Publicado 05 de Junho de 2021 - 18h06

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

O jardineiro Edson Vieira Mota e a esposa Silvia Helena, que teve que passar 16 horas em jejum por causa de um atraso de mais de quatro horas na coleta de sangue

Ricardo Lima/Correio Popular

O jardineiro Edson Vieira Mota e a esposa Silvia Helena, que teve que passar 16 horas em jejum por causa de um atraso de mais de quatro horas na coleta de sangue

A mudança do serviço especializado de atendimento às Hepatites Virais Crônicas (B e C), que funcionava no Centro de Testagem e Aconselhamento Ouro Verde (CTA Ouro Verde), e foi transferido para o Centro de Referência em IST e HIV/Aids, na Rua Regente Feijó 637, no centro, ainda gera polêmica um mês após ter sido consolidado.

Usuários da região sudoeste reclamam do acesso que ficou mais complicado e do tempo para agendamento e atendimento no novo local, que compreende também outros serviços. O Conselho Municipal de Saúde (CMS) critica a centralização de um serviço considerado essencial e aponta outros questionamentos que vão na contramão do que foi deliberado na última Conferência Municipal de Saúde.

A Prefeitura, por outro lado, afirma que a mudança teve a intenção de beneficiar o atendimento e anuncia novas ofertas de serviços, como a instalação de uma farmácia no local, para que os medicamentos de hepatite sejam retirados no mesmo prédio onde ocorreu a consulta. Além da ampliação da oferta de exames.

A mudança aconteceu no início de maio sob a alegação de que o novo local seria um acesso mais fácil, uma vez que fica no centro, e próximo ao terminal central, principal terminal urbano da cidade. Por outro lado, usuários reclamam e o Conselho Municipal de Saúde (CMS) cobra do secretário municipal de Saúde, Lair Zambon, por meio de um ofício, que a alteração no serviço seja revista.

Segundo o CMS, a deliberação da última Conferência Municipal de Saúde prevê uma série de medidas de fortalecimento e ampliação do alcance do atendimento e combate às infecções sexualmente transmissíveis, principalmente entre a população mais vulnerável.

Um abaixo assinado virtual, que reuniu até agora mais de 300 assinaturas, também foi organizado pedindo o retorno do atendimento para o Hospital Ouro Verde, uma vez que as regiões periféricas da cidade são as que mais concentram problemas envolvendo doenças provocadas por infecções sexualmente transmissíveis.

O casal de usuários do Centro de Testagem e Aconselhamento Ouro Verde, a dona de casa Silvia Helena, 49 anos, e o jardineiro Edson Vieira Mota, 49 anos, são exemplos de como a centralização dificultou o acesso ao serviço. Moradores do Jardim São Domingos, na região Sudoeste, eles contam que, além do aumento do gasto para manterem o acompanhamento da Hepatite que ambos tratam, a realização dos exames ficou mais demorada.

"Ficou tudo muito complicado para gente. O atendimento ficou muito demorado e a realização dos exames também. Para você ter uma ideia, na semana passada tivemos um agendamento para exames às 6h30 e fomos atendidos às 10h30. No CTA Ouro Verde a gente esperava dez minutos no máximo", disse o jardineiro.

Ele questiona também a equipe médica que não foi transferida junto com o serviço e o custo elevado que ficou para usuários do serviço que moram em outras regiões. "Minha médica me acompanhava há anos. Tinha conhecimento do meu prontuário. Fora também que o custo que temos agora com estacionamento, devido à demora no atendimento. No centro não tem onde estacionar", disse a dona de casa.

A usuária L.M.P., 50 anos, que preferiu não ter o nome revelado, diz que desde que houve a mudança de endereço ainda não conseguiu realizar os exames de preventivos de DST. "Com a mudança, ainda não consegui fazer os exames. Tive bastante dificuldade em entrar em contato para receber informações. Liguei para vários telefones até conseguir. Tenho tudo registrado. Agora tenho que ir ao posto de saúde, mas ainda não fui devido ao horário de trabalho", conta.

O CMS defende que o CTA no Ouro Verde era importante para o SUS local uma vez que privilegiava moradores de regiões mais vulneráveis, que são a maioria dos usuários do serviço. O conselho ressalta que a localização dos serviços no Ouro Verde era estratégica pela facilidade de acesso.

"O Ambulatório de Hepatites Virais cumpre papel importante de fazer diagnósticos precoces, orientação para se romper a cadeia de transmissão e facilitar o tratamento. A implantação desses serviços no Complexo Hospitalar Ouro Verde cumpria um importante objetivo, o da descentralização de serviços, ou seja, estava mais próximo de seus usuários facilitando o acesso, que é uma das grandes dificuldades do sistema", explica Nayara Lúcia Soares de Oliveira, presidente do Conselho Municipal de Saúde.

Segundo Nayara, o argumento da Secretaria de Saúde de que o acesso ficou mais fácil não se justifica na realidade da grande maioria dos usuários do CTA Ouro Verde. "Eles precisam se deslocar, muitas vezes usando recurso que não dispõe, ou usar o transporte coletivo, o que é um risco à Saúde dessa população que é grupo de risco", explica.

O CMS cobra ainda a questão das equipes que, na avaliação da entidade, foram reduzidas em 40%. "A posição do Conselho é de que a mudança atrapalhou muito o acesso da população", conclui a presidente.

Prefeitura defende mudança e promete novos serviços

A Prefeitura por sua vez informa que as equipes médicas, de enfermagem e de serviço social também foram transferidas para o novo endereço para garantir a continuidade dos serviços que vinham sendo oferecidos, no complexo Ouro Verde.

Segundo a Prefeitura, o número de telefone do Ouro Verde foi transferido para a nova sede que, em breve, abrigará uma farmácia para que os medicamentos de hepatite sejam retirados no mesmo prédio da consulta, ajudando os usuários que não vão precisar mais ir à Farmácia de Alto Custo. A Prefeitura anunciou ainda a ampliação da oferta de exames. No Ouro Verde os exames de acompanhamento eram colhidos duas vezes por semana. No centro, nas próximas semanas, esses exames serão colhidos em mais dias, informa a administração.

O atendimento no centro é realizado de segunda a sexta-feira, das 7h às 20h, com agendamento, assim como era no Ouro Verde. A Prefeitura ressalta que as ações de testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites virais (B e C) e atendimento às infecções sexualmente transmissíveis são oferecidas nos 67 centros de saúde de Campinas. O conselho questiona que nos centros de saúde os pacientes perdem a privacidade, já que tratam de doenças que ainda sofrem muito preconceito da sociedade.

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Rodrigo Piomonte/Correio Popular