Publicado 09 de Junho de 2021 - 9h05

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

Rosália Santos Germano procura Amitriptilina 25 mg na farmácia do Centro de Saúde do Jardim São José:

Ricardo Lima/Correio Popular

Rosália Santos Germano procura Amitriptilina 25 mg na farmácia do Centro de Saúde do Jardim São José: "Faz tempo que está em falta esse remédio"

Ao mesmo tempo em que a Prefeitura informa possuir a cesta de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) mais completa entre as cidades brasileiras, ao recorrerem às farmácias dos centros de saúde da cidade muitos campineiros se deparam mensalmente com a falta de medicamentos básicos. A administração culpa a pandemia, mas o fato é que a população parece ter até se acostumado ao problema, o que chega a ser impensável para um município do porte de Campinas, e que hoje tem como seu gestor um médico que ocupa ainda a vice-presidência de Saúde da Frente Nacional de Prefeitos.

Levantamento realizado pelo Conselho Municipal de Saúde (CMS) aponta que a lista de medicamentos com baixo estoque e até faltantes no almoxarifado das farmácias que abastecem os postos de saúde, problema que vem sendo denunciado há anos, tem aumentado ainda mais nos últimos meses. Pelos dados levantados, em 31 de maio, com estoque zerado no almoxarifado das farmácias, foram identificados 47 remédios. Isso corresponde a 16,85% de toda a cesta de medicamentos disponíveis. No mês de abril, a lista era de 37 itens zerados, ou 13,26% do total de medicamentos. A cesta de medicamentos avaliada totaliza 279 medicamentos.

Conforme informações do CMS, quando observados os medicamentos com estoque abaixo de 100 unidades disponíveis - ou seja, aqueles que, se não forem repostos farão falta rapidamente aos usuários -, o problema também persiste. No mês de maio, foram identificados 40 itens nessa situação, ou 14,33% do total. Em abril, 38 produtos. Isto é, 13,62% do total da cesta.

Quem conhece bem essa realidade na gestão da saúde pública campineira é a auxiliar de limpeza, Rosália Santos Germano, 40 anos, moradora do Jardim Bandeira. Assim como faz todo início de mês, ela esteve na tarde de ontem no Centro de Saúde do Jardim São José para retirar medicamento para depressão e ansiedade. De posse da receita médica e em frente ao guichê da farmácia da unidade, ela pediu pelo medicamento Amitriptilina 25 mg. A informação foi de que o medicamento estava em falta. A má notícia, porém, sequer preocupou a usuária, que deixou o serviço mais cedo para conseguir ir buscar os remédios dos quais faz uso contínuo.

"Faz tempo que está em falta esse remédio. Agora é tentar novamente no mês que vem. E ver se damos sorte. E enquanto isso é ficar sem ou tentar buscar na farmácia convencional mesmo. Mas, se a gente recorre ao posto de saúde é sinal de que não temos condições. Nessa pandemia, para gente que é pobre, qualquer dinheiro que a gente pode economizar é bom", disse a auxiliar de limpeza. O problema parece ter se tornado tão cotidiano que na parede do Centro de Saúde São José, um cartaz com uma lista informa sobre os medicamentos faltantes. A listagem, porém, estava defasada. Era do mês de abril e foi substituída e atualizada pela nova lista de medicamentos faltantes após a atendente ser informada por um dos usuários que aguardavam para retirar medicamentos.

De acordo com informações do CMS, a listagem sobre medicamentos faltantes trata-se de uma lei aprovada há 17 anos. O objetivo é informar os usuários, evitando que os mesmos rodem por diversos postos de saúde atrás de um remédio que está em falta no estoque municipal.

 

Secretaria da Saúde atribui

últimos atrasos à pandemia

Em nota oficial, a Prefeitura de Campinas informou que atualmente, há 39 medicamentos em falta e que está sendo agilizado licitações para restabelecer os estoques com a maior rapidez possível e a reposição de mais da metade dos itens será feita nos próximos 30 dias. A nota informa ainda que os usuários têm a opção de retirar alguns medicamentos gratuitamente ou por preços menores por meio do Programa "Aqui tem Farmácia Popular". Ou solicitar ao médico que faça a substituição na receita por outro tratamento.

Segundo a Prefeitura, os processos de aquisição de medicamentos para a Rede Municipal de Saúde são realizados de acordo com a legislação e por licitações periódicas, para garantir o abastecimento. A Prefeitura justifica a instabilidade do mercado, com escassez de matéria-prima e outros fatores relativos à pandemia como um dos principais motivos para falta dos itens, nos últimos meses. Esses problemas refletem nas licitações, com poucos interessados e um percentual razoável que, mesmo vencendo a licitação, atrasa a entrega dos medicamentos.

A Prefeitura ressalta que a falta no almoxarifado ou estoque baixo não significa necessariamente que os medicamentos não estão nos Centros de Saúde, porque já podem ter sido distribuídos. Para ver se um remédio está disponível em sua unidade, o munícipe pode consultar o endereço: https://remedios.campinas.sp.gov.br/. A Secretaria Municipal de Saúde dá transparência para todos os dados relativos ao estoque de medicamentos e envia periodicamente a relação ao Conselho Municipal de Saúde. Os dados de licitações para compra também estão publicados no Portal da Transparência.

 

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Rodrigo Piomonte/Correio Popular