Publicado 02 de Junho de 2021 - 10h45

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

Marcela, nora de dona Neuza, mostra o local onde a família pretende construir um novo barraco para receber e tratar a sogra em estado grave

Ricardo Lima/Correio Popular

Marcela, nora de dona Neuza, mostra o local onde a família pretende construir um novo barraco para receber e tratar a sogra em estado grave

O hospital Ouro Verde decidiu ontem manter a paciente Neuza Lopes Laurelino, 57 anos, que se recupera de complicações da covid, internada na unidade em leito social após tomar conhecimento de que a família não apresentava condições de receber e cuidar da paciente em domicílio por morar em um barraco de madeira insalubre na ocupação Jardim Rosália 4, localizado nas proximidades da Vila Padre Anchieta, na região Norte da cidade.

Depois de quase 20 dias internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) onde passou por um processo de intubação por conta da doença, além de um acidente vascular cerebral e um procedimento de traqueostomia devido às complicações da covid-19, a família aguardava a chegada da dona Neuza anteontem após receber a informação, na última sexta-feira, da alta médica da paciente, praticamente em estado vegetativo.

No final de semana, os familiares chegaram a pedir socorro nas redes sociais para poder cuidar da dona Neusa em casa. Com isso, eles conseguiram improvisar um leito hospitalar em plena favela, onde a família mora, um barraco com chão de terra e coberto por telha de amianto e lona.

No pequeno cômodo, com pouco mais de quatro metros quadrados, sem ventilação e úmido, foi acomodado uma cama hospitalar, um colchão e alguns insumos conseguidos por meio de doações. Ontem, em nota oficial, o hospital negou que a paciente havia recebido alta médica.

O filho da dona Neusa, o jardineiro Heldes Pereira Laurentino, 38 anos, disse que recebeu com surpresa e alívio a notícia da permanência da internação da mãe no hospital. Ele esteve na manhã de ontem na unidade após receber ligação para acompanhar o transporte da mãe em ambulância.

"Fui até o hospital achando que ia buscar minha mãe, mas lá conversei com o pessoal do serviço social e pessoas da equipe médica e eles estavam com uma cópia da reportagem do jornal e me informaram que minha mãe não poderia ser levada para casa porque não tinha condições da gente receber ela lá", disse.

Segundo o jardineiro, o hospital informou que vai manter a paciente em um leito social de enfermaria até que a família consiga um local adequado para receber a dona Neusa. "Tive que assinar um termo sabendo que minha mãe corre riscos de infecção e contaminação permanecendo internada, mas é melhor ela no hospital do que aqui em casa. Agora é correr e tentar construir um quarto melhor para minha mãe se recuperar em casa", disse.

O jardineiro esteve ontem no Centro de Referência da Assistência Social (Cras) que atende a região do jardim Rosália 4, onde conseguiu um benefício do Cartão Nutrir, que funciona como um vale-alimentação que pode ser utilizado na rede credenciada de supermercados. A família reside no barraco em seis pessoas, o filho da paciente, a esposa, três crianças e a dona Neusa. Atualmente, a renda familiar depende do Bolsa Família e do trabalho do jardineiro em uma empresa terceirizada que presta serviço para a Prefeitura e recebe um salário mínimo.

 

Prefeitura insiste em

que não houve alta

Hospital Ouro Verde se contradiz e mantém paciente após matéria do Correio

A Prefeitura informou na terça-feira, 3, após a publicação da matéria do Correio, que em nenhum momento, a paciente recebeu alta definitiva do hospital. Diz a nota que desde o dia 24 de maio, o serviço social do hospital tem atuado junto à família para tentar agendar os procedimentos de visitas, treinamentos e orientações, visando a transição dos cuidados para casa de forma segura e humanizada. E que apesar das sucessivas convocações, apenas em 31 de maio compareceu um familiar que negou quaisquer dificuldades para receber a paciente. Não foi solicitada à família a compra de cama hospitalar ou "montagem de UTI em casa".

O hospital decidiu manter a paciente internada na unidade, ao tomar conhecimento de que a família não teria condições de recebê-la. A partir disso, o hospital solicitou novamente a presença de um representante da família e constatou que as condições informadas não seriam adequadas, ao contrário do que disse no primeiro contato. Com essas informações, a paciente permanece no hospital. A Prefeitura informou ontem que para famílias que não conseguem receber os pacientes após alta hospitalar, o serviço social da unidade mantém a pessoa temporariamente em um leito social.

 

Para conselheira,

casos são comuns

A presidente do conselho Municipal de Saúde, Nayara Lúcia Soares de Oliveira, disse que situações em que familiares não têm condições de cuidar de pacientes de alta médica em casa são comuns e se agravaram muito com a pandemia e tornaram-se um desafio para a rede municipal de saúde.

"Situação como essa depende muito da articulação da rede municipal de saúde e ainda da mobilização local de lideranças de bairro e entidades, pois a equipe do serviço de atendimento domiciliar da rede municipal de saúde é pequena para atender aquela região", disse.

Segundo a Prefeitura, o Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), rede que atende pacientes que estão acamados e que precisam de cuidados em casa, conta com 14 equipes para atendimento de toda a demanda do município.

 serviço inclui atendimento médico e de enfermagem em domicílio, oxigenoterapia, fisioterapia, acompanhamento nutricional, psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, conforme o caso. A periodicidade do serviço é definida de acordo com o que o paciente necessita. A região da paciente Neusa é o SAD Leste-Norte. Segundo a Prefeitura, ela já tem encaminhamento para ser assistida por esse serviço.

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Rodrigo Piomonte/Correio Popular