Publicado 16 de Julho de 2021 - 13h59

Por Mariana Camba/ Correio Popular

A estudante do ensino médio, Sophia Pozzuto Montanhini, de 17 anos (em segundo plano) e a mãe e professora, Solange Loureiro Pozzuto (à frente): faltou uma discussão com a coletividade

Kamá Ribeiro

A estudante do ensino médio, Sophia Pozzuto Montanhini, de 17 anos (em segundo plano) e a mãe e professora, Solange Loureiro Pozzuto (à frente): faltou uma discussão com a coletividade

A expansão do Programa de Ensino Integral (PEI), divulgada pelo Estado nesta semana, gerou críticas e reclamações entre os alunos, professores e especialistas da área da educação. Para eles, o sistema de aprendizagem divulgado é excludente por não atender a todos os perfis de alunos das escolas estaduais.

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) avaliou como absurda a ampliação do PEI devido aos moldes da implementação do sistema, que, segundo a entidade, não contou com ampla discussão entre os alunos e professores das escolas que vão passar a contar com o ensino integral.

Segundo a dirigente da Diretoria Regional de Ensino (DRE) de Campinas Oeste, a professora Rossenilda Gomes Farias, na região de Campinas, 137 escolas estaduais vão aderir ao ensino integral a partir do próximo ano. Na região Oeste do município, 11 escolas vão adotar o sistema PEI. Na Leste, serão sete novas unidades de ensino com o regime integral. No total, serão 39 escolas estaduais nesse formato na cidade.

O objetivo do programa, de acordo com Rossenilda, é empregar o tempo a mais para ajudar o aluno a construir um projeto de vida, com foco no desenvolvimento socioemocional dele, mediante empatia, escuta e fala, para que o estudante possa argumentar melhor e se posicionar na sociedade.

O sistema de ensino integral teve início em 2012, quando 16 escolas adotaram o novo formato de aprendizagem no Estado. No momento, há 1.077 escolas estaduais nessa modalidade e em 2022 serão 1.855.

Para Suely Fátima de Oliveira, diretora Estadual da Apeoesp, o governo estadual aderiu à expansão do sistema sem pesar as consequências, a “qualquer custo”. “Somos contra esse formato de ensino da maneira como ele foi estabelecido pelo estado. O debate que foi promovido nas escolas que adotaram essa mudança ocorreu sem a participação de todos os alunos e professores. Foi uma discussão fechada e centralizada, apenas com a visão do governo. Houve um boicote em relação à presença do sindicato nessas reuniões”, afirmou Suely.

Segundo ela, essa metodologia não atende aos alunos que precisam trabalhar, fazer cursos extracurriculares ou que já possuem determinadas obrigações durante o período em que não estão em sala de aula. “Por isso, esse sistema é excludente. Ele não leva em consideração a realidade do coletivo que vai atender”.

De acordo com Suely, o sistema integral também faz com que o trabalho do professor seja mais exaustivo, o que acarreta em uma sobrecarga. “Para atrair o docente é oferecida uma gratificação, além da remuneração. Mas não é um trabalho saudável, visto que depois vem a exaustão e a desistência do profissional”, explicou.

Outro problema grave, acrescentou, é a transferência dos alunos. “Os estudantes que não se adequarem à modalidade integral vão precisar mudar de escola. Entretanto, muitas vezes, a opção do aprendizado regular será encontrada em escolas mais distantes. Isso pode levar à desistência desses jovens em seguir com os estudos”, alertou. Suely ressaltou que o Estado deveria investir de outras maneiras na educação pública, como a melhoria na formação dos professores e de seus salários. O que o Estado propõe, opinou, não melhora em nada a vida do aluno.

De acordo com o docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Guilherme do Val Toledo Prado, o PEI é reflexo de um processo econômico no âmbito da educação. “Principalmente para o ensino médio, a mudança é trágica, devido à falta da ampliação do repertório cultural dos estudantes. Esse seria o momento de ofertar cada vez mais diversidade informativa e não de diminuir”, ressaltou. Para ele, a escola integral é importante no contexto cultural do brasileiro, mas em um formato que ofereça o aprendizado em diferentes áreas de conhecimento. Nesse programa desenvolvido pelo Estado, disse o docente, a proposta é de um projeto de trabalho sem repertório didático amplo.

Segundo Prado, o PEI propõe pequenos módulos de ensino visando atender a uma necessidade emergente e imediata dos estudantes. O que está sendo oferecido, afirmou o professor, é algo raso diante do que seria necessário.

“É um exemplo da uberização da educação. O que está sendo proposto diante da ampliação do horário escolar não é uma educação de qualidade. O que o governo do Estado não quer fazer é gastar. Mas para ter qualidade na educação pública é preciso investir", concluiu.

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Mariana Camba/ Correio Popular