Publicado 22 de Junho de 2021 - 11h43

Por Gilson Rei/Correio Popular

Prédio que abrigava o extinto hospital Coração de Jesus, nas imediações da antiga rodoviária: falta de políticas públicas torna aquele ponto de Campinas pouco movimentado e muito perigoso

Kamá Ribeiro/Correio Popular

Prédio que abrigava o extinto hospital Coração de Jesus, nas imediações da antiga rodoviária: falta de políticas públicas torna aquele ponto de Campinas pouco movimentado e muito perigoso

A região da antiga rodoviária de Campinas, que inclui trechos das avenidas Barão de Itapura e Andrade Neves, além de ruas próximas, está entre os vazios urbanos que apresentam claros sinais de degradação no chamado Centro estendido de Campinas. Assim como outras áreas da cidade, esta também espera, há décadas, por ampla política de revitalização.

O quadro tonou-se ainda mais grave por causa da demolição do antigo terminal rodoviário, ocorrido há 11 anos, e da desocupação do prédio histórico do então hospital Coração de Jesus, que está em péssimo estado. Nas imediações desses pontos, a vida marginal ganha presença.

Conforme afirmou o arquiteto e urbanista Ari Fernandes recentemente no Correio Popular, a política urbana atual demonstra que as ações do Poder Público estão voltadas para o incentivo ao espaçamento da população, por meio de investimentos imobiliários e construção de condomínios verticais em bairros mais distantes, deixando a região central cada vez mais desocupada e abandonada.

Dados atuais revelam que a densidade demográfica em Campinas é de 50 habitantes por hectare, marca que representa apenas um terço do índice considerado ideal, que é de 150 habitantes por hectare. "Ter uma população mais densa na região central cria um movimento que facilita as pessoas chegarem ao trabalho e à escola, reduzindo tempo de deslocamento e custo de vida", afirmou Fernandes.

"O Centro povoado por moradores revitaliza o comércio e os serviços, atendendo à tendência mundial de trabalho próximo da moradia. O Estatuto das Cidades disponibiliza ferramentas para incentivar este adensamento na região central", acrescentou o urbanista.

Na região da antiga rodoviária, o vazio urbano provoca um ambiente hostil, de pouca segurança e muita degradação. Um exemplo é o prédio que abrigou o antigo hospital Coração de Jesus. O imóvel instalado na Rua Salustiano Penteado está desocupado há 22 anos e é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc). Embora um segurança particular tome conta do prédio, a inexistência de atividade no local torna aquele ponto ermo e perigoso, principalmente à noite.

O proprietário do imóvel não foi localizado pela reportagem para informar o que será feito no local. A Rede D'Or, que investe na construção de um complexo hospitalar na região da antiga rodoviária, informou que não adquiriu o prédio para uso futuro, conforme boatos surgidos no ano passado. Isabel Cristina Firmino, moradora da região, disse que viu o hospital funcionando na década de 80, e que está revoltada com a situação de degradação.

"É uma vergonha para Campinas ver um bem histórico e de referência fechado em plena pandemia. Deixaram roubar tudo lá dentro nos últimos 20 anos. Depois, colocaram um segurança para vigiar as traças. O dono deste prédio tinha que dar uma utilidade urgente para o espaço porque este abandono deixa a região vazia e perigosa para qualquer pessoa que passa. Muitos assaltos são registrados", reclamou.

Indignada com a situação, Fátima Aparecida Sanches Alvarenga, enfermeira que trabalhou no hospital, disse que é um absurdo ver o edifício sem destinação há 22 anos. "É lamentável ver este prédio se degradando em plena pandemia, quando tantas pessoas precisam ser atendidas", comentou.

"O hospital era uma referência na cidade e fechou de repente. O dono do imóvel parece que não está preocupado. Podiam reabrir para abrigar algum laboratório de análises; para atendimento médico de clínicas; ou qualquer outra atividade de saúde", sugeriu.

Segundo Fátima, o prédio tinha uma estrutura exemplar para o atendimento pediátrico, e muitas peças históricas foram roubadas ao longo dos últimos anos. "Eu lamento muito, pois o corpo clínico era excelente e a estrutura era linda. É uma pena, pois faz parte da história da cidade. Deixaram levar os azulejos portugueses e até uma estátua de Jesus. Eu sinto tristeza e muita saudade daqueles tempos", desabafou.

Histórico

Em péssimo estado, o antigo prédio do Hospital Coração de Jesus tem muita história. Ao todo, são 3,6 mil metros quadrados de área construída em um terreno de 7,5 mil metros quadrados. A pedra fundamental da construção foi lançada em 25 de maio de 1919 pelo então prefeito de Campinas, Heitor Penteado.

O edifício abrigaria inicialmente as instalações do Hospital da Sociedade Portuguesa de Socorros Mútuos.

Entre 1966 e 1967 houve a integração da Sociedade de Socorros Mútuos com a Real Sociedade Portuguesa de Beneficência, que incorporou o prédio. Em 1973, foi criado o Hospital Materno-Infantil Coração de Jesus que encerrou suas atividades em 1999, com dificuldades financeiras. O imóvel foi vendido e não foi mais ocupado deste aquela época.

O edifício conservava detalhes que caracterizaram algumas obras antigas de Campinas, construídas por volta de 1919, com azulejos portugueses similares aos utilizados no Palácio dos Azulejos. Possuía portas de madeira trabalhada, pisos com desenhos em mosaico, escadas com corrimão em madeira e ornamentações em gesso no teto da sala principal. Na fachada do prédio, destacavam-se a varanda de entrada e o balcão no andar superior.

Escrito por:

Gilson Rei/Correio Popular