Publicado 01 de Junho de 2021 - 18h02

Por Mariana Camba/Correio Popular

O cientista Luiz Carlos Dias: é preciso vacinar mais pessoas/O médico André Giglio: principais 
vítimas estão abaixo dos 60 anos/Camila Contri: perda do marido que tinha somente 31 anos

Kamá Ribeiro/Correio Popular

O cientista Luiz Carlos Dias: é preciso vacinar mais pessoas/O médico André Giglio: principais vítimas estão abaixo dos 60 anos/Camila Contri: perda do marido que tinha somente 31 anos

A baixa imunização da população contra a covid-19 abre portas para a piora da pandemia no Brasil, potencializando o aumento de casos da doença e ampliando a possibilidade de novas mutações do Sars-Cov-2. De acordo com o professor titular do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da força tarefa da Unicamp no combate à covid-19, Luiz Carlos Dias, a demora da aplicação das doses tem ocorrido por causa da falta de vacina no país, consequência da escassez de insumos. "Temos a falta generalizada de vacinas. No Brasil, há 212 milhões de pessoas que precisam receber o imunizante. O ideal é protegermos pelo menos 70% da população, cerca de 170 milhões de brasileiros. Para isso, precisamos de 340 milhões de doses. Mas estamos longe de alcançar essa meta", afirmou.

De acordo com Dias, até o momento, apenas 20% da população do país recebeu a primeira dose da vacina, e somente 10% foi imunizada com as duas aplicações. Ou seja, mais de quatro meses depois do início da vacinação, somente 10% dos brasileiros concluíram o processo de imunização. "Se continuarmos nesse ritmo, toda a população será vacinada no final de 2022 ou no início de 2023. Não podemos deixar isso acontecer. Até lá, milhares de pessoas vão morrer. A pandemia não vai acabar", advertiu o professor. De acordo com Dias, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Programa Nacional de Imunização (PNI) têm capacidade para vacinar até dois milhões de pessoas por dia. O problema, acrescentou, é que não há a disponibilidade do imunizante.

Segundo o docente, atualmente o Brasil depende da China para obter os insumos farmacêuticos, necessários para a produção das doses. "Diante dos problemas diplomáticos que o país tem enfrentado, a China atrasou o envio dos insumos. Ainda assim, o volume que tem sido encaminhado é baixo", explicou. Para Dias, a imunização de 70% da população representa a imunidade comunitária, único meio para controlar a pandemia.

Nesse contexto, as vacinas são protagonistas no combate à doença. Além disso, acrescentou, é imprescindível a manutenção das medidas de segurança entre a população, como o uso de máscaras, de álcool em gel e a adoção do isolamento social. "Sem vacina, a única saída que temos é ficar em casa. Nos próximos dias vamos observar o aumento dos casos e internações, que são reflexos da falta de cuidado da população", analisou.

O lockdown, prosseguiu Dias, seria necessário em locais que estejam com o sistema de saúde saturado. "Enquanto não temos a vacina, as pessoas precisam se lembrar que a máscara salva vidas. Sem a vacinação em massa, as pessoas vão precisar conviver com o abre e fecha do comércio e com uma economia abalada. Precisamos cobrar do governo federal a imunização!", conclamou. Segundo o professor, conforme as pessoas são infectadas, o vírus vai se adaptando ao hospedeiro.

Desta forma, mudanças no código genético do Sars-Cov-2 devem ocorrer com o tempo. Por isso, de acordo com Dias, sem a vacinação rápida é inevitável que o micro-organismo sofra mutações. O perigo, acrescentou, é que entre as modificações o vírus evolua a ponto de a vacina não surtir mais efeito. "Se o Sars-Cov-2 começar a escapar das respostas dos anticorpos produzidos pelo imunizante, pode ser que apareça uma variante dominante", esclareceu.

O cientista comparou o combate ao vírus causador da covid-19 a uma guerra. No embate, o vírus não pode encontrar meios para se adaptar ao ambiente. De acordo com Dias, mesmo poucos meses depois do início da vacinação é possível observar os reflexos positivos do imunizante. Entre os idosos, que são um dos grupos prioritários, diminuíram as internações pela covid-19. "Em contrapartida, observamos o aumento das infecções entre os mais jovens, com menos de 50 anos, população que ainda não recebeu a vacina. Os óbitos na população idosa, causados pelo novo coronavírus, diminuíram cerca de 90% na cidade de São Paulo, se comparados os meses de abril e março deste ano. Isso mostra que a vacina funciona", reforçou.

Em Campinas, cidade com mais de 1,2 milhão de habitantes, apenas 159.075 pessoas receberam as duas doses até ontem. O município, portanto, também segue um ritmo semelhante ao da vacinação no país, com pouco mais de 13% da população imunizada completamente.

Pessoas abaixo de 60 anos são as maiores vítimas da covid

De acordo com o médico infectologista do Hospital PUC-Campinas, André Giglio, é possível notar a mudança no perfil das vítimas da covid-19 nos últimos meses, com o aumento expressivo nos indicadores de internação e de óbitos entre as faixas etárias não tão elevadas. "Se pensarmos na maioria das pessoas que estavam internadas pelo novo coronavírus ano passado, e os que foram acometidos pela doença neste ano, há uma mudança drástica. São menos idosos entre 70 e 80 anos e mais pessoas com menos de 60 anos nos leitos. É inegável a participação da vacina na redução dos óbitos entre os imunizados", explicou Giglio.

O infectologista lembrou que a circulação da variante de Manaus (P1) pode ter contribuído com o aumento das mortes por covid-19, dado que é mais "virulenta", com um maior potencial para provocar um quadro grave da doença. "Em março deste ano vivemos o pior momento da pandemia até agora. O primeiro pico da doença ocorreu em julho do ano passado. Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), foram registradas mais de duas mil internações por semana em março de 2021. No início de maio, o número caiu para 1.200. Mas está aumentando novamente", analisou o médico.

Em relação à incidência do Sars-Cov-2, acrescentou Giglio, é possível obervar uma "montanha russa". De acordo com o médico, o período de queda nas infecções em 2020 foi entre setembro e outubro. A partir de novembro houve um aumento progressivo dos casos, até culminar no "boom" em março deste ano. "Passamos por uma situação de pequena melhora. Na sequência chegamos ao momento de desaceleração da doença, e agora estamos vendo os números subirem novamente. A situação atual é pior que o pico registrado em julho de 2020. Ainda falta muito para que tenhamos uma melhora na pandemia", concluiu.

PERDA

A assistente comercial Camila Contri, de 26 anos, faz parte da população com menos de 50 anos que foi infectada pela covid-19. O marido dela, o fotógrafo Ricardo Pontes, de 31 anos, também teve a doença, que o levou à morte depois de 20 dias de internação. Segundo Camila, acompanhar esse momento e deparar com a perda foi assustador. "O meu marido saía apenas para trabalhar. Estávamos tomando todos os cuidados possíveis, indo apenas ao mercado. Mas infelizmente a gente não conseguiu se proteger totalmente", lamentou.

Camila acredita que tenha contraído o vírus primeiro, pois sentiu os sintomas antes do marido. Ricardo era uma pessoa saudável, mas tinha uma doença que o classificava como grupo de risco, a asma. Segundo a esposa, foi isso que causou o agravamento do quadro de saúde dele ao contrair o novo coronavírus. "Depois de passar por tudo isso, comecei a ter mais crises de ansiedade, principalmente quando ouço as notícias relacionadas à pandemia. Por causa da minha idade, talvez ainda demore para chegar a minha vez de ser imunizada, por negligencia do governo, que não investiu antes na compra das vacinas", concluiu.

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Mariana Camba/Correio Popular