Publicado 18 de Julho de 2021 - 11h21

Por Thifany Barbosa/Correio Popular

Yannahe Marques, que viveu um relacionamento abusivo durante 13 anos (à esq.) e a terapeuta Rose Rech

Acervo pessoal

Yannahe Marques, que viveu um relacionamento abusivo durante 13 anos (à esq.) e a terapeuta Rose Rech

Nesta última semana, o caso de agressão entre o cantor Iverson de Souza Araújo, conhecido como DJ Ivis, e a ex-mulher, Pamella Holanda, ganhou a atenção das mídias e a comoção gerada pela cenas divulgadas trouxe, mais uma vez, um importante tema à tona: a violência doméstica. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), mais de 105 mil denúncias desse tipo de crime foram registradas em 2020.

E muitas dessas denúncias acabaram em tragédia para as vítimas e famílias. Contudo, alguns casos se destacam pelo seu fim inesperado. Esse é o caso da história de Yannahe Marques, que viveu um relacionamento abusivo durante 13 anos.

Depois de cinco meses separada do agressor, Naná, como é conhecida, sofreu uma tentativa de feminicídio com tiro na cabeça. O ex-companheiro cometeu suicídio na sequência. Mas ela conseguiu sobreviver e superar o triste episódio, transformando essa experiência em um livro, no qual conta tudo o que passou.

De acordo com Yannahe, seu ex-marido era uma pessoa muita alegre e parceira, mas, logo no início do relacionamento, sem que ela percebesse, já ocorriam atitudes abusivas e violentas. Porém, para ela, essas pequenas ocorrências não tinham tanta importância, pois ele era bom pai e provedor.

“Começou com um tapa. E aquilo não me assustou tanto. Depois, teve outras vezes, mas pensei: ‘ele me bateu pouco, deixa para lá’. Quando me deu a primeira surra mesmo, comecei a compreender que estava apanhando de fato, já que ele me jogou em cima de uma mesa de vidro e tive o rosto cortado”, conta Naná.

A violência de seu agressor só começou a incomodá-la quando outras pessoas perceberam que algo estava acontecendo em seu casamento. “Fiquei com vergonha no trabalho, porque ele aparecia repentinamente e fazia cenas de ciúmes”, relata.

O medo das pessoas ao seu redor descobrirem o que ocorria na intimidade era muito grande. Principalmente porque acabava o perdoando após cada episódio de agressão. “Jamais contaria... Eu não era o tipo de mulher que apanhava... Bom, pelo menos era isso o que pensava”, relembra.

A situação ficou insustentável, segundo Naná, e, depois de ser agredida mais uma vez, decidiu dar um basta a situação. “Falei para ele me bater para matar, porque se eu saísse dali, colocaria ele na cadeia. Foi então que ele desistiu e não me agrediu mais”. Após esse confronto, ela saiu de casa e pediu a separação. Mal sabia que os problemas estavam só começando... No livro, ela conta sua trajetória para superar tudo o que aconteceu.

Culpa

O entendimento das mulheres sobre o que é a violência doméstica nem sempre é fácil e rápido. Muitas delas não se reconhecem como vítima, como explica a terapeuta Rose Rech. “Quando conheci a Naná, perguntei a ela quantas vezes havia apanhado. E ela me respondeu: uma. Em nosso segundo encontro, fui direta: disse que ela era vítima de um relacionamento abusivo. Ela negou agressivamente inicialmente.”

Segundo a terapeuta, todo o processo de recuperação e entendimento de Yannahe demorou cerca de quatro a cinco meses. Além disso, ela ainda se culpava pela morte do ex-marido.

Segundo Rose, muitas mulheres acabam se afastando dos amigos e família por conta do relacionamento tóxico. E muitas delas não se reconhecem como vítimas de violência, já que as agressões são sutis, como um grito, um tapa ou até mesmo um copo jogado contra a parede. “São coisas que nem sempre deixam marcas visíveis. São agressões silenciosas, por anos a fio, sem que de dêem conta disso”, afirma.

Segundo a advogada e co-fundadora pelo coletivo Mulheres pela Justiça, Thais Cremasco. “É importante a mulher denunciar e lutar por seus direitos”, afirma. “A vítima tem que entender o que é violência, conhecer os seus direitos e, principalmente, reconhecer uma violência”.

 

 

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Thifany Barbosa/Correio Popular