Publicado 05 de Junho de 2021 - 10h28

Por Gilson Rei/Correio Popular

Árvore cortada nas proximidades do Rio Atiabaia, no distrito de Sousas, em Campinas: supressão da mata traz riscos à qualidade e quantidade da água do manancial

Ricardo Lima/Correio Popular

Árvore cortada nas proximidades do Rio Atiabaia, no distrito de Sousas, em Campinas: supressão da mata traz riscos à qualidade e quantidade da água do manancial

O intenso processo de urbanização e de desmatamento florestal coloca em risco a quantidade e a qualidade das águas na Bacia do Rio Atibaia, que atende 93,5% da demanda hídrica de Campinas e região. Este foi o resultado do estudo conduzido na PUC-Campinas sobre a fragmentação florestal na sub-bacia hidrográfica do Rio Atibaia. Os dados do trabalho e de tantos outros reforçam que neste sábado, Dia Mundial do Meio Ambiente, não há pouco o que se comemorar e muito a se fazer para tentar manter o ecossistema e a vida humana.

O estudo elaborado pela pesquisadora Alessandra Leite da Silva, engenheira ambiental e mestre em Sistemas de Infraestrutura Urbana, e pela professora Regina Longo, do Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologia, ambas da PUC-Campinas, foi publicado em revista especializada. O foco do trabalho são os desmatamentos na abrangência da Área de Proteção Ambiental (APA) de Campinas, ambientalmente protegida por legislação nacional (Lei do SNUC - Nº 9.985/2001), que estabelece algumas restrições para sua ocupação. "Em Campinas, a APA foi instituída com objetivos específicos para garantir a conservação, proteção e recuperação do meio ambiente no território municipal. Isto tem que ser respeitado", salientou a pesquisadora.

O levantamento mostrou que boa parte das matas remanescentes não tem área central, ou seja, são áreas de borda, em situação de vulnerabilidade. O estudo identificou ainda que, dos 1.368 áreas remanescentes na sub-bacia do Rio Atibaia, em Campinas, apenas 126 apresentam área central, o que representa apenas 9,2% do total. "A maioria dos fragmentos tem também formato alongado, mais frágeis do ponto de vista ambiental. A área central é a parte mais preservada e sensível de um remanescente florestal, onde espécies menos comuns e mais sensíveis habitam. Por sua vez, as bordas são as áreas que mais recebem as pressões externas, humanas ou não, vindas do entorno", destacou Alessandra.

Os remanescentes florestais estão localizados em áreas sujeitas a alto grau de erosão de solo. "Essa condição corrobora para que a sub-bacia do rio Atibaia apresente alta vulnerabilidade ambiental", alertou a pesquisadora. Isso significa baixa resistência e reduzida habilidade de recuperação e regeneração desse ecossistema após interferências, o que pode resultar em mudanças irreversíveis.

Alessandra destacou que o Plano Diretor de Campinas (2017) e o Plano do Verde (2015) já reconhecem esse problema. "A preservação desses remanescentes requer um trabalho em conjunto entre a comunidade científica, os gestores municipais e a população local. Compreender o importante papel que esses remanescentes prestam à sociedade e ao equilíbrio ambiental e entender as implicações que sua supressão ou má conservação podem ocasionar é a peça fundamental para garantir que eles sejam devidamente preservados e protegidos", ressaltou.

Sem água

A urbanização intensa e os desmatamentos contínuos podem reduzir consideravelmente a oferta de água para a população de mais de 5 milhões de habitantes que são abastecidos pela Bacia do Rio Atibaia na região. Alessandra explicou que o intenso processo de urbanização coloca em risco tanto a quantidade como a qualidade dessas águas, "especialmente por conta da supressão dos fragmentos florestais ao longo da Bacia do Rio Atibaia. Uma das principais funções ecossistêmicas desses remanescentes é justamente a proteção dos mananciais".

Existem grandes riscos associados à supressão desses remanescentes. "O primeiro é porque pode ocorrer a diminuição da quantidade de água disponível, devido à diminuição da recarga de água subterrânea, pela infiltração no solo que é grandemente facilitada pelos remanescentes florestais", explicou. "O segundo é a perda da qualidade de água disponível. Isso porque o solo da região do Atibaia é altamente sensível à erosão, e retirar a vegetação que protege esse solo poderia causar o assoreamento dos rios em um curto espaço de tempo", detalhou a pesquisadora.

Com 2,8 mil km2, a Bacia do Rio Atibaia está diretamente relacionada a duas regiões importantes do Estado de São Paulo. Uma delas é a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), uma vez que o Rio Atibaia compõe o Sistema Cantareira que abastece metade da Grande São Paulo. A outra é a Região Metropolitana de Campinas (RMC), pois 19 dos 20 municípios que a compõem usam direta ou indiretamente as águas da Bacia - seja para captação de água, seja para lançamento de esgoto doméstico. 

Pauta ambiental marcará vários eventos na cidade

Semana do Meio Ambiente contará com debates e visitas guiadas à mata

Com o tema "O meio ambiente de mãos dadas pela vida", tem início hoje em Campinas, a programação da Semana do Meio Ambiente - Semeia 2021. Ao longo de nove dias, até 13 de junho, serão oferecidas mais de 40 atividades, visitas e debates com a finalidade de promover uma reflexão sobre a urgência da mudança de hábitos e da necessidade de ações conjuntas entre sociedade, entidades e governos para garantir a sobrevivência das gerações futuras.

Devido à pandemia, a maioria dos eventos será realizada em formato digital, com participação gratuita para todos os interessados. O acesso à programação completa e aos links para inscrição nos eventos pode ser feita em https://ambientecampinas.wixsite.com/semeia2021.

Um dos destaques será o Fórum Permanente: "Avanços no gerenciamento de resíduos e cidades inteligentes", que será promovido, nos dias 7 e 8 de junho, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O evento pretende discutir a relação direta entre os projetos de cidades inteligentes e a gestão de resíduos sólidos. O objetivo é apresentar soluções inovadoras que visam à sustentabilidade no ambiente universitário e nas cidades, partindo do conceito do campus universitário como um laboratório vivo para a criação de soluções sustentáveis.

O vento será on-line pelo site: www.foruns.unicamp.br. As inscrições devem ser feitas pelo link: https://sistemas.proec.unicamp.br/admin/inscritos/novo/575. Outra atividade em destaque ocorrerá neste sábado e nos dias 11 e 12, quando as pessoas poderão fazer uma Visita Autoguiada da Fundação José Pedro de Oliveira, que preparou uma programação especial na Mata de Santa Genebra. Foram preparadas duas opções de trilha: Laguinho da Sanã ou Trilha do Jatobá e ainda conhecer o Borboletário. A atividade é aberta a todos os públicos, mas as vagas são limitadas. Os interessados devem se inscrever no site da Fundação, no endereço https://www.fjposantagenebra.sp.gov.br/visita-autoguiada.

A visita virtual ao Centro de Educação Ambiental da Mata de Santa Genebra será no dia 9 de junho, às 10h30. As equipes da Fundação e da Secretaria do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável farão um bate papo sobre os aspectos ambientais e históricos da área de preservação. Os inscritos poderão acompanhar o debate e fazer perguntas pelo chat.

 

 

 

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