Publicado 17 de Junho de 2021 - 12h00

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

Pesquisadora trabalha no laboratório da Força Tarefa Unicamp contra a Covid-19, onde serão realizados os exames para mapeamento da doença

Kamá Ribeiro/Correio Popular

Pesquisadora trabalha no laboratório da Força Tarefa Unicamp contra a Covid-19, onde serão realizados os exames para mapeamento da doença

Ostentando o lamentável título de campeã de casos de covid-19 do interior, perdendo apenas para a capital, São Paulo, Campinas fará parte do maior estudo epidemiológico sobre o coronavírus do Brasil. A ser realizado em Campinas pela Unicamp, o estudo compreenderá uma testagem em massa para verificar a real prevalência do vírus e conseguir reunir informações capazes de antecipar medidas de controle.

Com início previsto para este mês, participarão do exame não somente pessoas sintomáticas, mas também aquelas que não tiveram nenhum sintoma, o que permitirá que os resultados apontem a real situação epidemiológica da população. Com isso os resultados contribuirão com informações capazes de coordenar ações mais eficazes de combate à pandemia e que se antecipam às atuais políticas de manejo de leitos adotadas nas cidades brasileiras.

Por meio da aplicação de testes rápidos por imunoensaio enzimático (Elisa) em amostras de sangue, o inquérito sorológico vai apontar a parcela da população que já teve contato com o vírus. Além de Campinas, o estudo será feito em mais dez cidades, com 500 amostras coletadas em cada uma delas, totalizando 5,5 mil exames.

De acordo com o pesquisador Alessandro Farias, do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e que coordena a frente de diagnósticos da Força Tarefa Unicamp contra a covid-19, compreender o perfil da pandemia nas cidades paulistas é muito importante para um planejamento de ações em saúde, pois a testagem de pessoas sintomáticas geralmente deixa os números muito subnotificados dificultando as ações efetivas de controle.

"Cerca de 60% das pessoas pegaram o vírus e nem souberam que foram infectados. E como a covid-19 é uma doença que deve permanecer entre nós por um tempo é muito importante que ocorra um maior entendimento sobre ela, para evitar que o país fique correndo atrás do vírus e possa se planejar de forma eficiente e tomar medidas com antecedência", explica.

Segundo ele, um dos grandes desafios enfrentados até aqui pelo país no combate à pandemia foram as infecções que passam despercebidas. "Sabendo onde o vírus está e a quantidade de pessoas infectadas, conseguimos prever a necessidade de UTIs com uma ou até duas semanas de antecedência. Testar sintomáticos é apenas manejar leitos", disse.

O pesquisador conta que o estudo prevê ainda entender a evolução das variantes, já que a possibilidade do surgimento de outras variantes é bastante grande. Por isso, além da aplicação dos testes, a Unicamp vai realizar ainda o sequenciamento de cerca de 600 amostras do Sars-CoV-2 coletadas em todo o estado. "Isso vai possibilitar a identificação de quais variantes do coronavírus estão em circulação e também a possível detecção de novas que podem surgir e escapar da resposta imune de pessoas que já tiveram covid-19 ou da imunidade conferida pelas vacinas", explica.

 

Projeto reúne Unicamp,

Universidade de

Pelotas e MPT

O trabalho que será realizado pela Unicamp ocorre por meio de uma parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que coordenou o inquérito sorológico aplicado no Rio Grande do Sul, um dos estados mais avançados na vacinação no país, e conta com recursos destinados pelo Ministério Público do Trabalho. No total, foram investidos mais de R$ 2 milhões no projeto.

A coleta das amostras nas 11 cidades será feita por equipes do instituto Inteligência Pesquisa e Consultoria - Ipec (antigo Ibope Inteligência). Os profissionais aplicarão ainda questionários sobre os hábitos de vida e de trabalho dos participantes. A ideia é que os resultados possam embasar novas políticas públicas de combate a pandemias e epidemias que surgirão no futuro.

Segundo a procuradora Fabíola Junges Zani, no Ministério Público do Trabalho (MPT) os dados epidemiológicos conseguidos pelo estudo vão possibilitar ao órgão ter um retrato do desenvolvimento da covid-19 nos locais de trabalho e assim auxiliar a tarefa dos promotores uma vez que vão identificar populações mais expostas e as respectivas atividades laborais. "A finalidade pública deste projeto é inegável e sua importância inestimável", disse.

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Rodrigo Piomonte/Correio Popular