Publicado 20 de Junho de 2021 - 11h34

Por Ana Carolina Martins e Tássia Vinhas

O presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, Ualid Rabah, na sede da Rede Anhanguera de Comunicação, onde concedeu entrevista exclusiva ao Correio Popular

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O presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, Ualid Rabah, na sede da Rede Anhanguera de Comunicação, onde concedeu entrevista exclusiva ao Correio Popular

"Nós estamos tentando demonstrar que em um conflito armado uma série de mitos é criada. Isso porque a guerra geralmente é contada pela perspectiva do vencedor na contenda." É dessa maneira que Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) entende a história da luta armada entre israelenses e palestinos, compreendida de maneira muitas vezes deturpada.

Filho de pai e mãe palestinos que chegaram ao Brasil em 1960 e 1965, respectivamente, Rabah cursou economia em Toledo (PR), sua cidade natal, e direito na Universidade Estadual de Maringá. Além disso, militou nos movimentos estudantil e sindical, e, durante oito anos, ocupou a cadeira árabe no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, os seis últimos como titular. Trabalhou no comércio com a família, foi bancário, operário na construção civil e jornalista por 11 anos. Na política, exerceu o cargo de chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Paraná. Hoje, é empresário na mesma cidade onde trabalha e reside há 20 anos, Maringá.

Para ele a criação do Estado de Israel em maio de 1948 foi e continua sendo ilegal e imoral e a guerra de 1967 só foi necessária por Israel, porque toda a Palestina ainda não havia sido conquistada. Durante a visita ao presidente-executivo da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), Ítalo Hamilton Barioni, na redação do jornal Correio Popular, Ualis Rabah expôs sua compreensão sobre os conflitos históricos envolvendo a nação judia e a necessidade de acabar urgentemente com a intolerância religiosa que ainda persiste.

Sobre a presença dos árabes aqui no Brasil, de onde eles são?

A arabidade no Brasil, ela é levantina, ou seja, ela é palestina, libanesa e síria, o chamado crescente fértil, mas, exclusivamente, desses três países. Excetuando-se o epicentro que criou o império a partir da Síria, uma parte do Império Babilônico, o resto não é. O restante foram como cidades-estado: a Palestina juntamente com Jordânia, Líbano - claro, o Líbano tem um império marítimo -, mas eram cidades-estados, as primeiras cidades-estados do mundo.

Qual é a sua visão étnico-antropológica da região?

Uma coisa bastante curiosa e, dependendo de como se vê, até um pouco bizarra. O povo palestino é o único na face da terra e, possivelmente, em toda a história conhecida, registrada, que quando chega a uma mesa, precisa explicar que tem o direito de estar ali. Isso já é estranho, mas não basta. Ele também tem de lembrar que está há 10 mil anos naquele lugar. Não basta dizer apenas que está ali, naquela casa, desde a geração de seu avô. Não basta chegar como qualquer um de nós aqui com título em cartório e afirmar: 'Eu comprei esta casa. É minha, comprei e está resolvido'. Isso nos faz, permanentemente, ter que remontar a História Antiga pré-Cristo, pré-Idade do Bronze... Ao mesmo tempo, é encantador, porque nos força a conhecer uma parcela daquilo que pode informar que a Palestina é praticamente a primazia do início da civilização humana, considerando-se que Jericó é a cidade mais antiga do mundo, com até 10.700 anos.

E qual a sua análise sobre a Declaração Balfour, documento do governo da Grã-Bretanha que respaldou pela primeira vez, em 1917, o estabelecimento de um lar nacional ao povo judeu na Palestina?

O Alid Halid, que na minha opinião talvez seja o mais importante intelectual (muçulmano anti-imperialista) a examinar essa problemática toda da Declaração Balfour e suas consequências, questionou em uma conferência que ele fez em Londres para lembrar os 100 anos do início da Primeira Guerra: "Como os ingleses puderam, com toda a sua inteligência, toda a sua capacidade geopolítica diplomática, fazer uma bobagem dessas?" Por mais que eles tivessem interesses, eles poderiam ter feito isso de outra maneira, aliando-se às elites árabes mesmo, por exemplo. Mas o domínio britânico na época era tão avassalador, que eles exageraram na dose. Disso decorreu, finalmente, o início da implantação do projeto colonial, quando houve a Conferência de San Remo em 1920, em que a Itália é admitida para dividir o espólio, ganha a Líbia e a Abissínia, hoje Eritréia e Etiópia, e os franceses definem o que vai ser a dominação direta pelos chamados mandatos de protetorado outorgados pela antiga Liga das Nações. Foram então os ingleses que, malandramente, definiram o que seria a Palestina que nós conhecemos hoje, que é identificada como Palestina histórica.

O que esse mandato britânico na Palestina define?

Em primeiro lugar, que a Palestina seria colonizada por estrangeiros de fé judaica, levados para lá pelos ingleses, e quem administraria seria o mandato britânico, sob protetorado. Também admitiu na administração civil a agência judaica, constituída exclusivamente para promover a colonização, portanto, era uma agência colonial, e a agência judaica foi também uma empreitada colonial, incorporando a administração civil da Palestina ao fundo nacional judaico, que financia todo esse projeto colonial, travestido, na maior medida, no banco anglo-palestino. Esse arranjo é negado aos palestinos, que não podem participar da administração civil da Palestina. A partir daí começa o processo de colonização mediante imigração. Os palestinos em 1922, de fé judaica, já tinham 3% do território. Depois de todas as rebeliões palestinas, de 1936 a 1939, que acontecem, começa a grande rebelião, a grande revolta, a grande luta anticolonial palestina, contra, é claro, o Império Britânico.

Como termina esse embate entre Davi e Golias?

A Segunda Guerra Mundial e os ingleses voltam-se para a resolução do problema do mandato, se acontece ou não acontece o lar nacional judeu, visto que os palestinos não haviam saído da Palestina. Continuam ali com até 75% da população, ou seja, nesse momento, já são palestinos, para efeito da discussão, aqueles que não professam o judaísmo, e detém entre 94% e 95% da posse ou da propriedade, segundo o censo britânico e os dados da ONU (Organização das Nações Unidas). Então, todo o projeto sionista patrocinado pelos ingleses fracassa. Os palestinos continuam ali e a aquisição da terra não acontece. Pouca gente fala disso, mas o projeto colonial sionista foi um dos maiores fracassos da história humana, mesmo tendo o maior império moderno conhecido, que foi o inglês. O que eles iam fazer? Não levaram nada, foi um fracasso. Então eles jogaram a questão nas mãos da ONU: "Olha, tem que resolver isso daqui".

O que a organização mundial faz?

A ONU apresenta um plano de partilha. Uma comissão é constituída para isso e ocorre uma votação interna na qual a proposta de partilha é vencida por pouco e vai a plenário, na assembleia geral, no dia 29 de novembro de 1947, numa sessão que durou apenas três minutos: decidiram partilhar a Palestina. Osvaldo Aranha (chanceler brasileiro) presidiu a sessão. O Brasil votou a favor nos seguintes termos: para aquilo que era interpretado como o Estado da Palestina, numa Palestina partilhada, 42.9% do território para aqueles que compunham cerca de 70% da população e detinham 95% do território. E para o futuro Estado judaico, que representavam, quando muito, 30% da população e detinham no máximo 6% do território, lembrando que metade disso já era de palestinos fé judaica, 56.5% do território. 0.6% ficou como área internacionalizada. Os palestinos, aparentemente, não aceitam essa injustiça. Eu não aceitaria. Ninguém nessas mesmas condições aceitaria.

E quando termina o mandato britânico?

O mandato britânico terminaria exatamente à meia-noite do dia 14 de maio de 1948, às 16h, quando Israel se autoproclama Estado. Era uma sexta feira, sagrada para os muçulmanos. Dia 15 de maio começou a limpeza étnica em 774 localidades palestinas, incluindo cidades, vilas, assentamentos camponeses, tudo o que se possa imaginar. Elas são invadidas, 531 são eliminadas da face da Terra, até 60% da população da Palestina histórica é morta ou expulsa. Setenta massacres são cometidos e até 15 mil palestinos são mortos. Incontáveis milhares de feridos e mutilados e 76% da Palestina histórica é tomada, 85% da população palestina é expulsa, o que resulta nos atuais 6 milhões de refugiados palestinos, aproximadamente 43% da população palestina hoje no mundo, incluindo este que vos fala. E em 26 de maio de 1948, formações irregulares e de voluntários dos chamados países árabes entram em defesa dos palestinos. Então, não há guerra árabe-israelense, ninguém começou esta guerra, supondo-se que ela merece ser chamada de guerra.

O sr. teria alguns números para exemplificar a gravidade desse confronto?

Do lado árabe, tivemos de piso inicial das conflagrações com 29.100 homens e o teto, em março de 1949, 50.500 homens, com até seis comandos. Nenhum foi unificado e o comandante máximo, um coronel-general inglês, que estava estacionado na Jordânia. Ou seja, nenhum árabe comandava. O lado israelense iniciou com um só o comando unificado, com 29.687 homens e terminou com 117.500 homens. Onde está o Davi e onde está Golias? Nós estamos nessa conversa tentando demonstrar que há uma série de mitos. A guerra geralmente é contada pelo vencedor. Disso tudo resulta, finalmente, na ida à Palestina de um sujeito chamado Folk Bernadotte, um sueco, enviado especial da ONU, para verificar o que acontecia de verdade. Ele vai a Ramallah e descobre que todos eles foram despossuídos e expulsos e envia o relatório para a ONU. É deste relatório que resultou depois o assassinato de Bernadotte por um grupo comandado por Yitzhak Shamir, que depois veio a ser líder israelense. E resultou também na resolução 194, de dezembro de 1948, conhecida como resolução dos direitos de retorno dos Palestinos. O documento afirma que eles devem retornar e ser compensados, com a devolução de tudo o que foi tomado. Porque não tratava apenas de uma questão de expulsão, mas de sequestrar o Produto Interno Bruto (PIB) de um país e torná-lo seu, assim como todas as linhas férreas, estradas, olivais, indústrias, escolas... tudo isso foi tomado. Um roubo de um PIB inteiro, milenar, destruição de cidades, crimes de lesa-humanidade. Esta resolução 194 é emblemática e ela está aprovada.

Como foi a admissão de Israel como estado-membro da ONU?

Lamentavelmente, em 1949, Israel é admitido como o 56º estado-membro da ONU. O Brasil só veio a reconhecer isso em 1950, mas os Estados Unidos e a União Soviética já tinham reconhecido a autoproclamação. E a União Soviética já havia armado Israel indiretamente - mas diretamente, visto que ordenou aos tchecos que vendessem armas modernas a eles, inclusive aviação de guerra e, com isso, os israelenses fazem uma limpeza étnica. Sem isso, eles não teriam conseguido. No entanto, não conseguiram tomar todo o território e isso explica 1967. A resolução 194 é cláusula condicionante para a admissão de Israel como estado-membro, o único estado-membro da ONU sob cláusula condicionante. E não acatou. Então, não acatou a resolução 181, nem a 194, nem mesmo a própria declaração Balfourt, que não falava em limpeza étnica, ao contrário, alertava de que isso não poderia ser feito. Sob qualquer aspecto, legal, colonial, Israel é ilegal e imoral, é um projeto colonial, um projeto de apartheid e de limpeza étnica. Isso tudo nos coloca hoje aqui, defendendo que é apartheid porque a maior organização dos direitos humanos de Israel denuncia, e não denuncia, que é só nos territórios ocupados que há apartheid em toda a Palestina histórica. Isso tudo que nos coloca aqui. A guerra de 1967 só foi necessária por Israel, porque não tinha conquistado toda a Palestina em 1948 e é isso que coloca atualmente a Faixa de Gaza sob o bloqueio desumano desde 2007.

Vocês recebem relatos de árabes que ainda são atacados por causa de intolerância religiosa?

Sim, não são poucos. As mulheres especialmente, porque elas se vestem mais caracteristicamente. Um exemplo foi o sheik da mesquita de Curitiba, que estava caracterizadamente vestido porque ia para uma cerimônia fora da mesquita e o taxista mandou que ele saísse assim que entrou no carro.

Agora, com tanto ódio, qual seria a solução pra convivência conjunta?

Acho possível uma sim. Mas não será nada fácil. Não se pode infantilizar isso, mas tem que ocorrer um processo. O processo de reconciliação na África do sul, o fim do apartheid lá, exigiu um processo posterior de reconciliação. Então é possível, temos defendido isso. Tudo é possível de se negociar na vida. Uma vida civilizada é possível ser compactuada. O que não pode ser pactuado é a destruição da verdade, da história. Para que a Alemanha tenha direito de ser a potência econômica, industrial, política, motor da Europa, ela não precisa negar o nazismo, não precisa apagar parte da sua história para dizer que o povo está lícito a viver no concerto das nações civilizadas.

Escrito por:

Ana Carolina Martins e Tássia Vinhas