Publicado 04 de Junho de 2021 - 12h31

Por Edson Silva/Correio Popular

Fotos do acervo particular da família, que aparece unida e feliz nas imagens

Arquivo Pessoal

Fotos do acervo particular da família, que aparece unida e feliz nas imagens

Após um relacionamento de cinco anos sem qualquer agressão, a modelo Nathália Vela dos Santos, de 25 anos, foi brutalmente espancada por ao menos dez minutos dentro da casa onde mora com as duas filhas – uma delas com apenas quatro meses e que estava em seu colo na hora do ataque. A mais velha, com três anos recém-completados, tentava ajudar a mãe gritando por socorro, o que chamou a atenção dos vizinhos do bairro São Jerônimo, em Americana, que rapidamente acionaram a Guarda Municipal e a Polícia Militar.

O agressor, Leandro Vinícius Ponce, 32 anos, pai legítimo das meninas, foi preso em flagrante por violência doméstica, crime agravado pela tentativa de assassinato. Ele, que está com a prisão decretada por tempo indeterminado pela Justiça, não se conformou com a decisão da vítima de se separar dele. Nathália já havia decidido sair da relação, após, segundo ela, ter descoberto novas infidelidades conjugais do marido. A modelo já tinha relevado outras escapadas que ocorreram em 2018, quando estava grávida da primeira filha, que completou três anos no último dia 30 de maio.

Fotos do acervo particular da família, que aparece unida e feliz nas imagens

Ataque brutal

No dia do ataque brutal, a vítima saiu para comprar o presente de aniversário da filha, mas acabou voltando às pressas para casa, apavorada e temendo pela segurança das filhas ao receber a ligação do marido, que avisou que estava na casa dela. Ele estava chorando e pedindo a chance de uma reconciliação. Ao chegar na residência, a jovem constatou que o homem, após ler algumas conversas dela pelo celular com amigas e amigos, ocorridas no período que o casal já estava separado, havia colocado na cabeça que ela o estava traindo para dar o “troco” às suas infidelidades. “Não concordei com as suposições dele e esse foi o estopim para o início de um espancamento brutal”, conta a vítima.

Ela relembra que em sua mente só pensava na melhor maneira de proteger a sua filha mais nova, de quatro meses, que estava em seu colo, enquanto recebia pancadas cabeça, que quase a fizeram perder os sentidos.

O agressor usou ainda um fio de mouse de computador para tentar matá-la esganada, saindo depois para buscar uma faca, sem se dar conta do desespero da filha mais velha do casal, que estava há quatro dias de completar os seus três anos e pedia socorro à vizinhança.

De acordo com Nathália, sem conseguir matá-la enforcada com o fio ou achar uma faca, o ex-marido – que ela jamais havia visto violento nos cinco anos de relacionamento, nem mesmo após alguma eventual discussão do casal – ainda tentou feri-la no pescoço e, para isso, usou o trinco da porta, que caiu durante a confusão dentro da casa.

Nesse meio tempo, a ajuda chegou. Policiais prenderam o agressor em flagrante. A vítima, depois de receber socorro médico, registrou o caso na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Americana, onde pediu à Justiça uma Medida Protetiva contra o agressor, a qual foi concedida.

Para a modelo, o ex-marido estava em sã consciência até “surtar” e começar a agredi-la. Ela conta que o companheiro era um profissional com trabalho estável numa montadora de veículos importados e músico formado no Ensino Superior - foi professor de música e fazia apresentações.

Namoro na web

Os dois se conheceram pela internet e, em pouco tempo, já estavam em um relacionamento sério, que durou cinco anos, sem a ocorrência de qualquer problema, mesmo após ela ter visto vídeos que comprovariam a infidelidade conjugal dele ocorrida menos de três anos após estarem juntos. Fato que teria voltado a acontecer recentemente e que a fez, finalmente, decidir-se pela separação e divórcio, em março deste ano.

Nathália é modelo há pouco mais de dois anos e aconselha que as mulheres em situação de violência doméstica não deixem de denunciar os companheiros, pois acredita que ninguém merece passar pelo que ela passou.

Ao encerrar a entrevista, a jovem recordou que a trilha sonora inicial do casal quando se conheceram foi a balada romântica ao som de piano “Back At One”, de Brian McKnight, que, na letra, enumera os passos de uma paixão eterna por uma garota: “Um... você é como um sonho se tornando real/Dois - só quero estar com você/Três - garota, é evidente que você é a única para mim/Quatro - repita os passos de um a três/ Cinco... fazer você se apaixonar por mim/ (em tradução livre).

Agora, Nathália quer olhar para o futuro e adotou como trilha a música “Mais uma vez”, do Legião Urbana, que diz “Mas é claro que o sol/Vai voltar amanhã/Mais uma vez, eu sei/Escuridão já vi pior/De endoidecer/gente sã/Espera que o sol já vem...”.

Denunciar é essencial, aponta o coronel da PM Renato Nery Machado

O coronel da Polícia Militar de Campinas, Renato Nery Machado, do Comando de Policiamento de Área (CPI-2), responsável pelo policiamento em 38 cidades da região, das quais 11 localizadas na Região Metropolitana de Campinas (RMC), acredita que os casos de violência doméstica sempre ocorreram, mas, antigamente, ficavam restritos à intimidade do lar, o tal do “em briga de marido e mulher não de mete a colher”, expressão popular que refletia a postura adotada pela a sociedade, em contexto geral, há algumas décadas.

Assim, o aparente aumento de casos atualmente se revela pelo fato de maior conscientização das vítimas, que estão melhor amparadas pela legislação e com a criação de entidades de assistência como ONGs, delegacias especializadas, campanhas de esclarecimentos e conscientização, entre outros, constituindo uma rede de apoio que envolve ainda as forças de segurança (Polícias das esferas municipais, estaduais e federal), Ministério Público (MP), Poder Judiciário e Legislativo.

O coronel ressalta que denunciar é muito importante, pois a violência doméstica, como o nome sugere, ocorre em ambiente praticamente restrito para atuação preventiva de forças policiais, exceto em situações nas quais há denúncia que pode levar a um flagrante ou algo parecido.

“Denunciar os algozes é a maneira mais eficaz de intimidar os autores desse tipo de crime, porque eles sabem que vão ser presos e responder processos”, lembra o coronel.

Segundo o comandante do CPI2, casos não denunciados ou relatados muito tempo depois de ocorrido podem se transformar em uma porta aberta para a tragédia.

O oficial explica ainda que todo o planejamento e as ações da Polícia são feitas com base em informações vindas da sociedade. Daí decorre a importância de se registrar os Boletins de Ocorrência, que podem ser feitos até mesmo pela internet, visto que os dados gerados por eles influenciam no planejamento de ações e operações das forças de segurança na prevenção e combate ao crime.

Para denunciar: Violência doméstica e familiar contra a mulher: Ligue 180 (de qualquer lugar do Brasil) ou 190 (e fale com a Polícia Militar). Quem denuncia não precisa revelar a identidade.

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Edson Silva/Correio Popular