um prazo de três anos. Pela primeira vez, o catálogo será totalmente eletrônico. A equipe que trabalha nessa atualização recebeu mais de 10 mil propostas de revisão, informou o presidente da OMS, Tedros Adhanom, quando anunciou a edição da CID-11. Na questão da velhice deverá substituir o código de senilidade, usada na edição em vigor atualmente.

A Rede dos Programas de Pós-Graduação Interdisciplinares sobre o Envelhecimento (Reprinte), em documento de repúdio a essa mudança, alerta para as consequências negativas e duradouras da decisão. Entre elas, o estigma relacionado aos idosos (chamado etarismo ou idadismo) que alimenta a ignorância e a falta de conhecimento em relação ao processo de envelhecimento. E questiona, por meio de documento assinado pela professora Marcia Regina Cominetti, se a CID-11 terá novos códigos também para os sintomas da infância e adolescência, que são tão inerentes ao processo de desenvolvimento do ser humano quanto a velhice.

O que diz o Manifesto

O documento de repúdio, lançado com a participação de representantes de mais de 20 entidades, lembra que o envelhecimento da população é um fenômeno global e, no Brasil, foi especialmente acentuado nos últimos 20 anos, com tendência a acelerar ainda mais nas próximas décadas. A Organização das Nações Unidas (ONU) confirma que já somos a 5ª maior população de idosos no mundo, enquanto pesquisa realizada em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas aponta que, em 2040, 57% da força de trabalho brasileira terá mais de 45 anos.

Atualmente, as mais de 34 milhões de pessoas acima dos 60 anos são responsáveis por 23% do consumo de bens e serviços no país. O manifesto salienta também que a OMS, com o reconhecimento da ONU, estabeleceu a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), considerando o dinamismo e importância dos mais velhos mundo afora. Por isso, pondera que a proposta de instituir a velhice como doença é uma clara incoerência ao trabalho da entidade na área.

Diante desses fatos, as entidades que lançaram o manifesto argumentam que a velhice não pode correr o risco de ser interpretada como doença e contestam a inclusão pretendida. O documento é aberto a todas as pessoas, entidades e movimentos sociais que queiram assinar. Ele e outras informações sobre a campanha podem ser acessados no site https://ilcbrazil.org.br/.

 

 

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