Publicado 11 de Junho de 2021 - 14h20

Por Cibele Vieira/Correio Popular

Francisco Leitão e o padre Alexandre Oliveira, próximos a um exemplar de barriguda no jardim da Escola Salesiana São José: plantando exemplos de amor à natureza e à vida

Kamá Ribeiro/Correio Popular

Francisco Leitão e o padre Alexandre Oliveira, próximos a um exemplar de barriguda no jardim da Escola Salesiana São José: plantando exemplos de amor à natureza e à vida

Um trecho da música Woodstock, de Joni Mitchell, diz assim: "Nós somos ouro, somos poeira de estrelas, somos carbono de milhão de anos e precisamos voltar ao Jardim." Esse chamamento para voltar a conviver com a natureza é a filosofia que tem sido colocada em prática de forma muito significativa pela Associação dos Amigos do Jardim Botânico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Em um trabalho silencioso, quase braçal, um pequeno grupo de voluntários tem implantado arvoredos (coleções de espécies vegetais) em escolas, áreas públicas e instituições, com o objetivo de formar pequenos jardins botânicos espalhados pela cidade.

A ideia de levar conhecimento para gerar amor e preservação ambiental é o que motiva o grupo. Ele se dedica a estimular as pessoas - principalmente as crianças - a se reconciliarem com a natureza. O trabalho começou na década de 1970 no IAC e, em 2014, foi adotado pela Associação Amigos do Jardim Botânico. Essa iniciativa já instalou várias coleções de árvores e palmeiras na cidade, de espécies vindas de diferentes regiões do país e do exterior, que são raras ou pouco conhecidas e usadas para educação de crianças e comunidades.

"A ideia essencial é a criação de coleções de espécies vegetais, como expansões das coleções do IAC, com finalidade de reaproximação da natureza, reeducação e consciência ecológica, para cuidar melhor da casa comum", explica Francisco Leitão Assis de Moraes, um dos fundadores da Associação em 2005.

Construção de um sonho

Tudo começou pelas mãos do 'semeador de florestas', como era conhecido o pesquisador do IAC, Hermes Moreira de Souza. Durante 42 anos, ele (entre as décadas de 40 e 80) viajou o Brasil e o mundo em busca de espécies raras, com interesse ecológico, econômico e para pesquisa. Seu trabalho deu origem à organização de uma coleção de cerca de 5 mil espécies de árvores e 700 palmeiras no Complexo Botânico Monjolinho, que fica dentro da Fazenda Santa Elisa e foi a base para criação do Jardim Botânico do IAC, que inclui também o Parque da Sede (Av. Barão de Itapura).

A primeira ação inspirada no trabalho do IAC foi a coleção instalada nos jardins da sede do Coral Pio XI, em 1995, em área de 4 mil m² no Jardim das Paineiras. O local foi usado para uma proposta educativa em parceria com o Instituto Parthenon, mantida por cinco anos, até o fechamento da escola. Lá, espécies importantes como o babobá - cujas sementes vieram da África -, com 30 anos de idade e 20 metros de altura compartilham espaço com palmeiras exóticas, Pau Brasil, Pau Mulato e outras espécies.

A importância deste jardim, com cerca de 200 espécies, foi reconhecida recentemente como patrimônio ambiental pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepac).

Sem recursos, com voluntariado

No ano 2000, um plantio solicitado por várias entidades da cidade implantou uma coleção na Av. Dr. Antônio Carlos Couto de Barros (entrada de Sousas), com cerca de 1.000 mudas de 186 espécies. Essa iniciativa foi retomada em abril deste ano, pelos Amigos do Jardim Botânico, que está replantando novas espécies no canteiro central da avenida. Atualmente, a Associação está criando o Jardim Botânico Cândido Ferreira, a partir de uma coleção iniciada em 2001.

Com esse espírito, Campinas participou do projeto O Jardim Botânico vai à Escola, com participação dos dez jardins botânicos mais importantes do país, numa experiência que resultou em um livro. Executado no âmbito institucional, o trabalho teve grande repercussão, lembra Francisco Leitão, um dos coordenadores. Em parceria com a associação dos Amigos, foram implantadas coleções nas escolas públicas Newton Silva Telles (Vila Costa e Silva) e Hilton Federici (Barão Geraldo).

"A aproximação e o conhecimento da natureza apresentam resultado imediato e dinâmico, influindo até na disciplina dos alunos, porque as atividades fazem sentido e proporcionam conhecimento legítimo, na teoria e na prática", diz Francisco Leitão. A Associação chegou a sugerir que o programa se tornasse atividade permanente, como Política Pública.

A partir de 2018, o Instituto Agronômico tirou o Jardim Botânico de seu organograma e o trabalho passou a ser conduzido apenas por iniciativa de voluntários do Amigos do Jardim Botânico, com recursos próprios e sem qualquer apoio institucional.

Educação e natureza, tudo a ver

Não por acaso, a Unesco (Organizaçã das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) propôs que a educação ambiental passe a integrar os currículos escolares de todos os países até 2025. A entidade alerta para a necessidade de as escolas prepararem os alunos para se adaptarem, atuarem e responderem às alterações climáticas e à crise da biodiversidade. A proposta foi apresentada em maio, durante a Conferência Mundial sobre a Educação para o Desenvolvimento Sustentável, realizada na Alemanha.

Em Campinas, essa proposta já segue adiantada em alguns locais. Em 2016, quando ocorreu o fenômeno climático de microexplosão e causou muitos danos na região do Taquaral, cerca de 40 árvores da Escola Salesiana São José foram derrubadas pela força do vento. Em setembro daquele mesmo ano, a escola recompôs seu parque com 50 novas mudas, em projeto que envolveu alunos, professores, famílias e teve o apoio técnico dos Amigos do Jardim Botânico. N

aquela escola, no início dos anos 80, foi realizado o primeiro cultivo na concepção de expansão de coleções do Jardim Botânico, lembra Francisco Leitão.

Hoje, o ipê amarelo da América Central plantado em 2016 já alcança quase10 metros de altura, enquanto outras têm crescimento mais lento, como baobás e barrigudas. E o Coité (árvore da cuia) já tem cerca de 3 metros e se prepara para formar as cuias ou cabaças que podem ser usadas na fabricação de brinquedos, artesanatos ou instrumentos musicais. Na última semana, ao vistoriar as plantas, o diretor-geral da Escola Salesiana de Campinas, padre Alexandre Luís de Oliveira, comentou sobre a importância de aproximar os alunos da natureza, chamada por ele de casa comum, e do conhecimento que ela oferece.

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Cibele Vieira/Correio Popular