Publicado 05 de Junho de 2021 - 10h13

Por Correio Popular

Cavalos pastam à beira de um córrego próximo à Estação de Tratamento de Esgoto Samambaia, em Campinas: com a seca, nível dos rios já causa preocupação de desabastecimento

Ricardo Lima/Correio Popular

Cavalos pastam à beira de um córrego próximo à Estação de Tratamento de Esgoto Samambaia, em Campinas: com a seca, nível dos rios já causa preocupação de desabastecimento

A estiagem fez com que o monitoramento realizado durante a gestão do período seco do Sistema Cantareira, feito pelos Comitês dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) se tornasse mais frequente. De acordo com o coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico dos Comitês PCJ, Alexandre Vilella, a seca tem sido muito severa, com chuvas até 60% abaixo do esperado. "Atualmente, a situação dos reservatórios é a pior registrada desde a crise hídrica de 2014, devido à falta de chuva. O último período de chuva não permitiu que os reservatórios acumulassem o volume ideal de água", explicou.

A gestão consiste na checagem de 50 postos de monitoramento, que estão localizados em diversos rios da região e nos reservatórios. Com base nesses dados, na previsão do tempo e de consumo, as vazões limites são definidas. Com a falta de água, os dados são monitorados diariamente, e assim deve seguir até novembro, de acordo com Vilella.

"Para definirmos o volume de água que será liberado, precisamos considerar o tempo de trânsito da água, que é o período que ela demora para sair do reservatório e chegar ao município, em torno de 10 dias. Precisamos prever de alguma forma o que vai acontecer lá na frente. Esse é o desafio de fazer a gestão", explicou o coordenador. O Sistema Cantareira abastece 19 cidades no interior do Estado, cerca de 3,5 milhões de habitantes, e parte da Região Metropolitana de São Paulo.

Atualmente, o volume de entrada do Cantareira é de 20 metros cúbicos por segundo, enquanto a vazão é de 30. Por isso que, durante o chamado período úmido, que é quando tem o maior volume de precipitação durante o ano, os reservatórios precisam acumular um volume significativo de água, que consiga atender o período de estiagem, quando os níveis caem.

Se isso não ocorrer, pode faltar água durante a seca. "Hoje o volume do Cantareira cai de 0,1% a 0,2% ao dia, para abastecer parte de São Paulo e a região de Campinas", afirmou. Por isso que é necessário chover, mas nos lugares certos, onde há captação e reserva de água. O Sistema Cantareira está com 47,2% do seu volume útil, 12% a menos que o volume registrado no mesmo período do ano passado, de acordo com Vilella. "Atualmente o Cantareira está em estado de atenção", informou.

Segundo o coordenador, durante a pandemia, muitas pessoas começaram a fazer home office e com as altas temperaturas, houve um aumento de 15% no consumo de água, em média. "Isso é muito significativo. Água para este ano tem. Mas e para o ano seguinte? Estamos dependendo do volume de chuva que será registrado no verão. A gestão é gota a gota", declarou.

Além da falta de chuva, o coordenador ressaltou que há o registro de perdas de água, entre o momento que o volume é captado, até ele chegar ao consumidor final. No Brasil, acrescentou, o índice de perdas é de 50%. As perdas físicas ocorrem quando há trinca na rede de água que geram vazamentos, por exemplo. Também existem as perdas aparentes, como as fraudes nos hidrômetros.

Análise

De acordo com a consultora em recursos hídricos, Mônica Zuffo, é necessário investir na capacidade de armazenamento das bacias e reservatórios. "Neste quesito, desde a crise hídrica não mudou muita coisa. Esse é um dado preocupante. O ideal é construir novas barragens e aumentar a capacidade de armazenamento das existentes", afirmou Mônica.

A consultora ressaltou que tão importante quanto o investimento estrutural, é a realização de programas para conscientizar a população sobre o uso consciente da água. Em relação ao controle de perdas, Mônica afirmou que essa é uma prioridade controversa na época da crise, pois ela vai surtir efeitos a longo prazo, devido ao tempo e recursos necessários para fazer as adequações no sistema de fornecimento de água.

Sanasa

Em nota, a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) informou que trabalha há anos a questão hídrica de Campinas. Atualmente, a média de perdas de água na cidade é de 20%, uma das menores do país de acordo com a empresa. "Aumentamos a capacidade de armazenamento de água potável em 25%. Hoje nossos reservatórios têm capacidade de reserva de 129 milhões de litros de água potável", declarou.

Previsão

Segundo a meteorologista do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), Ana Ávila, há previsão de chuva a partir de terça-feira, devido à chegada de uma frente fria que vem do sul do país. Com a mudança no tempo, as temperaturas também devem cair nos próximos dias.

Ainda assim, Ana ressaltou que as precipitações devem ser irregulares. A última chuva volumosa foi de 18,3 milímetros registrada no dia 22 de maio. A precipitação mais significativa anterior a esta, ocorreu em março. "Desde o início do ano, apenas em fevereiro o volume de chuva ultrapassou a média esperada para o período", informou a meteorologista.

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