Publicado 18 de Julho de 2021 - 11h20

Por Ana Carolina Martins/Correio Popular

A pequenina Grazielle Rodrigues da Silva durante atendimento oncológico no Centro Boldrini

Ricardo Lima

A pequenina Grazielle Rodrigues da Silva durante atendimento oncológico no Centro Boldrini

A médica pediatra Sílvia Regina Brandalise dispensa apresentações. Um dos nomes mais significativos da história da saúde brasileira, esta mulher, mãe, esposa, completou 54 anos de carreira e 78 anos de idade, dos quais 43 dedicados ao Centro Infantil Boldrini, o maior hospital especializado no cuidado a crianças e adolescentes com câncer e doenças do sangue da América Latina. Isso porque, como ela mesma conta, não queria de jeito nenhum trabalhar em oncologia infantil, área em que seria preciso lidar diariamente com as chances de morte de crianças com câncer.

Entretanto, essa era mesmo a sua missão e a vida se encarregou de fazer com que mudasse de ideia. Em 1980, a médica fundou o Centro Boldrini e, com muita luta, transformou-o em um hospital de referência. Agora, essa mulher, que mantém a mesma fibra e entusiasmo em relação aos seus novos projetos, mais uma vez, recorre à sociedade, civil e empresarial, em busca de recursos para pesquisa e produção de medicamentos quimioterápicos nos modernos laboratórios de alta tecnologia do Centro de Pesquisa Boldrini, considerado por ela outra grande vitória em 2018. "Deixei um pouco o atendimento na ala hospitalar para me dedicar agora a esse centro de pesquisa, onde recebo estudantes e pesquisadores para, juntos, enfrentarmos o desafio de reverter a resistência das células malignas aos medicamentos quimioterápicos e introduzir novas imunoterapias e terapias-alvo em crianças e jovens.".

A doutora, que na última década viu os níveis de sobrevida das crianças com câncer aumentarem, batalha agora as pesquisas em farmacogenoma (ramo da farmacologia, com base em genômica, que estuda a resposta de pacientes a medicamentos e tratamentos de doenças considerando-se a sua variação genética e as diferentes respostas à ação das drogas na rotina assistencial aos pacientes). "Esse conhecimento científico ajudará a reduzir, e muito, os efeitos adversos da quimioterapia, propiciando um tratamento personalizado aos nossos pacientes."

A profissional médica, uma das brasileiras mais respeitadas na área médica mundial e indicada a integrar o seleto grupo Mulheres Inovando a Área da Saúde (W.I.T.H. -Women Innovating Together in Healthcare), que reúne 63 mulheres expressivas no mundo em tecnologias inovadoras, e que coleciona mais de 120 prêmios e reconhecimentos no Brasil e no Exterior, esteve na redação do Correio Popular, no último dia 9, em visita ao presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni. Seu objetivo agora? Chamar a sociedade e empresários mais uma vez para unirem-se a ela em prol da vida. E não é pouco o que ela sonha: 100% de remissão dos casos de oncologia pediátrica.

Para isso, a médica acaba de obter, agora em junho, junto à Fundação Banco do Brasil, um acordo de cooperação técnica e financeira, que oferece incentivos tributários aos doadores, pessoas físicas e jurídicas. Os aportes serão feitos à Fundação, mas diretamente na cota personalizada da parceria com o Boldrini. Para quem quiser doar e saber mais sobre essa nova empreitada da médica, consulte o site: https://boldrini.fbb.org.br/.

 

A médica pediatra Sílvia Regina Brandalise visita a sede do Grupo RAC, onde concedeu entrevista exclusiva ao Correio Popular para falar de seus projetos junto à saúde infantil e juvenil

Agora, com a palavra, a dra. Sílvia Brandalise.

Dra. Sílvia, qual foi o impacto da covid-19 nos pacientes atendidos no Centro Boldrini?

Antes do Boldrini, a chance de cura de crianças - aquelas com idade abaixo de 19 anos - era de menos de 10%, na década de 70. Com o Boldrini, esse índice chegou em 2020 a 77% de cura. Cerca de 10 mil crianças ingressaram nele, e mais de 6 mil estão vivas. Recentemente, participei de uma live sobre câncer com a Secretaria Municipal de Saúde de Campinas e soube que a demanda de pessoas com câncer na cidade está em fila de espera. Isso é um absurdo! Não é possível ter demanda reprimida desse tipo de doença. No Boldrini, a única espera que tem lá é para atender ao telefone, e, mesmo assim, é rápida. A covid-19 não trouxe impacto para o Boldrini. Talvez, apenas na questão dos voluntários. Foi decidido que seria melhor eles ficarem em casa nesse período restritivo. Mas o hospital sem os voluntários é uma tristeza... Eles brincam, contam história, fazem desenho... Por sorte, o hospital tem pinturas lindas nas paredes, o que minimiza um pouco essa falta. Outra medida foi a de estabelecer apenas um acompanhante por criança. Para atender as crianças com covid abrimos uma unidade com nove leitos. Esse é apenas mais um vírus entre outros vírus e parasitas oportunistas, que nos traz uma grande preocupação, porque nossos pacientes apresentam imunodeficiência ou baixa imunidade. No total, tivemos uns 40 casos de covid-19 e praticamente todos se recuperaram. Apenas um adolescente, com tumor cerebral, obeso e diabético não resistiu e morreu. Aprendi com Fernando Pessoa a ser inteira em tudo o que faço: "Sê todo em cada coisa".

O que é possível prever nesta área para o futuro?

Você sabe quando começa o futuro? Ontem. Quero 100% de cura para o câncer em crianças no Brasil. No Canadá, por exemplo, eles já conseguiram. Eu ouso pensar que o câncer pode ser totalmente prevenido na criança a partir de uma série de estudos que comprovem os impactos e a ligação existente entre os fatores ambientais e o aparecimento da doença. Um consórcio internacional da ONU (Organização das Nações Unidas) - que chama o Brasil de Campinas - convidou-nos para uma reunião e nos entregou uma tarefa. Esse consórcio, cuja coordenação é da Austrália, pretende fazer um estudo envolvendo um milhão de gestantes de várias nações, que serão acompanhadas, com laudos validados, que demonstrem os resultados da exposição materna e paterna no ambiente em que vivem. Acompanhar também essas crianças até os 18 anos. Campinas ficou com a responsabilidade de juntar 100 mil gestantes. Já estamos com 10 mil, mas quero acelerar esse processo nos centros de saúde.

Qual o propósito do Centro de Pesquisa Boldrini?

A ideia é mergulhar na célula. Fazer o sequenciamento genético, um estudo massivo para conhecer todos os genes que estão mutados e de que maneira podemos trabalhar com uma terapia-alvo, com a imunoterapia do câncer. Então, o centro é voltado apenas para pesquisas cujo foco é o câncer da criança. Há um ano, existe um grupo internacional, com sede nos Estados Unidos, no Tennessee, que estuda câncer infantil e o Boldrini foi convidado a participar dele. Vejo isso como tarefa. O trabalho de farmacogenética pode nos ajudar a prescrever o melhor medicamento para cada paciente. Essas novidades chacoalham a nossa cabeça. Elas exigem a reunião de vários profissionais de áreas diversas como estatísticas, biomedicina, biologia molecular. É um outro universo esse que se abre, novos interlocutores... Assim vamos aprendendo cada vez mais.

 

Centro Boldrini virou uma referência na pesquisa de novos tratamentos contra o câncer no Brasil

E quem trabalha lá?

Recebemos jovens pesquisadores. Hoje temos mais de 10 linhas de investigação em pesquisas e encaminhamos esses jovens para integrá-las. Contamos também no Centro com um biotério, o maior da região, onde cabem de 10 a 15 mil camundongos imunodeficientes para estudos e pesquisas. Só que, aqui no Brasil, a pesquisa não pode depender de verba pública. Volta e meia o governo corta os recursos, paralisando importantes trabalhos. Em vista disso, preciso de um fundo de recursos que possa garantir a manutenção das pesquisas e as atividades dos 200 pesquisadores que queremos ter trabalhando no Centro. Um país que não tem uma inteligência criadora, não se desenvolve. As drogas que temos disponíveis no Brasil são de fora. Os insumos vêm do Exterior e aqui eles são apenas envasados. Nós queremos pessoas que descubram drogas novas e que forneçam essas informações a indústrias brasileiras e universidades, de forma que possam ser desenvolvidos medicamentos brasileiros. Para ajudar a gerir esse fundo patrimonial, fizemos uma parceria com a Fundação Banco do Brasil, que, a custo praticamente zero, vai administrar os recursos doados por pessoas físicas e jurídicas, as quais terão, em contrapartida, benefícios fiscais e tributários para essas doações.

E como está sendo acompanhar esse trabalho?

Há um ano saí da atividade diária do ambulatório, de fazer as visitas. Quando chego ao Centro e vejo toda aquela meninada empolgada, sinto muita gratidão. E eles trazem um outra linguagem, a da biologia molecular. Há um vale entre a medicina tradicional e a ciências biológicas, mas isso não pode ser mais assim. São áreas que precisam caminhar de mão dadas. Hoje existem vários grupos de estudos consolidados em várias vertentes. Já estamos desenvolvendo duas patentes de medicamentos em parceria com universidades de dois estados do Sul do País. O que nos move é um princípio único: aumentar as chances de cura do câncer. O objetivo não é ganhar dinheiro, é ganhar mais vidas. Queremos reduzir a incidência de câncer na sua origem. Entender o aumento de má formação congênita em crianças, que está em curva ascendente. Porque a malformação é prima-irmã do câncer. Ambas atuam nos genes, alterando o crescimento das células. Fizemos inclusive uma Declaração dos Direitos Ambientais da Criança que foi publicada em jornais internacionais, como o Le Monde, da França.

Os agrotóxicos podem ser enquadrados como geradores dessas patologias?

Agrotóxico, hoje, é uma palavra demodê. Agora, usa-se falar em fitossanitário ou fitoprotetor. Isso para mascarar exatamente o que eles são e minimizar os riscos à saúde que produzem. Eu os chamo mesmo de inseticidas, veneno. Quando pergunto a uma mãe se ela usa inseticida em casa, ela responde que não. Mas, então, percebo que é só uma questão de palavra e torno a questionar: 'Como estão as baratas e formigas na sua casa?' Porque casa sem barata, formiga, é casa envenenada. Peço a essa mulher que me traga a relação dos produtos que ela costuma usar na limpeza da casa. Existe um produto aqui no Brasil, chamado Protector, mas isso é uma denominação para disfarçar o que há por trás disso. Quando ligados na tomada, os aparelhos aquecem e liberam uma substância que paralisa o sistema nervoso do inseto e ele morre.

Como se combate isso?

Com trabalho educativo. Quando você usa desodorante em aerossol - eu não compro há muito tempo -, está usando um derivado de benzina no seu corpo. Então, é preciso trabalhar esses conceitos com a mãe, para que ela deixe de usar todos esses venenos: glifosato, tolueno... O que está acontecendo no mundo? Qual a relação entre o autismo e o retardo de desenvolvimento e os metais pesados, os glifosatos da vida? Imputaram-me a fama de ativista por ter esse tipo de proposta, mas não sou ativista do meio ambiente. Sou contra a criança ser exposta a um ambiente insalubre. Ela não deve nem mesmo passar repelente na pele. Tudo o que mata bichos, envenena o homem. O animal é mais inteligente que o homem. Quando percebe o veneno, ele abandona aquele ambiente. O homem, não. Continua lá, mesmo compreendendo que aquilo lhe faz mal.

O governo brasileiro parece não ter muito interesse nesse assunto...

Publicações importantes, como uma da Califórnia (EUA), divulgou o mapeamento de uma área, na qual foi constatado que a população que está a 4 mil metros de uma plantação tem maior incidência de tumor cerebral do que acima desta distância. Isso lá nos Estados Unidos, um lugar onde quem usa defensivos agrícolas é obrigado a informar ao governo sobre o que está usando e em quais quantidade. Aliás, no próprio rótulo está informado os subtipos de tumores que eles podem gerar e quais as substâncias relacionadas a eles. No Brasil, por exemplo, temos um afluxo de casos de câncer cerebral no estado do Mato Grosso. Se aqui não se conhece muito para estudar isso, é só fazer uma ponte com os institutos internacionais e ir em frente com a investigação. E quando a gente pede, eles, do Exterior, ajudam, cooperam, agregam.

O que a senhora gostaria de ver ou realizar ainda na sua área de atuação?

Quero a prevenção. Quero reduzir ao máximo o câncer em crianças. Não há dúvidas - a partir de estudos epidemiológicos realizados em outros países - de que a questão ambiental está no centro do surgimento de novos casos de cânceres, malformações, entre outras patologias. Não podemos ignorar isso. Precisamos colaborar com a informação, para que possamos ter uma forma mais sustentável de desenvolvimento. Nós sabemos que a multinacional, cujo slogan é "Se é ........, é bom", vende seus produtos aqui no Brasil, mas na Europa não. Sabe por quê? Porque lá existe definição de quais resíduos químicos são admitidos na água, por exemplo, e em que concentrações. Naquele continente não chega a 10 resíduos, enquanto aqui no Brasil são 27 resíduos químicos, dos quais a metade deles já foi terminantemente proibida lá. E as concentrações aqui, chegam a ser mil vezes mais altas que no continente europeu.

Uma última mensagem, dra. Sílvia?

Sim. Como bem o disse Martin Luther King, "O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons". Acredito que a felicidade é um tipo de alienação, porque, como podemos ser felizes vendo o outro infeliz? Qual é o seu propósito de vida? Não vejo como possa ser algo diferente do coletivo. E é dentro desse coletivo que podemos e temos de contribuir. Eu não me motivo com o foco naquilo que não temos. O que me motiva é aquilo que eu tenho a obrigação e quero fazer. Se não assumirmos que é nossa obrigação incitar esses estudos comparativos, sistematizados, com pessoal competente, que possam comprovar essas situações, não há por que continuar...

 

Escrito por:

Ana Carolina Martins/Correio Popular