Publicado 04 de Junho de 2021 - 12h01

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

Morador da região do Jardim Icaraí vasculha lixão clandestino em busca de materiais recicláveis para vender e aumentar a renda familiar; prática expõe a população a situação degradante e perigosa para a saúde

Ricardo Lima/Correio Popular

Morador da região do Jardim Icaraí vasculha lixão clandestino em busca de materiais recicláveis para vender e aumentar a renda familiar; prática expõe a população a situação degradante e perigosa para a saúde

Enquanto Campinas busca viabilizar um novo modelo de Parceria Público Privada (PPP) de limpeza na cidade que prevê a construção e operação de um Complexo Integrado de Valorização de Resíduos (CIVAR), onde a meta é a reciclagem máxima dos resíduos, ao custo estimado de R$ 8,05 bilhões pelos próximos 30 anos, a cidade ainda convive com um modelo arcaico de lixão a céu aberto, que representa riscos à saúde, ao meio ambiente e que cria um cenário de degradação para a população.

Em plena área residencial e a cerca de 20 minutos da sede do poder municipal, no Centro, uma via pública que faz a interligação de bairros é usada como ponto de descarte clandestino. A rua José Cristovão Gonçalves, que liga os bairros Jardim Icaraí e São José é um dos quase cem locais chamados de pontos viciados, identificados pela administração e que recebem frequentemente descartes irregulares de lixo.

Para dar uma ideia do tamanho do lixão que se forma há anos nesse local, a prefeitura estima serem necessárias dez viagens de caminhão com capacidade de transporte de cinco toneladas para a limpeza da área. O total a ser removido, segundo avaliação de técnicos do setor de limpeza urbana da Prefeitura, equivale à quantidade de resíduos produzida por todo o município durante três dias.

A Prefeitura trabalha nesta semana no local após receber denúncia de moradores. No lixão foram encontrados desde resíduos de construção civil, restos de mobiliários, pneus, animais mortos e até insumos usados da área de saúde.

Vale ressaltar que no local do lixão, inclusive, pode ser observado uma nascente de água e, nas proximidades, um córrego que deságua no Rio Capivari que também serve de captação para o abastecimento urbano. Especialistas alertam para o crime ambiental e para as responsabilidades, tanto de quem descarta, quanto de quem responde pela área, neste caso a Prefeitura, por se tratar de uma via pública.

Continuação da rua José Cristovão Gonçalves, onde há mais de 20 anos existe descarte irregular de resíduos, material hospitalar e lixo doméstico

Continuação da rua José Cristovão Gonçalves, onde há mais de 20 anos existe descarte irregular de resíduos, material hospitalar e lixo doméstico. Foto: Ricardo Lima/Correio Popular

De acordo com informações de moradores que residem nas proximidades, o problema no local é antigo e há até empresas privadas que são frequentemente flagradas cometendo irregularidades. Dessa vez moldes de gesso, materiais radiológicos e caixas com nomes de pacientes foram encontrados no local.

São cerca de 1 km de via pública não asfaltada usada como lixão em um cenário degradante. A via é usada por moradores da região para a travessia entre os bairros. O descarte avança para o terreno baldio que se estende ao lado da via e que não tem nenhum tipo de cerca ou identificação para que o descarte irregular não ocorra.

A situação é tão degradante e, aparentemente, "normal" que pessoas do bairro garimpam o lixão diariamente, o que eleva os riscos de contaminação e de saúde pública.

O estudante Gabriel Reis reclama do descaso com a destinação do lixo

O estudante Gabriel Reis reclama do descaso com a destinação do lixo. Foto: Ricardo Lima/Correio Popular

Segundo o estudante Gabriel Reis, 17 anos, morador da região, a limpeza da área ocorre após denúncias, mas o descarte volta acontecer em seguida. "A prefeitura chega a limpar a área, que volta a receber o material. É um descuido total aqui. Já vi pessoas se ferirem e ficam até doentes. Esse terreno ao lado do lixão, inclusive, já foi até alvo de ocupação há anos atrás. Veio até a polícia retirar os moradores. Agora é esse lixão que chega a fechar a rua", disse.

O economista ambiental e biólogo Tairi Gomes aponta as responsabilidades que o poder público tem em permitir que áreas públicas se transformem em lixões a céu aberto. "Quando isso acontece é porque não há qualquer tipo de atuação do poder público. Não há fiscalização e nem indicação de proibição. Isso é muito grave", disse.

Segundo ele, é comum haver resíduos de saúde nos lixões, que são altamente contaminantes. "Isso é muito sério e perigoso. Tem que ter muita atenção. Cabe aos órgãos fiscalizadores municipais e estaduais fazerem cada um a sua parte e estimular a população e as empresas a fazerem o descarte correto. Mas permitir a existência de lixões é quase que um aval para o descarte irregular", conclui.

Solução é transformar área em ecoponto, diz Prefeitura

O diretor do Departamento de Limpeza Urbana (DLU), Alexandre Gonçalves, responsável pela limpeza do terreno, que será realizada por uma empresa terceirizada, falou em responsabilidade compartilhada, citando a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Segundo ele, o departamento vem tentando combater a formação dos chamados pontos viciados de descarte irregular de lixo, transformando os locais em ecopontos. "Estamos transformando esses locais viciados em ecopontos, ou seja, em pontos de entrega organizada", disse.

Ele conta que a ideia da iniciativa é transformar o aspecto negativo desses locais, usando a área para um descarte regular. "O Ecoponto é um instrumento de intersecção entre o setor público, o setor produtivo e o munícipe", explica.

O problema, segundo ele, é que a cidade possui muitos pontos viciados. "Temos entre 50 e cem pontos na cidade. E enquanto não conseguirmos efetivamente implantar a Política Nacional de Resíduos vamos continuar limpando os locais e contando com a ajuda da população", explica.

Segundo ele, no caso da rua José Cristovão Gonçalves, será encaminhada solicitação à Coordenadoria de Fiscalização de Terrenos (Cofit), órgão da Secretaria de Serviços Públicos, para identificar a propriedade do terreno ao lado da via para que sejam tomadas as providências cabíveis.

As equipes do Departamento de Limpeza Urbana (DLU) iniciaram a retirada do material no lixão da anteontem. A ação seguirá pelos próximos dias. O DLU calcula que há entre 3 mil e 5 mil toneladas de resíduos descartados em toda a via. Para coletar o descarte estão sendo utilizados quatro caminhões basculantes, uma pá carregadeira e um trator de esteira.

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Rodrigo Piomonte/Correio Popular